quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

REPETÊNCIA E EVASÃO ESCOLAR DE ADOLESCENTES EM RIBEIRÃO PRETO-SP: UMA PRIMEIRA ABORDAGEM




REPETÊNCIA E EVASÃO ESCOLAR DE ADOLESCENTES EM RIBEIRÃO PRETO-SP: UMA PRIMEIRA ABORDAGEM

REPETITION AND SCHOOL EVASION OF ADOLESCENT STUDENTS IN RIBEIRAO PRETO – SP: A FIRST APPROACH

RESUMO - Diversos autores apontam a repetência e a evasão escolar como resultados de um conjunto de causas. Ao desenvolvermos o ensino teórico-prático da disciplina Saúde da Criança nas escolas da rede oficial de ensino de Ribeirão Preto, ligadas ao Programa de Assistência de Saúde Escolar, deparamo-nos com tais problemas. Partindo daí, numa primeira abordagem, resolvemos estudar esta questão, com adolescentes de sétima série de algumas escolas da rede de ensino de Ribeirão Preto, no ano de 1995, para detectar quais as possíveis causas que contribuem para a evasão e repetência escolar em nossa cidade. A metodologia utilizada foi a estratificação social, através da qual agrupamos as escolas em carentes, mistas, padrão e particular, de acordo com a clientela que as frequentava. Após a estratificação sorteamos uma escola de cada grupo, entrevistamos os alunos repetentes e visitamos em suas residências os alunos evadidos. De acordo com os resultados encontrados em nossa amostra as causas mais apontadas pelos adolescentes para a repetência e evasão escolar são a necessidade do trabalho para auxiliar no orçamento familiar e a desmotivação pelo ensino.

Unitermos: evasão - repetência - adolescentes - escolar.

SUMMARY - REPETITION AND SCHOOL EVASION OF ADOLESCENTS IN RIBEIRÃO PRETO-SP: a first approach.  According to several authors many causes may lead to repetition and school evasion. When we developed the theoric-practical teaching of our discipline named Child’s Health in the schools linked to the PROASE (School Health Assistance Program), we faced such problems. From in a first approach, we decided to study this question, with adolescents from the seventh grade of those schools (official and private schools), in the year of 1995, to detect possible causes that contribute for repetition and school evasion in our city. The methodology used in this study was the social stratification, and in this way we grouped the schools as: needy, mixed, standard and private, according to the children who attended the schools. After the stratification we choose a school of each group aleatorily, and we interviewed the repeating students and visited the evaded students. According to the results, we found that the major cause of repetition and school evasion in our research was the need to work and help the family earnings, and that the students were not interested in learning.

Uniterms: evasion - repetition - adolescents - schools

INTRODUÇÃO

Este tema surgiu de nossa vivência nas escolas da rede oficial de ensino de Ribeirão Preto ligadas ao Programa de Assistência Primária de Saúde Escolar (PROASE), onde desenvolvemos parte do ensino teórico-prático da Disciplina Saúde da Criança na graduação de Enfermagem.

Durante nossas atividades na escola convivemos com o problema de crianças e jovens que ficam retidos nas séries ou abandonam seus estudos. Nossos primeiros contatos para conhecer melhor essa realidade foram através dos professores que nos apontaram a falta de interesse dos pais em relação ao ensino dos filhos, a miséria, a falta de alimentos em casa, a rebeldia da criança e os distúrbios orgânicos, como causas desse fracasso escolar; já em relação ao abandono, a necessidade de trabalhar para ajudar em casa, a gravidez entre as adolescentes, e o uso de drogas foram as mais apontadas. Recorremos a literatura para aprofundar um pouco mais essa questão de evasão e repetência na escola e encontramos vários trabalhos realizados por pesquisadores tanto das áreas da saúde, como da educação TAQUETE(17), TRINDADE(18), FERRIANI(10), COLLARES(6), entre outros.

Verificamos assim, que o Brasil enfrenta há alguns anos o grave problema do fracasso escolar, representado, pela reprovação e evasões de crianças de 7 a 14 anos. Em FAUSTO et al.(8). Encontramos que no I Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua, realizado em Brasília/DF, em Maio de 1986, a taxa de analfabetismo de menores de 7 a 9 anos alcançou 50,6% para o Brasil, e 68,9% para o Nordeste. Na faixa etária de 10 a 14 anos esse índice chegou a 14,5% na zona rural. Um outro estudo, realizado no Brasil em 1991 em convênio com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), revelou que 12,21 milhões de crianças e jovens entre 5 e 17 anos abandonaram os estudos ou nunca frequentaram uma escola. Dos 29,4 milhões que estudavam 57,1% ou seja 16,8 milhões estavam em séries atrasadas(15).

Em Ribeirão Preto, segundo a Divisão Regional de Ensino, em 1994 o índice de repetência da primeira a oitava série foi de 42,5%, e o de evasão foi de 33,7%.

Muitas causas são apontadas na literatura como responsáveis por essa situação, entre elas aparece a desnutrição proteico-calórica, sem dúvida uma das carências nutricionais mais importantes no Brasil, levando a lesões irreversíveis no sistema nervoso central, quando acomete crianças no início da vida.

CANO, et al.(4), acreditam que não só a desnutrição possa interferir no desempenho escolar, mas um conjunto de outros fatores interligados, uma vez que não se pode considerar a desnutrição isoladamente, mas em conjunto com outros elementos da estrutura social, como saneamento, habitação, condições sócio-econômicas, atuação médica, entre outros, e citam a merenda escolar que muitas vezes é a única refeição que a criança carente ingere durante o dia.

Para MOYSES(13), a merenda escolar deve ser encarada como uma pequena refeição feita na escola, com efeito saciador da fome do dia. Ao se alimentar a criança melhora seu rendimento, todavia essa melhora não significa que o problema da desnutrição está resolvido.

Entendemos que a desnutrição é um problema social e que não cabe à merenda escolar resolvê-lo e consequentemente diminuir as taxas de repetência e evasão.

Uma outra causa de fracasso escolar apontada frequentemente é a hiperatividade ou Disfunção Cerebral Mínima. A criança com esse diagnóstico é aquela que não consegue se concentrar, perturba a aula, é irriquieta, segundo SUCUPIRA(19), através dela medicaliza-se o fracasso escolar, mas a hiperatividade pode ser vista como expressão da inadequação do sistema de ensino às nossas crianças, refletindo em nível da escola os graves problemas sociais que vivenciamos.

Aliado a essas causas orgânicas encontramos em CECCON(5), que a falta de conhecimentos dos pais e o cansaço ao fim de um dia de trabalho favorecem para que os mesmos não acompanhem os filhos nas tarefas escolares e os estimulem. Para FERRERO(9), o sucesso da alfabetização depende do método de ensino adotado pela escola e o estado de maturidade ou prontidão da criança. No nosso entender, acresce-se a esses fatores a desmotivação dos professores em consequência da política econômica aplicada à educação nas últimas décadas e que, somadas às anteriores, contribuem para o fracasso da criança na escola.

Embora esses problemas interfiram no aprendizado, levando o aluno a um baixo rendimento escolar, este não se explica unicamente pelos fatores citados.

No que se refere ao fracasso escolar entre os adolescentes, encontramos no jornal O Estado de São Paulo(11), estatísticas que revelam que a criança brasileira é prejudicada pelo amadurecimento precoce, ao entrar para o mercado de trabalho, cerca de 30,0% dos jovens entre 10 e 17 anos estão de alguma forma incorporados a ele e, com isso, perdem a oportunidade de fazer o que é mais importante para eles, brincar, imaginar e criar. A situação mais grave, no entanto, é que há mais de 2 milhões de adolescentes entre 10 e 17 anos que trabalham sem nenhuma remuneração.

FALLEIROS(7) diz que o trabalho de crianças e adolescentes pobres é realizado preferencialmente na rua, como engraxates, vigias, lavador de carros, entre outros. Ao ingressar no trabalho, o adolescente deixa de frequentar a escola e perde a possibilidade de ascensão social através da educação.

Verificamos que as causas dessa situação são complexas e resultam da somatória de fatores educacionais, sociais e políticos. Por outro lado, tem sido frequente associar-se o fracasso escolar entre jovens às drogas e à gravidez precoce.

Uma pesquisa realizada por MUZA(14) em 1990 com 1025 adolescentes de Ribeirão Preto, revelou que 88,9% deles usam diariamente ou eventualmente algum tipo de bebida alcoólica e 69,0% deles estão com 3 anos ou mais de defasagem escolar; 6,2% dos entrevistados já experimentaram maconha e 2,7% cocaína. Em São Paulo está aumentando o uso de tóxicos entre jovens, em 1981 foram registrados 580 casos e em 1987 esse número subiu para 1416 casos. Com relação à gravidez na adolescência, apontada informalmente pelos professores como uma das causas do fracasso escolar, encontramos em uma pesquisa realizada por TAQUETE(17) na cidade de Franca, SP, com 100 mães adolescentes com idade entre 16 e 21 anos, que 26,0% delas deixaram a escola quando engravidaram.

Segundo YAZZLE(16), o abandono escolar impede a formação profissional, criando problemas sociais. A gravidez na adolescência não é uma característica dos países do Terceiro Mundo, acontece também nas grandes potências econômicas e culturais como Estados Unidos e alguns países da Europa. Segundo projeções do IBGE, 20,0% das crianças nascidas no Brasil são filhas de mães adolescentes, nos Estados Unidos esse índice é de 16,0% e no Canadá, 9,5%.

As adolescentes engravidaram sem planejamento, entre outras causas, por falta de informação, difícil acesso a serviços especializados, desconhecimento de métodos anticoncepcionais e, muitas vezes, a procura de uma relação afetiva. Soma-se a esse quadro a desestrutura familiar, e o baixo nível sócio-econômico (PROSAD(1), TAQUETE(17)).

A única maneira dos adolescentes adquirirem conhecimentos relacionados à saúde reprodutiva é a educação, através de metodologias como: adolescente informando ao seu próprio grupo, formação de multiplicadores, intercâmbio com equipe de saúde e outros (PROSAD(1))

Diante dos dados da literatura, da nossa vivência e sabendo que o índice de repetência e o abandono escolar entre alunos de 5ª a 8ª séries é alto em Ribeirão Preto, buscamos apartir de uma primeira abordagem, conhecer as causas do fracasso escolar a partir do ponto de vista dos adolescentes repententes e evadidos, de algumas escolas da rede oficial de ensino de Ribeirão Preto.



METODOLOGIA

Com a intenção de trabalhos futuros mais abrangentes sobre a questão da evasão e repetência entre adolescentes, optamos pela realização de um trabalho piloto com alunos repetentes e evadidos da sétima série das escolas de primeiro grau de Ribeirão Preto/SP com idades entre 13 e 17 anos. Para as entrevistas, elaboramos um roteiro junto com professores de uma escola estadual sorteada entre as 86 que compõem a rede com questões fechadas e abertas onde os adolescentes pudessem colocar suas opiniões livremente. (anexo I).

Embora nos propuséssemos a estudar alunos de sétima série, não seria possível envolver todos por várias razões, entre elas, o tempo e os custos que envolvem uma pesquisa que utiliza entre outros instrumentos a visita domiciliária. Optamos por trabalhar com uma amostra composta por adolescentes de diferentes níveis sociais para termos uma visão, o mais próximo possível, das questões que envolvem o fracasso escolar.

Decidimos estratificar as escolas, segundo a clientela que as frequentava em: carentes, mistas, padrão e particular. Para esta estratificação nos baseamos em CANO(3)que apresenta escolas carentes como aquelas frequentadas por crianças provindas de família de baixa renda, residentes em bairros periféricos e carentes da cidade;escolas mistas frequentadas por crianças carentes e também por crianças provindas de famílias de melhores situações sócio-econômicas e residentes em bairros mais próximos do centro da cidade, cujos pais trabalham no comércio, indústria, ou pequenos negócios,

essas escolas são mais próximas do centro da cidade e consideradas escolas grandes, com mais de 1000 alunos; escolas padrão possuem uma clientela diferenciada economicamente que reside nos bairros considerados como de classe média, servidos por várias linhas de ônibus, com infra-estrutura de saneamento básico, áreas de lazer e pequeno comércio; escolas particulares nesse agrupamento, incluímos somente aquelas com mensalidade de 1 ou mais salários mínimos, onde pensamos encontrar uma clientela mais diferenciada não só econômica, como socialmente.

Após a estratificação, realizamos o sorteio de uma escola de cada grupo formado, visando encontrar crianças de diferentes estratos sociais. Após o sorteio entramos em contato com as Delegacias de Ensino, a qual ela pertencia, para explicar nossa pesquisa. Após a permissão, conversamos com os diretores e iniciamos nosso trabalho junto a secretaria, levantando o nome dos alunos repetentes e os que deixaram a escola em 1994 quando cursavam a citada série.

Os alunos repetentes foram entrevistados na própria escola, durante as atividades escolares nos períodos matutinos, vespertinos e noturnos. Os evadidos foram entrevistados em suas residências. Para as visitas às escolas e residências utilizamos condução própria, ônibus circular e/ou perua do Programa de Saúde Escolar (PROASE). Essa atividade foi realizada durante os meses de Maio a Agosto de 1995.



RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dos 44 alunos que participaram da pesquisa, 23 eram repetentes e 21 abandonaram a escola em 1994. Dos alunos repetentes, 3 pertencem a escola particular, 6 aescola carente; 9 alunos estudavam em escola mista e 5 em escola padrão. Ao observarmos esses dados, verificamos que o maior contingente de alunos repetentes 15, frequentavam as escolas públicas carente e mista, sendo que destes 6 estavam em cursos noturnos.

Dos 21 alunos que abandonaram a escola em 1994, 11 pertenciam a escola carente, sendo que destes, 3 não foram encontrados em seus endereços nas visitas domiciliárias e os demais frequentavam a escola mista e padrão. Na escola particular não encontramos alunos evadidos.

Programa de Saúde do Adolescente – Prosad1 aponta que, dos 32 milhões de estudantes brasileiros, 17,0% alcançaram o fim do ensino fundamental; 9,0% chegaram ao final do ensino médio e 18,0% alcançaram o fim do ensino superior. Para FERRERO(9), o sucesso da alfabetização depende do método de ensino adotado pela escola. Concordamos com essa afirmação e acrescentamos a esse fator a desmotivação dos professores para ensinar, principalmente nas escolas públicas em consequência das políticas econômica e educacionais aplicadas ao ensino nas últimas décadas.

Pelo exposto, verifica-se que a grande deficiência do sistema educacional, político e econômico, traduz-se pelo alto índice de evasão escolar e pela precária qualidade da educação.

A seguir apresentamos as respostas dos 41 adolescentes, tanto evadidos como repetentes, para as questões formuladas durante as entrevistas.



Com relação ao número de vezes que repetiu a sétima série:

    evadidos: 6 ( 33,3% ) foram reprovados uma vez; 3 (16,7%) foram reprovados duas vezes e 9 (50,0%) repetiram outras séries, e portanto estavam com idades mais avançadas em relação aos outros alunos que frequentavam a sétima série com idade variando de 16 a 23 anos.
    repetentes: 18 (78,3%) cursavam a sétima série pela segunda vez e 5 (21,7%) pela terceira vez.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) revelou que 12,1 milhões de crianças e jovens entre 5 e 17 anos abandonaram os estudos ou nunca frequentaram uma escola e dos 29,4 milhões que estudavam 57,0% estavam em séries atrasadas devido à repetência (FAUSTO et al.(8)).

Procuramos saber se esses alunos já haviam frequentado outras escolas antes dessa reprovação e verificamos:

    50,0% deles mudaram de escola uma vez quando foram reprovados;
    30,0% já haviam frequentado duas escolas anteriormente;
    20,0% já haviam mudado de escola três vezes.

Isso nos mostra a necessidade desses alunos buscarem uma nova escola, na qual se adaptem e/ou aprendam melhor. Para MILANI(12) na interação adolescente/escola a questão que mais preocupa é o insucesso escolar. Nota-se em muitos adolescentes uma queda de rendimento, acompanhada por um desinteresse pelos estudos aparentemente sem motivo.

Segundo a Divisão Regional de Ensino de Ribeirão Preto, a taxa de evasão e repetência escolar da sétima série na ano de 1994 nas escolas estaduais, municipais e particulares foi:

    Escolas Estaduais: evasão: 13,2%
    retenção:21,6%
    Escolas Particulares: evasão: 3,4%
    retenção: 12,9%
    Escolas Municipais: evasão: 11,8%
    retenção: 14,0%

        Perguntamos também para os adolescentes:

    O que a escola representa para você?
    10 (24,4%) responderam que é um local para comer, namorar, encontrar amigos, diversão, esporte.

Para MILANI(12), o adolescente leva da escola para o lar, além dos deveres de casa, muitas e variadas emoções: alegria de ter feito um gol, a vergonha de não ter sabido responder uma pergunta do professor, a ansiedade pelas notas, entre outras. Concordamos com esse autor e pensamos que essa ligação do adolescente com a escola deveria ser melhor explorada e reverter em benefício para o próprio adolescente e sua vida escolar.

Vemos ainda, nessa questão, que para 20 alunos (48,8%) a escola representa um local de aprendizagem, conhecimento e preparo para o futuro; 5 (12,2%) responderam que a escola representa para eles uma forma de subir na vida, ter uma profissão, ascensão social. Encontramos essas respostas entre alunos de escola padrão, mista e particular; 6 (14,6%) referiram local que me desagrada, não sei explicar o que representa, acho que é para aprender, são respostas de alunos de escola carente.

Com relação à questão você gosta de estudar? obtivemos 18 alunos (43,9%) que gostam mais ou menos; 8 (19,5%) dizem que não e apenas 15 alunos (36,6%) responderam que sim.

Perguntamos ainda a esses alunos qual a exigência de seus pais em relação aos estudos? 24 pais (58,5%) não se preocupam; 12 (29,3%) exigem que o filho estude, sendo que esses alunos pertencem a escola particular ou padrão, e 5 pais (12,2%) não fazem exigências, mas procuram acompanhar e ajudar os filhos nas tarefas escolares.

A última questão refere-se especificamente aos alunos evadidos: qual o motivo do abandono escolar? 10 (55,6%) responderam que precisavam trabalhar para ajudar a família; 1 aluna (5,6%) respondeu que estava grávida na época que saiu da escola e 7 (38,9%) dividiram as respostas em : porque não estava gostando da escola; porque não estava aprendendo nada; estava perdendo tempo; porque repeti o ano.

Através dessas respostas, observamos que as dificuldades financeiras estimulam as famílias a inserir os filhos no mercado de trabalho para aumentar a renda familiar. Na literatura encontramos que 30,0% dos jovens brasileiros estão engajados no mercado de trabalho. (FALLEIROS(17))

Segundo esse mesmo autor o trabalho da criança e adolescente pobre é realizado preferencialmente na rua, como engraxates, vigias, lavador de carros, entre outros. Ao ingressar no trabalho, o adolescente deixa de ir à escola e perde a possibilidade de ascensão social através da educação. Reproduzindo o modelo da maioria dos países pobres, o trabalho é uma atividade quase compulsória para jovens que nascem em famílias carentes no Brasil. O ideal seria que a escola não tivesse concorrente.

Observamos também pelas respostas a dificuldade dos alunos com relação ao ensino e à própria escola.

Segundo o Programa de Saúde do Adolescente - PROSAD(1) cabe a escola promover a aprendizagem, mas essa só se realizará a medida que causar satisfação, em que se faça sentir "do jovem", e não para o jovem.

O jovem irá aprender o que for interessante a ele no momento que sentir-se totalmente envolvido por seu processo de aprendizagem, livre para desenvolver as suas potencialidades.

Cabe ressaltar que na escola particular não encontramos alunos evadidos.

Outro fato que nos chamou a atenção foi o de encontrar apenas uma adolescente que abandonou os estudos em função da gravidez; mas na época da entrevista ela já havia dado à luz e estava com o filho pequeno e não retornou à escola. Concordamos com YAZZLE(16) que a adolescente ao engravidar abandona a escola, perde oportunidade de uma formação profissional e pessoal que lhe acarreta problemas sociais.

Também não ouvimos qualquer referência às drogas, mas entendemos que essa questão envolve aspectos éticos e morais e dificilmente seria abordada pela escola ou família nesse tipo de pesquisa.



CONCLUSÃO

Nosso objetivo neste estudo foi uma primeira abordagem sobre as causas de fracasso escolar, a partir da opinião dos adolescentes repetentes e evadidos de algumas escolas da rede de ensino de Ribeirão Preto, pertencentes a diferentes estratos sociais

De acordo com os dados obtidos, as causas mais apontadas pelos adolescentes para justificar o fracasso escolar foram: a necessidade de trabalhar para ajudar no orçamento doméstico (55,6%) e a falta de estímulo ou exigência dos pais com relação aos estudos em (58,5%), o que de certa forma coincide com a afirmação dos professores das escolas onde desenvolvíamos nossas atividades.

Encontramos ainda uma outra causa de evasão escolar citada por 39,9% dos adolescentes de nossa amostra que é a desmotivação pelo ensino, traduzida como: não estava aprendendo; porque repetiu o ano; não estava gostando da escola. Destes alunos 20,0% já haviam mudado de escola três vezes e o grupo apresentava como um todo idades mais avançadas em relação aos demais colegas de classe, variando de 16 a 23 anos de idade.

Verificamos que na escola particular não havia alunos evadidos, e a exigência dos pais para que o aluno estudasse encontrava-se entre as respostas daqueles adolescentes que frequentavam a escola particular e padrão.

A partir desse estudo verificamos que algumas causas para o fracasso escolar já são conhecidas e apontadas na literatura e outras merecem reflexão por parte dos educadores e pais, principalmente aquelas ligadas às questões educacionais.

Analisando os resultados obtidos, acreditamos que novos trabalhos mereçam ser desenvolvidos na cidade de Ribeirão Preto como um todo, para se aprofundar a questão da evasão e repetência entre adolescentes.



        ANEXO I

        *REPETÊNCIA

        DADOS PESSOAIS

        NOME DO ALUNO:_______________________________SÉRIE:______

        PERÍODO:________SEXO:____IDADE:__________

        COR: BRANCO( ) NEGRO( ) AMARELO( ).

        NÚMERO DE VEZES QUE REPETIU A SÉR ATUAL:________________

        JÁ FOI REPROVADO EM OUTR SÉRIES?________QUAIS?_________

        NÚMEROS DE ESCOLA QUE JÁ FREQUENTOU:_________________

        *EVASÃO ESCOLAR

        NOME DO ALUNO:____________________________________________

        SÉRIE QUE SAIU DA ESCOLA:__________________IDADE:________

        SEXO:______COR: BRANCO( ) NEGRO( ) AMARELO( ).

        É ALUNO REPETENTE?______________EM QUAL SÉRIE?_________

        POR QUE SAIU DA ESCOLA? (DEIXAR O ALUNO FALAR LIVRE- MENTE). ________________________________________________________

        ________________________________________________________

        VOCÊ GOSTA DE ESTUDAR?

        QUAL A EXIGÊNCIA DE SEUS PAIS COM RELAÇÃO AO ESTUDO?

        _____________________________________________________________

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde do Adolescente: Bases Programáticas. (PROSAD). Brasília, 1993.

2-BONECAS DE VERDADE. Rev. revide. Ribeirão Preto, v. 5, n. 40, p. 47-51, 1992.

3-CANO, M. A. T. Detecção de problemas visuais e auditivos de escolares em Ribeirão Preto: estudos comparativos por nível sócio econômico. Ribeirão Preto, 1991. Tese (Doutorado) - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

4- CANO, M. A. T. et al. Participação da Enfermagem num programa de merenda escolar nas férias. Ped. Moderna, v. 21, n. 7, 1986.

5-CECCON, C. et al. A vida na escola e a escola da vida. Petrópolis, Vozes/Idal, 1983.

6-COLLARES, J. C. A saúde escolar e a repetência. Ped. Moderna, v. 21, p. 373-385,1985.

7-FALLEIROS, V. P. Saber profissional e poder Institucional. São Paulo, Cortez, 1985.

8-FAUSTO, A.;CERVINI, R. O trabalho e a rua:crianças e adolescentes no Brasil urbano dos anos 80. São Paulo, Cortez, 1991.

9-FERREIRO, R. Reflexões sobre alfabetização. 2.ed. São Paulo, Cortez, 1985.

10-FERRIANI, M. G. C. A inserção do enfermeiro na saúde escolar: análise crítica de uma experiência. São Paulo, EDUSP, 1991.

11-MAIS de dois milhões de crianças que trabalham sem ganhar. Folha S. Paulo, São Paulo, 13 out 1990.

12-MILLANI, F. Adolescência, família e escola: sistema intrigado que aflinge a vida do jovem: como melhor entendê-lo. Diálogo Médico, v. 18, n. 1, p. 14-17, 1992.

13-MOYSES, M. A. A. et al. Fracasso escolar, um fenômeno complexo: desnutrição, apenas mais um fator. Pediatria, v.5, p.263-269, 1983.

14-MUZA, G. M. Estudos das variáveis psicossociais associados por adolescentes escolares da cidade de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto, 1991. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

15-ONU: discute situação da infância. Estado de São Paulo. São Paulo, 30 set. 1990. Geral.

16-YAZLLE, M. E. Meninas não sabem evitar gravidez. Folha S. Paulo, São Paulo, 06 jul. 1993. p.1. Folha Nordeste.

17-TAQUETE, S. R. Sexo e gravidez na adolescência. Ribeirão Preto, 1991. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

18-TRINDADE, J. C. A saúde escolar e a repetência. Ped. Moderna, v.1, p. 373-386. 1986.

19-SUCUPIRA, A. C. L. Hiperatividade: doença ou rótulo? Caderno CEDES, n.15, p.30-47, 1985.

Autores

Maria Aparecida Tedeschi CANO -  Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Avenida Bandeirantes, 3900, Campus Universitärio.

Maria das Graças C. FERRIANI - Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Avenida Bandeirantes, 3900, Campus Universitärio.

Mônica Luis MENDONÇA - Aluna de Bolsa de Iniciação Científica - CNPq

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