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terça-feira, 2 de setembro de 2014

MYTHOS E LOGOS NO PENSAMENTO GREGO


MYTHOS E LOGOS NO PENSAMENTO GREGO


Todos os povos da antiguidade – assírios, sumérios, babilônios, persas, egípcios, hindus, chineses, romanos, gregos, hebreus – tiveram seus mitos। Povos descobertos mais recentemente – Astecas, Incas, índios brasileiros – também são ricos em acervo mítico. O que deixa os estudiosos admirados é o fato da mitologia grega sobressair-se a todas as demais. A admiração é explicável em virtude de ser justamente a partir desta forma mítica de compreender a realidade da natureza que nasce o pensamento ocidental. Em face da proeminência do mythos e do logos gregos sobre as demais manifestações do pensamento humano antigo é que se propõe, neste artigo, traçar o conceito de mythos e logos e a transposição de um para o outro na explicação da realidade no pensamento grego antigo.

O termo mito procede da língua grega (mu,qoj), podendo-se conceituá-lo como narrativa que objetiva explicar a realidade existente, sua origem e causa। Sua abordagem trata das questões referentes ao mundo, aos deuses e ao próprio homem. Este tipo de narrativa foi o primeiro esforço da humanidade para situar o homem no mundo, quanto a sua existência diante de tantos questionamentos que se lhe apresentam e que precisam de resposta. A princípio, perguntas a respeito da natureza como: “por que troveja?”, “por que chove?”, “de onde vem o vento?”, “como surgiu o mundo?”, “como surgiu o homem?”, e tantas outras questões, recebiam respostas que hoje não são admitidas. Na verdade, os homens da Antiguidade contentavam-se com aquelas respostas, tidas hoje como ingênuas, e com elas se acomodavam muito bem ao seu mundo.

Marilena Chauí apresenta o mito como “narrativa mágica ou maravilhosa, que não se define apenas pelo tema ou objeto da narrativa, mas pelo modo (mágico) de narrar, isto é, por analogias, metáforas e parábolas।” (Chauí, 1994 – pág. 32). É interessante este conceito, pois que chama a atenção não somente para a narrativa em si, mas também para o modo como era apresentada. Desde que era predominante oral, a narrativa prendia os ouvintes como uma armadilha das emoções. Para Vernant, mito é uma palavra formulada, seja de uma narrativa, diálogo ou da enunciação de um projeto (Vernant, 1992 – pág. 172). Turchi, citado por Battista Mondin, conceitua mito:

Em sua acepção geral e em sua fonte psicológica, o mito é a animação dos fenômenos da natureza e da vida, animação devida a alguma forma primordial e intuitiva do conhecimento humano, em virtude da qual o homem projeta a si mesmo nas coisas, isto é, anima-se e personifica-as, dando-lhes figura e comportamentos sugeridos pela sua imaginação; o mito é, em suma, uma representação fantástica da realidade, delineada espontaneamente pelo mecanismo mental (Mondin, 1981 – pág। 9 – 10).

Chama a atenção neste conceito o aspecto da animação। Na verdade, a narrativa mítica dava vida ao que era inerte. O ouvinte se sentia totalmente envolvido no seu enredo devido ao dado existencial transmitido pelo mito. Isto tornava o homem completamente ligado às personagens e aos fenômenos narrados no mito.

Ernst Cassirer diz que a mentalidade primitiva é caracterizada pelo seu sentimento geral da vida। O homem primitivo via a natureza de modo simpático. Ou seja, sentia-se envolvido nela e por ela. A natureza não era algo para ser explorado no sentido pragmático ou técnico. Era uma realidade a ser reverenciada, respeitada (Cassirer, 1972 – págs. 134 – 136).

Aranha e Martins (1992, págs। 62 – 68) dizem que o mito “é um modo ingênuo, fantasioso, anterior a toda reflexão e não-crítico de estabelecer algumas verdades...” O problema de algumas conceituações está na pressa do autor em adjetivar o seu objeto de estudo. Esquece-se de realizar apenas juízo de realidade e, firmado em um mero juízo de qualidade, afirma supostas realidades que são meros reflexos de seus condicionamentos culturais. O mito comporta várias possibilidades de interpretação. Partindo de qual ponto de vista o mito seria ingênuo? Considere-se que nos milênios futuros nossos conhecimentos terão uma consideração que provavelmente não nos agradaria conhecê-la. Medir o ontem pelo hoje é complicado, visto as circunstâncias de cada época comportarem as suas próprias justificativas. Neste aspecto, é interessante observar a valorização que muitos filósofos e estudiosos dão à elaboração mítica, considerando o mito como conservatório de uma inteligência que não teria a lógica do racional, mas que não deixaria de indicar caminhos de reflexão e que representaria uma via de compreensão da existência perfeitamente salutar. Sendo o mito “uma forma de se situar no mundo, isto é, de encontrar o seu lugar entre os demais seres da natureza”, como dizem as duas autoras, está ele em pé de igualdade com a razão, pois que esta também é uma forma encontrada pelo homem para se situar no mundo. A própria Pós-modernidade faz críticas ao império da razão, abrindo espaços para outras lógicas que comportam inclusive a realidade do Mito. Não seria mais viável dizer que cada forma de se situar no mundo possui a sua validade, desde que não leve o homem a extravagâncias comprometedoras de sua integridade?

“A verdade do mito não obedece à lógica nem da verdade empírica, nem da verdade científica। É verdade intuída, que não necessita de provas para ser aceita.” (Aranha & Martins, 1992, pág. 73). Essas duas orações oferecem base de crítica às duas autores quanto a erradicar o aspecto de ingenuidade da narrativa. Primeiro, o mito possui uma verdade; segundo, segue uma lógica, mesmo não se comprometendo com o empirismo, com o racionalismo ou com o cientificismo. Enquanto verdade intuitiva estabelece-se com plena autoridade e serve para se conhecer o ser humano do passado, como também do presente. Enfileiram-se nesta compreensão filósofos, teólogos, antropólogos e psicanalistas. A lógica dos arquétipos da humanidade expressa nos mitos é terreno amplo para se compreender o homem de todas as épocas. Seria o mito uma visão ingênua da realidade, ou será que ele precisa ser estudado levando-se em consideração, não a sua roupagem, e, sim, a sua essência?

Não se está dizendo aqui que o mito não foi usado indevidamente por muitos mentores da humanidade। Certo que sim! Mas isso não anula a validade do mito em si. A tendência de interpretar o mito como visão puramente fantasiosa da realidade talvez se deva à influência de filósofos gregos, juntamente com os Padres da Igreja e tantos outros filósofos, visto considerarem os mitos como simples fábulas। O fato é que, nos últimos tempos, além da visão de mito como visão fantasiosa da realidade, tem-se abordado o mito-verdade. Mais precisamente a partir do começo do século XX, autores como M. Eliade, Freud, Jung, Heidegger, Lévi-Strauss e Bultmann apoiaram a interpretação mito-verdade. Concordam estes estudiosos quanto ao fato de que o mito esconde, atrás de sua capa de imagens, verdades que foram apreendidas pelo homem primitivo e que o homem moderno, devido ao seu condicionamento epistemológico racionalista, não consegue divisar as mesmas verdades.

Um dos grandes ataques sofrido pelo mito foi deflagrado pelo Positivismo। Depois de toda a sua investida frustrada contra o pensamento mítico, chega-se à conclusão de que ingênuo é o próprio Positivismo, quando quis desterrar um fenômeno que faz parte da própria índole da natureza humana. Afinal, tudo o que pode, o ser humano faz para se situar significativamente no seu mundo. E se neste caso vale o mito, que o valha.

Pode-se concluir este ponto, dizendo-se que o mito é uma “primeira fala sobre o mundo” que ainda hoje permanece falando e continuará a exercer a sua influência sobre a humanidade। Pode não explicar a realidade no sentido empirista, cientificista ou racionalista, mas a explica de modo que, em sua função básica, continua acomodando o homem ao mundo. E aqui se apresenta um paradoxo: o mito de tantos ismos que acomoda o homem ao mundo, dando-lhe visões diversificadas da realidade.

O termo logos procede da língua grega (lo,goj). Dentre tantos significados, segundo Chauí,
Logos reúne numa só palavra quatro sentidos: linguagem, pensamento ou razão, norma ou regra, ser ou realidade íntima de alguma coisa। No plural, logoi, significa: os argumentos, os discursos, os pensamentos, as significações. Logia, que é usado como segundo elemento de vários compostos, indica: conhecimento de, explicação racional de, estudo de. (Chauí, 1994 – pág. 33).

Segundo Julían Marías, o logos diz o que as coisas são, e mantém estreita ralação com o ser tanto do ponto de vista da verdade como da falsidade। O homem é o animal que tem logos, sendo, portanto, o órgão da verdade (Marías, 1969). Aster apresenta-se bem convicto quanto à natureza da palavra logos. Diz este autor que se for o caso de ressaltar algum conceito e pensamento especificamente grego, só pode sê-lo o conceito de logos. Logos é a palavra prenhe de sentido, o discurso racional como fenômeno primitivo do mundo como forma fundamental do pensar e do realizar (Aster, 1945). Abbagnano trabalha o conceito de logos desde o seu uso por Heráclito. Este considerava o logos como sendo a própria lei cósmica: “Todas as leis humanas alimentam-se de uma só lei divina: porque esta domina tudo o que quer, e basta para tudo e prevalece a tudo” (Fr. 114, Diels). Essa forma de entender o logos parece coadunar-se bem com o pensamento estóico. Abbagnano chega a afirma que a doutrina do logos foi sempre religiosa (Abbagnano, 2000). Neste sentido também trabalha Aster sobre Heráclito, citando: “El sabio es unicamente uno. Quiérase o no, há de llamársele Zeus” (Aster, 1945). Por esta via de interpretação, vê-se claramente que logos passa pela mesma realidade que mito: Cumprem função religiosa.

Destes conceitos apresentados, o conceito de Chauí consegue, de modo sintético, com os quatro sentidos do logos: “linguagem, pensamento ou razão, norma ou regra, ser ou realidade íntima de alguma coisa”, expressar a realidade do logos não deixando brechas para maiores ou menores explanações a serem acrescentadas, considerando-se que toda a história da filosofia é por si mesma a história do logos e já lhe conceitua extensivamente।

É consenso entre os estudiosos que a passagem do pensamento mítico para o pensamento racional não se deu da noite para o dia। Houve mesmo um período em que os dois tipos de abordagem coexistiram na sociedade grega, do mesmo modo que na contemporaneidade pode-se divisar estas duas realidades. Segundo Vernant, é no princípio do século VI a. C., na Mileto jônica, que se pode fixar a data e o lugar de nascimento da razão grega. Três são os responsáveis por este surgimento do pensamento racional: Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Portanto, são os Pré-socráticos os responsáveis, estes citados e outros, que vão contribuir para que o logos suceda ao mito. Toda as explicações teogônica e cosmogônica são substituídas por um discurso sem a ação de potências sobrenaturais como explicação para a realidade existente (Vernant, 1994 – págs. 73 e 74).

A abordagem elaborada por Marilena Chauí é por demais interessante, pois que apresenta duas visões de interpretação do fenômeno concernente à passagem do mito para o logos. A primeira interpretação diz que não houve continuidade entre a filosofia e o mito. Segundo Chauí, Burnet apresenta duas características do mito que se contrapõem à filosofia. Primeira,
“o mito pergunta e narra sobre o que era antes que tudo existisse, enquanto o filósofo pergunta e explica como as coisas existem e são agora; segunda, o mito não se preocupa com as contradições e irracionalidades de sua narrativa; aliás, usa contradições e irracionalidades para justificar o caráter misterioso dos deuses e suas ações; a filosofia afasta os mistérios porque afirma que tudo pode ser compreendido pela razão e esta suprime e explica as contradições।” (Chauí, 1994 – pág. 28) (Grifo da autora) .

Segundo Chauí, a interpretação contraposta é apresentada por Cornford। Segundo este, a filosofia nascente não fazia experimentos com a natureza e desconhecia a idéia de verificação e de prova. Na verdade, a filosofia tomou as formulações da religião e do mito e as colocou em forma de pensamento abstrato. O que vai ficar claro para Werner Jaeger é que a história da filosofia grega é um processo de progressiva racionalização do mundo presente no mito (Chauí, 1994 – pág. 29 – 33).

Esta abordagem é curiosa, pois que nos remete aos primeiros momentos do filosofar grego, quando as explicações apresentadas chamam à mente as figuras usadas nos mitos। É o caso de Tales de Mileto quando pensa em água como o princípio originário da realidade existente. De imediato vem à mente Homero com o deus Oceano dando origem a todas as coisas. Quando se pensa sobre o transcorrer das relações afetivas entre os deuses e os humanos expressas nos mitos, pode-se pensar em Empédocles elaborando os princípios do amor e do ódio como forças naturais, agindo sobre a realidade existente. Hesíodo e seu deus Eros não estariam em Empédocles? Parece evidente a interação entre mythos e logos a princípio.


Conceba-se a interação, mas se pense também como evidente as diferenças entre mythos e logos. O mito vincula-se à tradição oral; o logos à literatura escrita. No princípio mythos não contrasta com logos. Os valores semânticos são bastante aproximados. Os mythos são também hieroi logoi, discursos sagrados. O surgimento da oposição entre mythos e logos, marcando a concepção de realidade dos gregos, acontece justamente entre os séculos VIII e IV a. C. “Um primeiro elemento a se reter nesse plano é a passagem da tradição oral a diversos tipos de literatura escrita.”, diz Vernant. Acontece que a linguagem filosófica adianta-se no uso de abstrações dos conceitos e emprega um vocabulário ontológico. Vernant diz que o logos, no período citado, instaura-se “na e pela literatura” como discurso racional e não somente como palavra. Justamente neste nível de discurso racional demonstrativo é que vai se contrapor ao mythos. Isto do ponto de vista de quem elabora o logos. Mas acontece transposição na perspectiva do receptor do logos, o público que toma conhecimento do texto. Diz Vernant que a leitura supõe uma outra atitude de espírito. Ora, se diante do mito o espectador quedava-se como que enfeitiçado, diante do logos a atitude é de frieza racional, disposição para a “argumentação contraditória” (Vernant, 1992 – pág. 175). Não se depende mais da participação emocional, como acontece com o mito. O mito é dogmático na apresentação de sua verdade. O que deixava o ouvinte em estado de obrigação à crença em sua verdade. O logos é liberal, aberto ao debate, à dialética. Vernant conclui:

... Desse ponto de vista, tudo o que dava à palavra falada seu poder de impacto, sua eficácia sobre outrem, se acha dali em diante rebaixado à classe do mythos, do fabuloso, do maravilhoso, como se o discurso só pudesse ganhar na ordem do verdadeiro e do inteligível perdendo ao mesmo tempo na ordem do agradável, do emocionante e do dramático (Vernant, 1992 – pág. 175).

Pelo acima exposto, compreende-se que mythos e logos são realidades consideravelmente importantes para a compreensão do surgimento da filosofia grega. Não somente para esta, como também para todo o pensamento ocidental. Ainda mais quando se concebe a força destas duas formas de pensar a realidade influenciando até mesmo o homem contemporâneo, seja ele partícipe do senso comum ou mesmo alguém afeito aos temas que exploram a sua capacidade intelectual. Na verdade, mythos e logos vêm sustentar a convicção de que o ser humano busca responder aos seus questionamentos não meramente aprisionado a uma única forma de solução. Considere-se ainda que, sendo o homem quem tem sido, sua forma de elaborar estas duas realidades, mythos e logos, fá-las intercambiar-se sem se perderem em generalizações. A existencialidade humana vem-nos provar que o mythos pode estar no logos e o logos no mythos. O mythos, enquanto discurso, possui o seu logos específico. O logos, enquanto forma de acomodar o homem ao seu mundo, possui o seu dado mítico. A crença no logos como algo absoluto, radical para explicar o mundo traz em si a marca do mythos.

BIBLIOGRAFIAItálico
ASTER, Ernst Von. Historia de la filosofía. 2ª ed. Barcelona, Espanha. Biblioteca de Iniciación Cultural, 1945. 477 págs.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 4ª edição. São Paulo. Martins Fontes, 2000. 1014 págs.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. 1ª ed. São Paulo. Editora Moderna, 1992. 232 págs.
CASSIRER, Ernst. Antropologia filosófica. São Paulo. Mestre Jou, 1972 – págs. 134 – 136.
Chauí, Marilena de Souza. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, Vol. I. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. 390 págs.
MARÍAS, Julián. Historia de la filosofía. 21ª Edição. Madrid – España. Editorial Revista de Occidente, S. A., 1969.
MONDIN, Battista. Curso de filosofia. Vol. I. 8ª Edição. São Paulo. Paulus, 1981. 232 págs.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 8ª edição. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 1994. 95 págs.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e sociedade na grécia antiga. Rio de Janeiro. José Olimpio, 1992. 221 págs.

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