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Especializações em gestão escolar proporcionam chance de ascensão profissional



Caderno de Gestão

Um degrau a mais


Especializações em gestão escolar proporcionam chance de ascensão profissional


Rubem Barros

Aos 48 anos, casado e sem filhos, o piauiense João Pereira da Silva, graduado com licenciatura em química, trabalha no magistério há 19 anos. Em 2004, resolveu fazer uma complementação pedagógica, exigida por lei, para habilitar-se a concorrer ao cargo de diretor, quando surgisse um concurso público.
Não precisou esperar até lá. Pouco tempo depois de terminar a complementação, a oportunidade se apresentou. Desde março deste ano, João passou ao cargo de vice-diretor da EE Domingos Peixoto, em São Bernardo do Campo (SP), a escola onde lecionava.

A ascensão foi bem-vinda, mas não o satisfez. Ao mesmo tempo em que assumiu a nova função, começou a cursar a pós-graduação lato sensu em "Gestão do Conhecimento e do Capital Intelectual", do Senac, voltada a gestores de diversas áreas.
"Fazia tempo que estava procurando um curso de pós em gestão. Dentro da sala de aula, temos uma limitação muito grande de aprendizagem e de entender melhor a educação. O professor acha que a direção tem de resolver todos os problemas da escola.
Isso não existe. A gestão tem de integrar tudo para que todos possam participar da resolução dessas questões", reflete Pereira da Silva.
Os conhecimentos adquiridos no novo curso estão ajudando em sua primeira tarefa para cumprir esse ideal de integração: o vice-diretor está coordenando a construção do Projeto Pedagógico Coletivo da escola. A proposta foi o meio encontrado para induzir a participação coletiva. "Antes de ter algum tipo de preconceito contra a gestão, é preciso conhecer o que ela é, pois é um universo muito rico", diz.
As preocupações de Pereira da Silva não são caso isolado. Derivam de um composto de elementos que deverá elevar significativamente a oferta de cursos de extensão universitária ou de especialização (pós-graduação lato sensu) na área de gestão, tanto especificamente voltados à educação formal, como aqueles mais abertos, destinados à educação corporativa ou ao terceiro setor.
"Nesses últimos anos, descobriram a questão da gestão em todas as áreas, inclusive na educação. Agora, há vários projetos nessa área para formar gestores em serviço. Porém, o que existe ainda é insuficiente. A própria literatura de gestão educacional é muito limitada, utiliza-se de material importado de Portugal e Espanha. Estamos estimulando novas teses nessa área", relata Myrtes Alonso, professora da PUC-SP e uma das organizadoras do livro Gestão Escolar e Tecnologia (Editora Avercamp, 2003).
Novas diretrizes
A mudança da legislação, nos planos federal e estadual, também tem contribuído para que a oferta de cursos, tanto da graduação em pedagogia como de pós-graduação, sofra um rearranjo. As mudanças começaram a ocorrer com a edição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96), que entrou em vigor há dez anos e estabelece que a formação de todos os professores do ensino básico deve ser de nível superior e a dos profissionais das áreas de administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional pode ser feita nos cursos superiores de pedagogia ou por meio de cursos de pós-graduação, "a critério da instituição de ensino", desde que mantida a mesma base comum nacional.

Em 15 de maio deste ano, o Conselho Nacional de Educação editou resolução (CNE/CP nº 1) que institui as "Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia, licenciatura", aumentando a carga horária de 2.800 para 3.200. Segundo a resolução, o curso de pedagogia se destinará essencialmente à formação de professores da educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental, incluindo competências para atividades de "gestão democrática escolar".
Ou seja, a gestão administrativa da escola, que antes da nova Lei de Diretrizes e Bases era reservada a quem tinha formação específica, pode agora ser exercida por profissionais graduados em pedagogia ou com licenciatura em outras áreas que façam a especialização em gestão escolar. Nesse último caso, como os cursos de pós-graduação lato sensu não têm de ser aprovados pela Capes, o órgão federal que supervisiona e fiscaliza os cursos de stricto sensu (mestrado), cada unidade da federação estabelece a carga horária mínima para qualificar os profissionais às funções administrativas. 
A assinatura da resolução do Conselho sobre as diretrizes da graduação foi a bandeirada de largada para a formatação de novos cursos de gestão na pós-graduação ou para a reformatação de muitos que já existiam. Algumas instituições, como o Senac, preferem oferecer opções menos especializadas, como o curso de gestão do conhecimento, que, se não habilitam o aluno ao exercício de função administrativa, permitem que se aprofunde em alguns aspectos da gestão.
Necessidade de aprofundamento
Há um quase consenso de que quem quiser efetivamente estar apto a desempenhar as funções de diretor, orientador e supervisor deve buscar complementar sua formação. "Geralmente, os pedagogos que têm apenas a formação da graduação na área de gestão vêem que nesse nível o processo é muito rápido, insuficiente", diz Shiderlene Lopes, coordenadora pedagógica de Educação do Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, que ministra o curso "Gestão Educacional: Coordenação Pedagógica", nos Estados da Bahia e de Tocantins. Nesses Estados, os cursos têm, respectivamente, 600 horas e 360 horas. Já em São Paulo, a deliberação 53/2005 estabelece que, para qualificar os concluintes a exercer os cargos administrativos, os cursos deverão ter 1.000 horas, distribuídas entre formação básica (200 horas), específica (600 horas) e estágio (200 horas).
Inaugurada em 2004, a pós-graduação em "Gestão Educacional" da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) já se adaptou à legislação para atender sua segunda turma. Segundo o coordenador, Rômulo Nascimento, foram criadas novas disciplinas, como "Informática e Formação de Gestores", "Escola, Família e Sociedade" e "Supervisão Educacional", entre outras, para responder à deliberação estadual.
"A legislação melhorou, direciona mais a formação e busca orientar para um projeto de estágio. No nosso caso, o curso está formatado para possibilitar a continuidade dos estudos na pós stricto sensu e abrir as portas para o profissional lecionar no ensino superior na área de sua graduação", explica Nascimento.
Mas nem todos os alunos têm esse objetivo. Rosane Flamínio, 32 anos, professora há 13 anos, foi fazer o curso da Unicsul em busca de maior fundamentação teórica para a prática educacional. Professora do 2o ano da educação fundamental na Emei Amadeu Amaral, na Penha, em São Paulo, Rosane quer, futuramente, ser diretora.
"A visão que eu tenho da escola depois do curso é muito diferente, reparo até na merenda. Normalmente, o professor acha que só ele trabalha. Por enquanto, ainda me realizo muito em sala de aula, mas futuramente quero ir para a área administrativa", diz.
É o mesmo caso de sua colega Mônica Cardoso Pereira, 23 anos, graduada em Letras e professora de Espanhol em quatro escolas, duas públicas e duas particulares. Segundo ela, quando começou a lecionar, ainda no 2o ano de faculdade, "não entendia bulhufas de didática". As reuniões pedagógicas eram um verdadeiro martírio. A participação em um programa extracurricular no último ano da graduação fez com que se interessasse por disciplinas afins com a gestão escolar e decidisse fazer a pós.
"Comecei a enxergar coisas que não via na graduação. Abri minha cabeça, aprendi a ler a LDB, a interpretar as diretrizes e os parâmetros curriculares, coisas que antes achava uma chatice. Aprendi onde buscar o que preciso, inclusive para usar na sala de aula", conta Mônica.
O curso ajudou a passar no concurso público para professora na prefeitura de Guarulhos, em São Paulo, onde entrou em 37o lugar. Mônica acha que tem de adquirir mais vivência em sala de aula para, daqui a alguns anos, passar a atuar na área de gestão escolar. "Quero chegar a diretora de escola pública. Acredito no ensino público e quero chegar lá para fazer alguma diferença, com uma visão transformadora", projeta.
Foco no mercado de trabalho
"Diria que tem características de um mestrado profissionalizante". Assim a professora Sanny Silva da Rosa define a especialização em "Gestão da Educação Básica", curso que coordena na Universidade São Marcos, em São Paulo, e cuja primeira turma teve início em agosto.
"Com base na experiência acumulada, o que se percebe é que a graduação em pedagogia na prática não habilita para a atuação como gestor. Então, nosso objetivo é profissionalizar a gestão e aprofundar determinados temas. Por isso, trouxemos professores com grande experiência em coordenação pedagógica, sistemas de ensino e outras disciplinas contempladas no curso", explica Sanny Rosa.
Para a professora, os limites antes muito claros entre as áreas pedagógica e administrativa não existem mais. Hoje, pede-se uma visão de conjunto, não-especializada. O que especializa é a prática.
"O conhecimento fica obsoleto muito rapidamente. A velocidade com que as coisas acontecem está na contramão da idéia de aprofundamento. Então, agimos muito mais no sentido de formar competências para auto-aperfeiçoamento da formação do que com a pretensão de oferecer uma formação completa", conclui a coordenadora.
Essa visão não-estanque dos saberes disponíveis também está presente na especialização que a Universidade Mackenzie passa a oferecer a partir de fevereiro do ano quem vem (1a turma), intitulada "Gestão Educacional na Contemporaneidade". Fruto de remodelação da antiga pós "Gestão da Escola na Educação Básica", o novo curso responde à demanda por uma formação mais ampla. Voltada a profissionais interessados em atuar como líderes gestores em espaços educacionais diversos (não apenas formais), a pós lato sensu trabalha com questões ligadas a tecnologia, marketing, gestão do conhecimento e de projetos educacionais, avaliação de instituições, clima organizacional e desenvolvimento de lideranças.
Como a maioria dos cursos na área, os trabalhos práticos são realizados com base na experiência profissional dos alunos. "Trabalhamos com o histórico contextual de cada um. A gestão e a avaliação de instituições educacionais, por exemplo, ocorrem dentro da realidade deles", diz Mary Rosane Ceroni, professora e pesquisadora do Mackenzie.
Na mesma linha, o Senac inaugura em fevereiro a especialização "Projetos Educacionais", voltada preferencialmente a gestores de ONGs e Oscips. "Constatamos em pesquisas que 70% dos projetos dessas entidades têm dificuldade de avaliar seus resultados", explica Raquel Linhares, coordenadora de Educação do Senac-SP. Com três módulos e duração de 15 meses, a nova pós também é destinada a gestores de processos de educação corporativa e a professores em geral.
Nos próximos meses, a oferta deve aumentar. A PUC-SP, que já tem um curso de extensão universitária voltado ao uso das tecnologias na educação, deve oferecer uma especialização na área de gestão a partir do segundo semestre de 2007. Já o Instituto Superior de Educação Vera Cruz, que assim como a pedagogia da PUC tem foco mais voltado à formação de professores da educação infantil e fundamental, estuda lançar um novo curso voltado à gestão, em nível de pós-graduação, no início de 2008.

Indaiatuba, exemplo de inovação
A partir de 2007, a cidade de Indaiatuba, município de 172 mil habitantes na região de Campinas, contará com seis novos cursos de pós-graduação lato sensu. As especializações, duas delas especificamente voltadas à capacitação de profissionais da educação (gestão da educação básica e psicopedagogia), são resultado de acordo entre a Universidade São Marcos e a unidade local do Colégio Renovação.
"Pensávamos atuar no ensino superior, mas houve uma enxurrada de novas universidades e preferimos investir nessa parceria, pois sentimos que havia necessidade de maior qualificação nessas áreas", diz Marcos Conte, diretor-administrativo da escola.

Além de propiciar formação para seus professores, o colégio também abre uma nova frente de negócios aproveitando os períodos ociosos de suas instalações. Pelo acordo, o Renovação entra com toda a infra-estrutura física e administrativa e a São Marcos supre a parte pedagógica.
"É nossa primeira parceria com colégios. Nasceu naturalmente, pois grande parte do corpo docente das unidades do Renovação em São Paulo estudou aqui na universidade. Isso possibilita multiplicar a oferta de cursos de pós-graduação mais voltados ao mercado de trabalho em lugares que não dispunham desse tipo de opção", avalia José Augusto Guilhon Albuquerque, pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da São Marcos.
O projeto está sendo apoiado pela prefeitura local, que estuda um projeto para se associar à parceria e oferecer a especialização para os gestores da rede municipal. Além dos dois cursos, haverá outros nas áreas de capacitação gerencial, gestão bancária em negócios, relações internacionais e letras.


Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/116/artigo234072-1.asp
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