domingo, 20 de abril de 2008

APRENDENDO A LER O MUNDO: A GEOGRAFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO



Helena Copetti Callai
APRENDENDO A LER O MUNDO:
A GEOGRAFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO
FUNDAMENTAL
HELENA COPETTI CALLAI*
A história não se escreve fora do espaço, e não há sociedade
a-espacial. O espaço, ele mesmo, é social. (Milton Santos)
Há uma pedagogia indiscutível na materialidade do espaço.
(Paulo Freire)
É por isso que, hoje, seja qual for a escala, o território constitui
o melhor revelador de situações não apenas conjunturais,
mas estruturais e de crise. (Milton Santos)
RESUMO: Este artigo discute a possibilidade e a importância de se
aprender geografia nas séries iniciais do ensino fundamental, a partir
da leitura do mundo, da vida e do espaço vivido. Para tanto,
aborda o papel da geografia nesse nível do ensino e a necessidade
de se iniciar, nessa fase, um processo de alfabetização cartográfica.
Considera também os conteúdos da geografia presentes nos currículos
escolares como uma das maneiras de contribuir na alfabetização
da criança. Tendo em vista esse objetivo, discute as exigências
teóricas e metodológicas da geografia para referenciar o ensino e a
aprendizagem.
Palavras-chave: Geografia. Ensino. Aprendizagem. Séries iniciais e espaço.
LEARNING TO READ THE WORLD:
GEOGRAPHY IN THE FIRST YEARS OF BASIC SCHOOLING
ABSTRACT: This paper discuss the possibility and the importance
of learning geography at elementary school, based on the reading
* Doutora em geografia e professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-
Graduação em Educação nas Ciências (mestrado) da Universidade Regional do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). E-mail: jcallai@unijui.tche.br
228 Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66, p. 227-247, maio/ago. 2005
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
of the world and life and of the space in which one lives. It thus
explores the role of geography at elementary school and the need
to start a cartographic alphabetization. Considering considers the
geographic subjects taught in the early school years as one of the
ways to contribute to such child alphabetization, it then discusses
the theoretical and methodological requirements of geography related
to the teaching-learning process.
Key words: Geography. Teaching. Learning. Elementary School and
Space.
ste texto trata da possibilidade de a criança estudar a geografia no
início de sua escolarização. A educação no Brasil passa por profundas
mudanças, talvez não tantas quanto a sociedade atual exigiria,
mas sem dúvida significativas. Nesse contexto, a geografia, como componente
curricular (tradicional) na escola básica, também se modifica, seja
por força das políticas públicas (PCNs, por exemplo), seja por exigências da
própria ciência. Assim, pensar o papel da geografia na educação básica torna-
se significativo, uma vez que se considera o todo desse nível de ensino e
a presença de conteúdos e objetivos que envolvem, inclusive, as suas séries
iniciais e a educação infantil.
Consideramos que a leitura do mundo é fundamental para que todos
nós, que vivemos em sociedade, possamos exercitar nossa cidadania.
Queremos tratar aqui sobre qual a possibilidade de aprender a ler, aprendendo
a ler o mundo; e escrever, aprendendo a escrever o mundo. Para
tanto, buscamos refletir sobre o papel da geografia na escola, em especial
no ensino fundamental, no momento do processo de alfabetização.
Uma forma de fazer a leitura do mundo é por meio da leitura do
espaço, o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens. Desse modo,
ler o mundo vai muito além da leitura cartográfica, cujas representações
refletem as realidades territoriais, por vezes distorcidas por conta das projeções
cartográficas adotadas. Fazer a leitura do mundo não é fazer uma
leitura apenas do mapa, ou pelo mapa, embora ele seja muito importante.
É fazer a leitura do mundo da vida, construído cotidianamente e que expressa
tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos, sejam
eles do âmbito da natureza, sejam do âmbito da sociedade (culturais, políticos,
econômicos).
Ler o mundo da vida, ler o espaço e compreender que as paisagens
que podemos ver são resultado da vida em sociedade, dos homens na busCad.
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ca da sua sobrevivência e da satisfação das suas necessidades. Em linhas
gerais, esse é o papel da geografia na escola. Refletir sobre as possibilidades
que representa, no processo de alfabetização, o ensino de geografia, passa a
ser importante para quem quer pensar, entender e propor a geografia como
um componente curricular significativo. Presente em toda a educação básica,
mais do que a definição dos conteúdos com que trabalha, é fundamental
que se tenha clareza do que se pretende com o ensino de geografia,
de quais objetivos lhe cabem.
Tendo em vista que as reordenações da educação básica (no quadro
das políticas públicas para a educação) consideram aspectos significativos
de várias ciências, traduzidos em componentes curriculares absorvidos na
complexidade da aula de forma integrada, na busca de um objetivo que é
o primeiro – aprender a ler e a escrever; considerando também o que efetivamente
acontece na sala de aula, realidade que se conhece intermédio de
várias publicações, pesquisas, diagnósticos e inclusive da observação direta,
particularmente por conta de uma pesquisa realizada (“O ensino de estudos
sociais na pré-escola e nas séries iniciais”); levando em conta ainda os
avanços da geografia como ciência e sua história como disciplina escolar,
buscamos vislumbrar o que é possível fazer com esse componente curricular
nos anos iniciais da escolaridade. E isso nos remete a uma questão que poderia
ensejar definir o papel da geografia nessa etapa da educação básica.
Qual é o lugar da geografia nas séries iniciais?
Aprender a pensar o espaço. E, para isso, é necessário aprender a ler
o espaço, “que significa criar condições para que a criança leia o espaço vivido”
(Castelar, 2000, p. 30). Fazer essa leitura demanda uma série de condições,
que podem ser resumidas na necessidade de se realizar uma alfabetização
cartográfica, e esse “é um processo que se inicia quando a criança
reconhece os lugares, conseguindo identificar as paisagens” (idem, ibid.).
Para tanto, ela precisa saber olhar, observar, descrever, registrar e analisar.
Como fazer isso? É certo que, da forma como a geografia tem sido
tratada na escola tradicionalmente, ela não tem muito a contribuir.
Aquela geografia chamada tradicional, caracterizada pela enumeração de
dados geográficos e que trabalha espaços fragmentados, em geral opera
com questões desconexas, isolando-as no interior de si mesmas, em vez
de considerá-las no contexto de um espaço geográfico complexo, que é o
mundo da vida.
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
Uma prática tradicional na Escola Fundamental, adotada nas aulas
de estudos sociais, mas desenvolvida não apenas sob sua égide, é o estudo do
meio considerando que se deve partir do próprio sujeito, estudando a criança
particularmente, a sua vida, a sua família, a escola, a rua, o bairro, a cidade,
e, assim, ir sucessivamente ampliando, espacialmente, aquilo que é o
conteúdo a ser trabalhado. São os Círculos Concêntricos, que se sucedem
numa seqüência linear, do mais simples e próximo ao mais distante. Na realidade,
esse procedimento constitui mais um problema do que uma solução,
pois o mundo é extremamente complexo e, em sua dinamicidade, não
acolhe os sujeitos em círculos que se ampliam sucessivamente do mais próximo
para o mais distante. Num mundo em que a informação é veloz e atinge
a todos, em todos os lugares, no mesmo instante, não se pode fechar as
possibilidades em um estudo a partir de círculos hierarquizados. Ainda com
relação à velocidade da informação, deve-se considerar que não é a distância
o que vai impedir ou retardar o acesso à informação, mas condições econômicas
e/ou culturais, inscritas num processo social que exclui algumas (ou
muitas) pessoas.
A superação dessa lógica de que a criança aprende por níveis
hierarquizados – no caso do espaço, por níveis espaciais que vão se ampliando
sucessivamente – requer o estabelecimento, pelo menos, de uma clareza
de termos. Não estamos considerando que o estudo do meio é inócuo e desligado
da realidade. Pelo contrário, ele pode constituir uma interessante possibilidade
de ensino e aprendizagem. O que se está questionando é uma postura
teórica que dá a referência, a forma de encaminhamento, postura que
considera um espaço fragmentado e circular, o qual se amplia sucessivamente.
Partindo do “eu”, da família, cria-se uma proposição antropocêntrica –
ou melhor, egocêntrica – ao redor do “eu”. O problema não é partir do “eu”,
mas sim fragmentar os espaços que se sucedem e que passam a ser considerados
isoladamente, como se tudo se explicasse naquele e por aquele lugar
mesmo. A dinâmica do mundo é dada por outros fatores. E o desafio é compreender
o “eu” no mundo, considerando a sua complexidade atual.
A referência teórica é buscada tanto na geografia – a qual considera
que o espaço é socialmente construído pelo trabalho e pelas formas de vida
dos homens – como na Pedagogia – a qual considera que a aprendizagem
é social e acontece na interlocução dos sujeitos (estejam eles presentes fisicamente,
ocupando um espaço próximo, estejam eles distantes, mantendo
contatos virtuais, ou sob a hegemonia de determinada condução política,
econômica).
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Como superar o positivismo da geografia e da educação, em um mundo
que está mudado e continua mudando aceleradamente? O que seria possível
fazer para engendrar uma nova forma de “ensinar o mundo”?
Se os estudos do meio, considerados a partir do princípio dos círculos
concêntricos, não se mostram apropriados para fazer a leitura do espaço
– que deveria conter a possibilidade de perceber o movimento, perceber
a cotidianidade da vida dos vários sujeitos e a sua expressão por meio
dos grupos de que participam, construindo o seu espaço – quais as alternativas
possíveis? Quais os referenciais teóricos que nos permitiriam construir
métodos de análise do espaço geográfico capazes de permitir que os
alunos se reconheçam no interior desse espaço? E que se sintam efetivamente
produzindo esse espaço? E, nesse sentido, quais as práticas sociais
(em especial as escolares) que se apresentariam como eficazes?
O pedagógico e/na geografia
Para romper com a prática tradicional da sala de aula, não adianta
apenas a vontade do professor. É preciso que haja concepções teóricometodológicas
capazes de permitir o reconhecimento do saber do outro, a
capacidade de ler o mundo da vida e reconhecer a sua dinamicidade, superando
o que está posto como verdade absoluta. É preciso trabalhar com
a possibilidade de encontrar formas de compreender o mundo, produzindo
um conhecimento que é legítimo.
O professor, as suas concepções de educação e de geografia, é que
podem fazer a diferença. E é a interlocução dos saberes (Marques, 1993)
que pode permitir esse avanço. “O conhecimento geográfico produzido
na escola pode ser o explicitamento do diálogo entre a interioridade dos
indivíduos e a exterioridade das condições do espaço geográfico que os
condiciona” (Rego, 2000, p. 8).
A clareza teórico-metodológica é fundamental para que o professor
possa contextualizar os seus saberes, os dos seus alunos, e os de todo o
mundo à sua volta. E, no nível de ensino em que a criança está processando
a sua alfabetização, o ideal seria que houvesse “uma unidade em que se
supere a fragmentação das disciplinas e das responsabilidades, em práticas
orientadas por e para linhas e eixos temáticos e conceituais interdisciplinares,
não apenas uma justaposição de disciplinas enclausuradas em si mesmas,
mas de uma maneira que, em cada uma se impliquem as demais regiões
do saber” (Marques, 1993).
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Nesse caminho em que tudo leva a aprender a ler e a escrever, acreditamos
que seja fundamental a interligação de todos os componentes curriculares,
se somando na busca do objetivo. Mas numa trajetória em que o
conteúdo seja, em especial, o mundo da vida dos sujeitos envolvidos, reconhecendo
a história de cada um e a história do grupo, combinando “a cadeia
dos conceitos e categorias de análise com a trama das experiências e da cultura
mesma do grupo envolvido” (Marques, 1993, p. 111).
É nesse contexto que a “possibilidade desse cruzamento entre geografia
e educação torna-se sobremodo importante num mundo em crise,
crise expressa, entre outros modos, nas concretudes do espaço vivido através
dos quais as relações sociais se geografizam” (Rego, 2000, p. 8). Nos
demais níveis de ensino, a questão de entrelaçar geografia e educação pode
não aparecer com tamanha relevância, mas, nos anos iniciais, é impossível
ela não ser considerada. E se, no exercício de pensar e procurar caminhos
da geografia para as crianças, fosse encontrada a chave para desvendar as
possibilidades de construção de uma geografia escolar mais conseqüente?
Seria uma reflexão interessante.
Como fazer, então, para superar um ensino tradicional, e um professor
igualmente tradicional, trabalhando com conteúdos alheios ao mundo
da vida? Como trabalhar com a realidade sem seguir de forma linear as
escalas, mas superpondo-as, interligando-as, para conseguir dar conta da
complexidade do mundo? Como olhar o local com os olhos do mundo,
como ver o lugar do/no mundo?
Partindo dos pressupostos teóricos que balizam nossas concepções
de educação e de geografia, como proceder para ensinar geografia nas séries
iniciais passa a ser o desafio. E, sendo fiéis a esses referenciais, a busca
deve estar centrada no pressuposto básico de que, para além da leitura da
palavra, é fundamental que a criança consiga fazer a leitura do mundo.
Alfabetização e alfabetização espacial
Como realizar a leitura da palavra por meio da leitura do mundo? E
como fazer a leitura do mundo por meio da leitura da palavra? Esse pode
ser o desafio para pensar um aprendizado da alfabetização que seja significativo.
Partindo do fato de que a gente lê o mundo ainda muito antes de
ler a palavra, a principal questão é exercitar a prática de fazer a leitura do
mundo. E pode-se dizer que isso nasce com a criança. Desde que a criança
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nasce, os seus contatos com o mundo, seja por intermédio da mãe, seja
pelo esforço da própria criança, buscam a conquista de um espaço. Um
espaço que não é mais o ventre materno onde ela está protegida, mas um
espaço amplo, cheio de desafios e variados obstáculos, e que, para ser conquistado,
precisa ser conhecido e compreendido. E isso a criança vai fazendo,
superando os desafios e ampliando cada vez mais a sua visão linear do
mundo. Quer dizer, em termos absolutos, ela consegue ir avançando a sua
capacidade de reconhecimento e de percepção. Ao caminhar, correr, brincar,
ela está interagindo com um espaço que é social, está ampliando o seu
mundo e reconhecendo a complexidade dele.
Ao chegar à escola, ela vai aprender a ler as palavras, mas qual o significado
destas, se não forem para compreender mais e melhor o próprio
mundo? A par do prazer de saber ler a palavra e saber escrevê-la, podemos
acrescentar o desafio de ter prazer em compreender o significado social da
palavra – o que significa ler para além da palavra em si, percebendo o conteúdo
social que ela traz, e, mais ainda, aprender a produzir o próprio pensamento
que será expresso por meio da escrita. E se, quando se lê a palavra,
lendo o mundo, está-se lendo o espaço, é possível produzir o próprio
pensamento, fazendo a representação do espaço em que se vive. Compreender
a escrita como o resultado do pensamento elaborado particularmente
por cada pessoa é diferente de simplesmente escrever copiando. E
aprender a representar o espaço é muito mais que simplesmente olhar um
mapa, uma planta cartográfica. Saber como fazer a representação gráfica
significa compreender que no percurso do processo da representação, ao se
fazerem escolhas, definem-se as distorções. As formas de projeção
cartográfica e o lugar de onde se olha o espaço para representar não são
neutros, nem aleatórios. Trazem consigo limitações e, muitas vezes, interesses,
que importa manter ou esconder.
O espaço não é neutro, e a noção de espaço que a criança desenvolve
não é um processo natural e aleatório. A noção de espaço é construída
socialmente e a criança vai ampliando e complexificando o seu espaço vivido
concretamente. A capacidade de percepção e a possibilidade de sua representação
é um desafio que motiva a criança a desencadear a procura, a
aprender a ser curiosa, para entender o que acontece ao seu redor, e não
ser simplesmente espectadora da vida. “O exercício da curiosidade convoca
a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de
comparar na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão
de ser” (Freire, 2001, p. 98).
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O aprendizado da criança é também complexo e amplo. Interessa-nos
pensar como ela aprende e que significados dá ao espaço, como desenvolve essa
noção, a partir da sua vivência e do desenvolvimento do seu pensamento. Importa
aqui compreender o significado de saber ler o espaço, e “toda informação
fornecida pelo lugar ou grupo social no qual a criança vive é altamente
instigadora de novas descobertas” (Castelar, 2000, p. 32). Tais descobertas poderão
se relacionar com as questões de sua própria vida, as relações entre as
várias pessoas do lugar, ou a questões específicas do ambiente. O importante é
poder trabalhar, no momento da alfabetização, com a capacidade de ler o espaço,
com o saber ler a aparência das paisagens e desenvolver a capacidade de
ler os significados que elas expressam. Um lugar é sempre cheio de história e
expressa/mostra o resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas, os
grupos e também das relações entre eles e a natureza. Por exemplo, “Por que
não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade
descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos
riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões
e os riscos que oferecem à saúde das gentes?” (Freire, 2001, p. 33).
Se os alunos vivem essa situação ou vivem em locais que apresentam
esse tipo de problema, é a partir de tais problemas que devem ser feitas a
leitura, a representação, e que deve ser instigada a curiosidade para avançar
na investigação e compreender o que ocorre. Mas não é preciso restringir a
discussão à questão social, pode-se discutir questões que são específicas do
conteúdo da disciplina Geografia, por exemplo, em vez de “ditar para o aluno”,
ou mesmo ler em um livro, ou responder a perguntas a partir de um
texto, realizar a leitura do espaço. E a partir daí trabalhar com os conceitos
envolvidos – no caso, rio, riacho, córrego, lençol freático, lixo, poluição, degradação
ambiental, degradação urbana, cidade, riscos ambientais. A leitura
do espaço permite que se faça o aprender da leitura da palavra, aprendendo
a ler o mundo. A partir daí a geografia pode trabalhar com os conceitos que
são próprios do seu conteúdo.
Pois bem, se esse é o sentido que supomos para o processo de alfabetização,
cabe-nos, além de constatar, avaliar o envolvimento da geografia
como um dos componentes curriculares, reconhecendo o sentido de sua presença
nas séries iniciais.
Como ler o mundo da vida?
Sem dúvida, partindo do lugar, considerando a realidade concreta do
espaço vivido. É no cotidiano da própria vivência que as coisas vão aconteCad.
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cendo e, assim, configurando o espaço, dando feição ao lugar. Um lugar que
“não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência
sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças
e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência naquele espaço
exerce um papel revelador sobre o mundo” (Santos, 2000, p. 114).
Ao partir de uma concepção de lugar, deve-se considerar que ele não
se restringe aos seus próprios limites, nem do ponto das fronteiras físicas,
nem do ponto de vista das ações e suas ligações externas, mas que um lugar
comporta em si o mundo. “Os lugares, são, pois, o mundo, que eles
reproduzem de modos específicos, individuais, diversos. Eles são singulares,
mas também são globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual
são formas particulares” (idem, ibid. p. 112).
Do ponto de vista da geografia, esta é a perspectiva para se estudar
o espaço: olhando em volta, percebendo o que existe, sabendo analisar as
paisagens como o momento instantâneo de uma história que vai acontecendo.
Essa é a leitura do mundo da vida, mas que não se esgota
metodologicamente nas características de uma geografia viva e atual, assentada
em categorias de análise que supõem a história em si, o movimento
dos grupos sociais e a sua interligação por meio da ação ou até de interesses
envolvidos. Há que se pensar também no paradigma de educação
capaz de acolher, ou de referenciar, esse tipo de análise. “Exige-se, em todos
os estágios da prática educativa, que se combine a cadeia dos conceitos
e categorias de análise com a trama das experiências e da cultura mesmo
do grupo envolvido” (Marques, 1993, p. 111).
Nesse processo de aprender a ler, lendo o espaço, não há uma regra,
um método estabelecido a priori, nem a possibilidade de elencar técnicas capazes
de dar conta de cumprir o exigido: “articulam-se a teoria e a prática, os
pressupostos ético-políticos da educação, os conteúdos conceituais e técnicas
do ensino, com as características grupais e pessoais dos sujeitos em interação,
nas condições concretas, conjunturais, de operacionalização” (idem, ibid.).
Pedagogicamente, portanto, o que importa é o estabelecimento e o
exercício contínuo do diálogo – com os outros (professor, colegas, pessoal da
escola, família, pessoas do convívio); com o espaço (que não é apenas o palco,
mas também possui vida e movimento, uma vez que atrai, possibilita, é
acessível ao externo); com a natureza e com a sociedade, que se interpenetram
na produção e geram a configuração do espaço.
Essa capacidade de interlocução (de saber ouvir, falar, observar, analisar,
compreender) pode ser desenvolvida desde a educação infantil, e tor236
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nar-se assim um método de estudo – de fazer a leitura do mundo. Ao partir
da vivência concreta, busca-se a ampliação do espaço da criança com a aprendizagem
da leitura desses espaços e, como recurso, desenvolve-se a capacidade
de “aprender a pensar o espaço”, desenvolvendo raciocínios geográficos,
incorporando habilidades e construindo conceitos.
Compreender o lugar em que se vive encaminha-nos a conhecer a história
do lugar e, assim, a procurar entender o que ali acontece. Nenhum
lugar é neutro, pelo contrário, os lugares são repletos de história e situam-se
concretamente em um tempo e em um espaço fisicamente delimitado. As
pessoas que vivem em um lugar estão historicamente situadas e contextualizadas
no mundo. Assim, o lugar não pode ser considerado/entendido isoladamente.
O espaço em que vivemos é o resultado da história de nossas
vidas. Ao mesmo tempo em que ele é o palco onde se sucedem os fenômenos,
ele é também ator/autor, uma vez que oferece condições, põe limites,
cria possibilidades.
Cada lugar combina variáveis de tempos diferentes. Não existe um lugar
onde tudo seja novo ou onde tudo seja velho. A situação é uma
combinação de elementos com idades diferentes. O arranjo de um lugar,
através da aceitação ou da rejeição do novo, vai depender da ação
dos fatores de organização existentes nesse lugar, quais sejam, o espaço,
a política, a economia, o social, o cultural. (Santos, 1988, p. 98).
Esse é o meio em que vivemos, em que nosso aluno começa a ter a
sua vivência fora da sua casa e da família. Não é naturalmente constituído, é
construído no dia-a-dia. O lugar é
o ponto de encontro de lógicas que trabalham em diferentes escalas,
reveladoras de níveis diversos, e às vezes contrastantes, na busca da eficácia
e do lucro, no uso de tecnologias do capital e do trabalho. O lugar
é o ponto de encontro de interesses longínquos e próximos, locais
e globais. (Santos, 1994, p. 18-19)
Como considerar o desafio de, ao estudar o lugar, poder compreender
o mundo? Como dar conta de tecer a trama de relações no plano da compreensão,
assim como está tecida a trama de interesses e de lógicas que orientam
e estruturam os espaços à nossa volta? Quais as possibilidades de, superando
as concepções tradicionais, encontrar a forma de entender a palavra
em todo o seu significado, e compreender o mundo que rodeia a criança?
É importante que se considere, na educação, a nova realidade do
mundo atual, cujas características implicam que a velocidade da informaCad.
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ção supera qualquer distância, e que todos os problemas do cotidiano se
entrelaçam em níveis complexos.
Não se espera que uma criança de sete anos possa compreender toda a
complexidade das relações do mundo com o seu lugar de convívio e
vice-versa. No entanto, privá-las de estabelecer hipóteses, observar, descrever,
representar e construir suas explicações é uma prática que não
condiz mais com o mundo atual e uma Educação voltada para a cidadania.
(Straforini, 2001, p. 56-57)
O olhar espacial
Fazer a análise geográfica significa dar conta de estudar, analisar,
compreender o mundo com o olhar espacial. Esta é a nossa especificidade
– por intermédio do olhar espacial, procurar compreender o mundo da
vida, entender as dinâmicas sociais, como se dão as relações entre os homens
e quais as limitações/condições/possibilidades econômicas e políticas
que interferem.
O olhar espacial supõe desencadear o estudo de determinada realidade
social verificando as marcas inscritas nesse espaço. O modo como se distribuem
os fenômenos e a disposição espacial que assumem representam
muitas questões, que por não serem visíveis têm que ser descortinadas,
analisadas através daquilo que a organização espacial está mostrando.
(Callai, 2000, p. 94)
A observação e a análise dos espaços construídos encaminha para
compreender como a materialização/concretização das relações sociais configuram
um lugar, bem como este coloca limitações ou possibilidades à
sociedade. Portanto a contribuição da geografia no nível inicial do ensino,
no qual a criança passa pelo processo de alfabetização, não se dá como acessória,
mas como um componente significativo (assim como as demais áreas)
na busca do ler e do escrever. Ao ler o espaço, a criança estará lendo a
sua própria história, representada concretamente pelo que resulta das forças
sociais e, particularmente, pela vivência de seus antepassados e dos grupos
com os quais convive atualmente.
A complexidade do mundo da vida, que se estrutura e se torna visível
por meio das suas arrumações no espaço, exige certos critérios para que seja
feita a análise. Tais critérios decorrem dos referenciais adotados, considerando-
se a educação e a geografia, ambas em sua dimensão epistemológica.
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
Desenvolver o olhar espacial, portanto, é construir um método que
possa dar conta de fazer a leitura da vida que estamos vivendo, a partir do
que pode ser percebido no espaço construído. “O olhar espacial supõe desencadear
o estudo de determinada realidade social verificando as marcas inscritas
nesse espaço” (idem, ibid.). Essas marcas refletem toda uma história, e
escondem atrás de si as relações e o jogo de forças que foi travado para finalmente
assumirem estas feições. A organização espacial representa muitas coisas
que, por não estarem visíveis, precisam ser descortinadas.
A leitura da paisagem
São as paisagens que mostram, por meio de sua aparência, “a história
da população que ali vive, os recursos naturais de que dispõe e a forma como
se utiliza de tais recursos” (idem, ibid., p. 97). A paisagem “não é formada
apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc.
(...) e a percepção é sempre um processo seletivo de apreensão” (Santos, 1988,
p. 62). Importa então considerar as características culturais dos povos e os
interesses envolvidos para a realização da leitura da paisagem. E esta será, portanto,
sempre a apreensão que o sujeito faz, e não a verdade absoluta, neutra.
Assim como a paisagem está cheia de historicidade, o sujeito que a lê também
tem o seu processo de seleção do que observa. São verdades construídas,
mas enraizadas nas histórias das pessoas, dos grupos que ali vivem.
Desse modo, fazer a leitura da paisagem pode ser uma forma interessante
de desvendar a história do espaço considerado, quer dizer, a história das
pessoas que ali vivem. O que a paisagem mostra é o resultado do que aconteceu
ali. A materialização do ocorrido transforma em visível, perceptível o acontecido.
A dinamicidade das relações sociais e das relações do Homem com a
Natureza, desencadeia um jogo de forças, cujos resultados são concretos e visíveis.
Descrever e analisar estas paisagens supõe, portanto, buscar as explicações
que tal “retrato” nos permite. Os objetos, as construções, expressos nas ruas,
nos prédios, nas praças, nos monumentos, podem ser frios e objetivos, porém
a história deles é cheia de tensão, de sons, de luzes, de odores, e de sentimentos.
Portanto ler a paisagem exige critérios a serem considerados e seguidos.
Escala de análise
A escala de análise é um cuidado que requer toda a atenção. Partindo
de que “É impossível esconder das crianças o mundo, quando as inforCad.
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mações lhes são passadas no exato instante do acontecimento” (Straforini,
2001, p. 56), nenhum estudo pode ficar restrito ao âmbito espacial em
que está acontecendo. Pois nada acontece de forma isolada. Ou tem alguma
relação com a natureza ou tem interferências de outras dimensões de
escala que não estão próximas fisicamente (em termos de espaço absoluto),
mas que poderão estar muito mais intensamente relacionadas por conta
da origem e dos motivos do acontecimento. Já a definição/delimitação de
que recorte do espaço considerar é um motivo de escolha da escala. Considerando
então que a escala não é algo dado, mas resultado de opções/escolhas,
elas estão estreitamente ligadas aos objetivos que temos para o ensino,
para a pesquisa no/do lugar.
Buscar as explicações para aquilo que o espaço está mostrando requer,
portanto, que se tenha o cuidado de não simplificar as questões, mas ao contrário,
tentar situá-las em um contexto de investigação e estabelecer as interrelações.
Assim, nos referimos a uma escala social, que traz em si uma dimensão
histórica e que permite que sejam evidenciadas as motivações,
explicitadas ou não, de cada um dos eventos. Nesse movimento é importante
perceber que os fenômenos da natureza se configuram em outra escala,
que é da natureza mesmo e que vai pautar os acontecimentos, ao contrário
de uma escala histórica, intrinsecamente ligada ao tempo e ao espaço de nossas
vidas. Sob a interferência dos interesses humanos, a natureza é também
alterada, muitas vezes de maneira extremamente rápida. Nosso entendimento
de que essa é uma questão social é fundamental para não nos submetermos
às idéias de destino, ou de azares ambientais, como se a natureza não
sofresse alterações a partir dos interesses da sociedade.
Enfim, são necessárias interligações dos vários níveis de análise, para
que se possa compreender que nada acontece por acaso, e que os motivos
de muitos acontecimentos podem estar, às vezes, próximos, mas podem
estar também muito distantes.
O estudo do lugar
“Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto
a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições;
um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de
ensinar e não a de transferir conhecimento” (Freire, 2001, p. 520). O
mundo, na Era da Informação, está totalmente globalizado. Mas essa
globalização, por meio das questões que são globais, se concretiza nos di240
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
versos lugares, em cada lugar em especial, e com diferentes formas de apresentação.
Daí a “força do lugar” (Milton Santos), pois cada lugar tem sua
história, seus homens e suas capacidades de se organizar e pensar alternativas
para si. “Essa é uma realidade tensa, um dinamismo que se está recriando
a cada momento, relação permanentemente estável, e onde globalização
e localização, globalização e fragmentação são termos de uma dialética
que se refaz com freqüência” (Santos, 1996, p. 252).
Assim, ler o mundo a partir do lugar é o desafio. Como desenvolver
a curiosidade na criança para que ela possa avançar na sua leitura do mundo?
Freire nos diz que “O exercício da curiosidade a faz mais criticamente
curiosa, mais metodicamente ‘perseguidora’ do seu objeto. Quanto mais a
curiosidade espontânea se intensifica, mas, sobretudo se ‘rigoriza’, tanto
mais epistemológica ela vai se tornando” (Freire, 2001, p. 97).
A partir dos interesses da criança, podem-se desencadear diversas atividades
para buscar e realizar o exercício da palavra e o esforço de ler o
mundo. Poderíamos apontar para o estudo de determinadas realidades,
que, se consideradas como uma situação geográfica, seriam desenvolvidas a
partir do reconhecimento do lugar, pode ser da rua, da casa da família,
pode ser do bairro, ou da escola, ou mesmo da cidade. O fundamental é
saber do que se pode partir, e se a curiosidade for exercitada na sala de
aula, as crianças mesmas podem definir o que estudar. Na verdade, o conteúdo
que será considerado não é de modo algum o mais importante. O
mais significativo é saber de parte do professor o que se quer. Aprender a
ler, por meio do componente curricular da geografia, lendo o mundo. Ler
o lugar, para compreender o mundo em que vivemos. Pode-se partir de
temáticas, de problemas e, a partir daí, aguçar a curiosidade infantil, traçando
os caminhos a seguir. Essas problemáticas devem ser formuladas a
partir da realidade do que acontece e do que existe no mundo e, ao serem
analisadas, devem considerar as dimensões de espaço e de tempo. Quer
dizer, precisam ser situadas em um espaço que terá as suas características
internas e uma contextualização, as quais lhe darão marcas específicas. E
precisam ainda ser situadas em um tempo, porque todas as ações dos homens
são históricas e, como tal, carregam as marcas de seu tempo.
Os conceitos
Os conceitos são fundamentais para que se possam analisar os territórios
em geral e os lugares específicos, e vão sendo construídos ao longo
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do processo de análise. Quais são, então, os conceitos imprescindíveis para
se fazer a análise geográfica? E como trabalhá-los?
“Seja como ciência, seja como matéria de ensino, a geografia desenvolveu
uma linguagem, um corpo conceitual que acabou por constituir-se
numa linguagem geográfica” (Cavalcanti, 1998, p. 88). Ao se apropriar
dessa linguagem, a criança desencadeará um processo de leitura do mundo,
com o “olhar espacial” a que já nos referimos. Cavalcanti coloca ainda
que “Essa linguagem está permeada por conceitos que são requisitos para a
análise dos fenômenos do ponto de vista geográfico” (idem, ibid.). Essa
linguagem será incorporada pelo aluno à medida que ele consiga operar
racionalmente com os conceitos próprios da geografia.
Ao ler o espaço, desencadeia-se o processo de conhecimento da realidade
que é vivida cotidianamente. Constrói-se o conceito, que é uma abstração
da realidade, formado a partir da realidade em si, a partir da compreensão
do lugar concreto, de onde se extraem elementos para pensar o
mundo (ao construir a nossa história e o nosso espaço). Nesse caminho, ao
observar o lugar específico e confrontá-lo com outros lugares, tem início
um processo de abstração que se assenta entre o real aparente, visível, perceptível
e o concreto pensado na elaboração do que está sendo vivido.
As habilidades
As habilidades devem ser desenvolvidas ao longo das atividades que
vão sendo realizadas. Algumas habilidades são gerais, que todo sujeito precisa
desenvolver para viver e construir suas aprendizagens. Outras expressam
a especificidade de “ler o espaço”. Desenvolver essas habilidades é fundamental,
pois, sem elas, torna-se difícil fazer abstrações. Elas são
desenvolvidas desde que a criança entra para o convívio escolar e, mesmo
assim, de um modo geral, os alunos apresentam grandes dificuldades para
dar conta delas. As hipóteses que explicam tais dificuldades variam, mas
parece que elas estão centradas no modo como se realizam as atividades
que permitiriam a sua exercitação durante a vida escolar, em especial nos
primeiros anos.
Assim como é importante ter claro quais os conceitos fundamentais
na geografia, é também necessário saber quais as habilidades básicas para a
análise geográfica. A respeito desse aspecto, deve-se considerar que existe
uma linguagem específica, que consideramos demandar uma alfabetização
cartográfica.
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
A cultura
A cultura de cada povo, de cada sociedade apresenta suas marcas e
tem ligações com a possibilidade de os sujeitos concretos dessas sociedades
possuírem uma identidade, no sentido de pertencimento ao lugar. Uma
identidade que se dá entre os próprios homens e com o lugar – o território
em que estão. “A questão da identidade cultural, de que fazem parte a
dimensão individual e a de classe dos educandos cujo respeito é absolutamente
fundamental na prática educativa progressista, é problema que não
pode ser desprezado” (Freire, 2001, p. 46). Pensar o próprio espaço encaminha
a exercitar a análise e a crítica constante sobre as formas de vida e as
condições que existem. E possibilita ao sujeito efetivamente se situar no
mundo.
Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar
as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros
ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser
social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador,
realizador de sonhos (...). (idem, ibid.)
Reconhecer, enfim, a sua identidade e o seu pertencimento é fundamental
para qualquer um entender-se como sujeito que pode ter, em
suas mãos, a definição dos caminhos da sua vida, percebendo os limites
que lhe são postos pelo mundo e as possibilidades de produzir as condições
para sua vida.
Nesse sentido, estudar o lugar, como contrapartida ao movimento
de homogeneização produzido pela mídia e pela ação concreta das grandes
empresas, pode ser interessante por dois motivos. Primeiro, pelo fato
de que, mesmo em um mundo globalizado, as idéias universais só se concretizam
nos lugares, e não no global, no geral. Depois, porque assim se
pode perceber que nossa ação pode ser efetiva e eficaz, dependendo do jogo
de forças em que se insere, e que os homens podem não ser apenas cobaias
ou partes de uma estrutura na qual não têm o direito de pensar e de tomar
atitudes que lhes pareçam adequadas. Ao se reconhecer o lugar como
parte de nossa vida, como um dado que nos permite criar uma identidade
e termos a idéia de pertencimento, será possível agir para o grupo, e não
apenas para servir a interesses externos.
O espaço retrata a nova realidade de supressão de fronteiras, de criação
de regionalidades específicas para promover o desenvolvimento, ou
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Helena Copetti Callai
para o aumento das condições efetivas a se colocar nos mercados. Espacialmente,
essa realidade se expressa tanto no que tange aos povos com seus
territórios, quanto aos espaços segregados nas cidades. É um fenômeno de
exclusão que se expressa no espaço de forma muito marcante; seja nos lugares
em que as pessoas, despojadas de tudo que lhes seja essencial para ter
uma vida digna, vivem em condições humilhantes; seja onde as pessoas,
embora vivendo com dignidade, não têm condições de se fazer ouvir, de
decidir os seus caminhos.
Nessa perspectiva, torna-se interessante investigar qual é a identidade
desses lugares, a partir dos interesses das pessoas que ali vivem. Reconhecer
os valores, as crenças, as tradições e investigar os significados que
têm para as pessoas que vivem ali. A cultura, que dá esse conjunto de características
às pessoas e aos povos, se expressa no espaço por meio de marcas
que configuram as paisagens.
Cada lugar tem uma força, uma energia que lhe é própria e que
decorre do que ali acontece. Ela não vem de fora, nem é dada pela natureza.
É resultado de uma construção social que se dá na vivência diária dos
homens que habitam o lugar, resultado do grau de consciência das pessoas
como sujeitos do mundo onde vivem e dos grupos sociais que constituem
ao longo de sua trajetória de vida. É resultado do somatório de tempos
curtos e de tempos longos que deixam marcas no espaço.
A cartografia na leitura do espaço
Para ler o espaço, torna-se necessário um outro processo de alfabetização.
Ou talvez seja melhor considerar que, dentro do processo
alfabetizador, além das letras, das palavras e dos números, existe uma outra
linguagem, que é a linguagem cartográfica. “Ao ensinar geografia, devese
dar prioridade à construção dos conceitos pela ação da criança, tomando
como referência as suas observações do lugar de vivência para que se
possa formalizar conceitos geográficos por meio da linguagem cartográfica”
(Castelar, 2000, p. 31). Será isso possível? Seria o início do processo de
escolaridade ou é uma questão que pode permear todo o ensino da geografia?
Independentemente da resposta que encontrarmos, parece-nos claro
que a alfabetização cartográfica é base para a aprendizagem da geografia.
Se ela não ocorrer no início da escolaridade, deverá acontecer em algum
outro momento. Nas aulas de geografia é preciso estar atento a isso.
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
A capacidade de representação do espaço vivido, se esta for desenvolvida
assentada na realidade concreta da criança, pode contribuir em
muito para que ela seja alfabetizada para saber ler o mundo. “Quando parte
do processo de alfabetização utilizando a linguagem cartográfica, o ensino
de geografia se torna mais significativo, pois se criam condições para a
leitura das representações gráficas que a criança faz do mundo” (idem,
ibid., p. 35).
Uma das formas possíveis de ler o espaço é por meio dos mapas,
que são a representação cartográfica de um determinado espaço. Estudiosos
do ensino/aprendizagem da cartografia consideram que, para o sujeito
ser capaz de ler de forma crítica o espaço, é necessário tanto que ele saiba
fazer a leitura do espaço real/concreto como que ele seja capaz de fazer a
leitura de sua representação, o mapa. É, inclusive, de comum entendimento
que terá melhores condições para ler o mapa aquele que sabe fazer o
mapa. Desenhar trajetos, percursos, plantas da sala de aula, da casa, do
pátio da escola pode ser o início do trabalho do aluno com as formas de
representação do espaço. São atividades que, de um modo geral, as crianças
dos anos iniciais da escolarização realizam, mas nunca é demais lembrar
que o interessante é que as façam apoiadas nos dados concretos e reais
e não imaginando/fantasiando. Quer dizer, tentar representar o que existe
de fato.
Assim, não basta saber ler o espaço. É importante também saber
representá-lo, o que exige determinadas regras. Para fazer um mapa, por
mais simples que ele seja, a criança poderá realizar atividades de observação
e de representação. Ao fazer um desenho de um lugar que lhe seja conhecido
ou mesmo muito familiar, ela estará fazendo escolhas e tornando
mais rigorosa a sua observação. Poderá, desse modo, dar-se conta de aspectos
que não eram percebidos, poderá levantar novas hipóteses para explicar
o que existe, poderá fazer críticas e até encontrar soluções para as quais lhe
parecia impossível contribuir. A capacidade de o aluno fazer a representação
de um determinado espaço significa muito mais do que estar aprendendo
geografia: pode ser um exercício que permitirá a construção do seu
conhecimento para além da realidade que está sendo representada, e estimula
o desenvolvimento da criatividade, o que, de resto, lhe é significativo
para a própria vida e não apenas para aprender, simplesmente.
Para saber ler o mapa, são necessárias determinadas habilidades, tais
como reconhecer escalas, saber decodificar as legendas, ter senso de orienCad.
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Disponível em
Helena Copetti Callai
tação. “A capacidade de entender um espaço tridimensional representado
de forma bidimensional, aliado à concepção de que a terra é redonda e,
portanto, não há ‘em cima’ nem ‘em baixo’, poderá ser desenvolvida a partir
da realização de diversas atividades de mapeamento” (Callai, 2000, p.
105-106).
Essas habilidades são adquiridas a partir da exercitação continuada
em desenvolver a lateralidade, a orientação, o sentido de referência em relação
a si próprio e em relação aos outros, além do significado de distância
e de tamanhos. Elas podem ser simplesmente exercitadas, procurando-se
alcançar o seu domínio. Mas o que nos interessa não é simplesmente ter
domínios, que o capacitem a viver no mundo, é claro, mas poder, por meio
dessa exercitação, dar conta de aprender a ler e viver o mundo. Aprender a
pensar e reconhecer o espaço vivido. Não simplesmente como espaço que
pode ser neutro, ou estranho a si próprio, mas pensar um espaço no sentido
de se apropriar das capacidades que lhe permitirão compreender o
mundo, reconhecer a sua força, e a força do lugar em que vive. Aprender
para viver, mas aprendendo a buscar a transformação capaz de tornar o espaço
mais justo, pelo acesso aos bens do mundo e da vida. Aprender a
construir a sua cidadania.
Aprender a observar, descrever, comparar, estabelecer relações e correlações,
tirar conclusões, fazer sínteses são habilidades necessárias para a
vida cotidiana. Por intermédio da geografia, que encaminhe a estudar, conhecer
e representar os espaços vividos, essas habilidades poderão ser
desencadeadas. Mas sempre como caminhos, como instrumentos para dar
conta de algo maior.
Por meio da geografia, nas aulas dos anos iniciais do ensino fundamental,
podemos encontrar uma maneira interessante de conhecer o mundo,
de nos reconhecermos como cidadãos e de sermos agentes atuantes na
construção do espaço em que vivemos. E os nossos alunos precisam aprender
a fazer as análises geográficas. E conhecer o seu mundo, o lugar em
que vivem, para poder compreender o que são os processos de exclusão social
e a seletividade dos espaços.
Compreender o lugar da diferença neste mundo, que se diz e se quer
globalizado e tende a homogeneizar a todos e a tudo, é um passo para
perceber que ainda há o que fazer, e não se pode, nem precisa, ficar só
esperando que as ditas determinações aconteçam. É curioso notar que, nas
análises e estudos em geral, até bem pouco tempo, as determinações
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Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental
advinham basicamente da natureza. Hoje se quer fazer crer que a globalização
define tudo, inclusive o desrespeito para com a natureza.
Construir os referenciais básicos para a análise espacial é ter clareza
epistemológica da nossa ciência. E, para saber fazer uma educação com sentido
de aprender para ser sujeito da sua vida, é necessário fundamentar epistemologicamente
a pedagogia.
Aprender a ler, aprendendo a ler o mundo da vida, e usando para
tanto as possibilidades metodológicas da geografia, é pretender que nesse
movimento se consiga construir uma metodologia para estudar esse componente
curricular, e também que o aluno consiga usar esse aprendizado
metodológico para estudar, além do seu espaço vivido – o lugar em que
está – outros lugares, que podem ser distantes de sua vida diária, mas que
estão interferindo na dinâmica geral das sociedades e, ao mesmo tempo,
na sua vida ou de seu grupo em particular.
Enfim, a geografia, nos anos iniciais da escolarização, pode, e muito,
contribuir com o aprendizado da alfabetização, uma vez que encaminha
para aprender a ler o mundo.
Recebido em maio de 2005 e aprovado em julho de 2005.
Referências bibliográficas
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CASTELLAR, S.M.V. A alfabetização em geografia. Espaços da Escola, Ijuí,
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CAVALCANTI, L.S. Geografia, escola e construção do conhecimento. Campinas:
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FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
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STRAFORINI, R. Ensinar geografia nas séries iniciais: o desafio da totalidade
mundo. 2001. 155f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de
Geociencias, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66, p. 227-247, maio/ago. 2005 227
Disponível em

The Incredible Hulk - 2





No novo filme, o cientista Bruce Banner (Edward Norton) desesperadamente está em busca de uma cura para a radiação gama responsável pelo envenenamento de suas células e aumento de sua força e raiva, responsável por sua transformação em O Hulk.


Bruce é obrigado a viver nas sombras, afastado da pessoa que mais ama, a sua esposa Betty Ross (Liv Tyler), pois precisa se esconder da obssessiva busca do General Thunderbolt Ross (William Hurt), que visa explorar o seu poder.


Além de todos os problemas, o Hulk tem um novo inimigo, tão monstruoso e com força destrutiva maior que a dele, O Abominável (Tim Roth). No dia 13 de junho de 2008, um cientista vai ter que fazer uma escolha agonizante: aceitar uma vida tranqüila como Bruce Banner ou se tornar um herói – O Incrível Hulk.

sábado, 19 de abril de 2008

Os Quatro Pilares da Educação.


Os quatro pilares de uma educação para o século XXI e suas implicações na prática pedagógica
Zuleide Blanco Rodrigues*
O livro Educação: um Tesouro a Descobrir, sob a coordenação de Jacques Delors, aborda de forma bastante didática e com muita propriedade os quatro pilares de uma educação para o século XXI, associando-os e identificando-os com algumas máximas da Pedagogia prospectiva, e subsidia o trabalho de pessoas comprometidas a buscar uma educação de qualidade. Diz o texto na página 89: “À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permite navegar através dele”.
Segundo Delors, a prática pedagógica deve preocupar-se em desenvolver quatro aprendizagens fundamentais, que serão para cada indivíduo os pilares do conhecimento: aprender a conhecer indica o interesse, a abertura para o conhecimento, que verdadeiramente liberta da ignorância; aprender a fazer mostra a coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar; aprender a conviver traz o desafio da convivência que apresenta o respeito a todos e o exercício de fraternidade como caminho do entendimento; e, finalmente, aprender a ser, que, talvez, seja o mais importante por explicitar o papel do cidadão e o objetivo de viver.
Os pilares são quatro, e os saberes e competências a se adquirir são apresentados, aparentemente, divididos. Essas quatro vias não podem, no entanto, dissociar-se por estarem imbricadas, constituindo interação com o fim único de uma formação holística do indivíduo.
Jacques Delors (1998) aponta como principal conseqüência da sociedade do conhecimento a necessidade de uma aprendizagem ao longo de toda vida, fundamentada em quatro pilares, que são, concomitantemente, do conhecimento e da formação continuada.
A seguir, é apresentada uma síntese dos quatro pilares para a educação no século XXI.
Aprender a conhecer – É necessário tornar prazeroso o ato de compreender, descobrir, construir e reconstruir o conhecimento para que não seja efêmero, para que se mantenha ao longo do tempo e para que valorize a curiosidade, a autonomia e a atenção permanentemente. É preciso também pensar o novo, reconstruir o velho e reinventar o pensar.
Aprender a fazer – Não basta preparar-se com cuidados para inserir-se no setor do trabalho. A rápida evolução por que passam as profissões pede que o indivíduo esteja apto a enfrentar novas situações de emprego e a trabalhar em equipe, desenvolvendo espírito cooperativo e de humildade na reelaboração conceitual e nas trocas, valores necessários ao trabalho coletivo. Ter iniciativa e intuição, gostar de uma certa dose de risco, saber comunicar-se e resolver conflitos e ser flexível. Aprender a fazer envolve uma série de técnicas a serem trabalhadas.
Aprender a conviver – No mundo atual, este é um importantíssimo aprendizado por ser valorizado quem aprende a viver com os outros, a compreendê-los, a desenvolver a percepção de interdependência, a administrar conflitos, a participar de projetos comuns, a ter prazer no esforço comum.
Aprender a ser – É importante desenvolver sensibilidade, sentido ético e estético, responsabilidade pessoal, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade, iniciativa e crescimento integral da pessoa em relação à inteligência. A aprendizagem precisa ser integral, não negligenciando nenhuma das potencialidades de cada indivíduo.
Com base nessa visão dos quatro pilares do conhecimento, pode-se prever grandes conseqüências na educação. O ensino-aprendizagem voltado apenas para a absorção de conhecimento e que tem sido objeto de preocupação constante de quem ensina deverá dar lugar ao ensinar a pensar, saber comunicar-se e pesquisar, ter raciocínio lógico, fazer sínteses e elaborações teóricas, ser independente e autônomo; enfim, ser socialmente competente.
Uma educação fundamentada nos quatro pilares acima elencados sugere alguns procedimentos didáticos que lhe seja condizente, como:
Relacionar o tema com a experiência do estudante e de outros personagens do contexto social;
Desenvolver a pedagogia da pergunta (Paulo Freire e Antonio Faundez, Por uma Pedagogia da Pergunta, Editora Paz e Terra, 1985);
Proporcionar uma relação dialógica com o estudante;
Envolver o estudante num processo que conduz a resultados, conclusões ou compromissos com a prática;
Oferecer um processo de auto-aprendizagem e co-responsabilidade no processo de aprendizagem;
Utilizar o jogo pedagógico com o princípio de construir o texto.
ConclusãoPresenciamos um momento muito importante em nosso país, o da demanda por educação, que, ao crescer, faz com que sociedade e instituições, em uníssono, movimentem-se no atendimento a essa urgência nacional. Essa é uma tarefa importante e é isso que se espera que o Brasil faça. Temos materiais e idéias. É preciso pôr em prática todos os estudos e projetos para a modernização da educação.Para mudar nossa história e lograr conquistas, precisamos ousar em cortar as cordas que impedem o próprio crescimento, exercitar a cidadania plena, aprender a usar o poder da visão crítica, entender o contexto desse mundo, ser o ator da própria história, cultivar o sentimento de solidariedade, lutar por uma sociedade mais justa e solidária e, acima de tudo, acreditar sempre no poder transformador da educação.
Sugestão de leituras


DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortezo. p. 89-102.
FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

Zuleide Blanco Rodrigues é pedagoga

Filosofia Clínica.



Como funciona a prática da filosofia clínica
por Monica Aiub
Vários leitores perguntaram sobre o funcionamento da filosofia clínica, em especial a partir do artigo “Somos um ou vários?” - clique aqui. A principal questão é: como é possível um atendimento em Filosofia Clínica diante de tamanha modificação? Para responder a questão faz-se necessário primeiro apresentar brevemente o funcionamento da filosofia clínica. A filosofia clínica é uma terapia (clique aqui) que faz uso de posturas e métodos filosóficos para auxiliar a pessoa a lidar com suas questões existenciais. A pessoa que procura o consultório de um filósofo clínico é denominada partilhante, porque participa ativamente de todo o processo terapêutico, partilhando sua história, suas questões, suas inquietações, suas formas de vida. Há muitos possíveis motivos para uma pessoa procurar o consultório de filosofia clínica, e isso não há como saber previamente. O motivo, a queixa apresentada pelo partilhante, é seu Assunto Imediato. Quando a pessoa chega ao consultório, o filósofo clínico contextualiza o Assunto Imediato apresentado, estabelecendo um primeiro contato com o partilhante. “Sei que nada sei, de tudo quanto sei”. O princípio délfico serve de inspiração ao trabalho do filósofo clínico, que assume, diante da pessoa e de suas questões, o princípio filosófico do não saber, da dis-posição para coletar dados, para buscar o máximo possível de elementos para obter um mínimo de compreensão acerca do exposto. Não é possível pensar sobre a questão proposta sem um contexto, considerá-la isoladamente. Contextualizar somente a questão apresentada também não permite, muitas vezes, encontrar elementos para enfrentá-la ou para lidar com ela. Como o filósofo clínico coleta os dados? Compreendendo que cada um de nós se constrói a partir de suas vivências, de sua própria história; compreendendo também que cada uma de nossas questões possui uma gênese, o filósofo clínico solicita ao partilhante que conte sua historicidade, a fim de obter os dados necessários para o encaminhamento do trabalho. Enquanto o partilhante conta sua história de vida, o filósofo clínico procura interferir o mínimo possível, acompanhando atentamente e cuidando para que a pessoa dê continuidade a seu histórico. Essas mínimas interferências são denominadas agendamentos mínimos. Ao mesmo tempo, o filósofo clínico observa dados que comporão a leitura clínica, a partir da metodologia da clínica filosófica, que permitirá a compreensão de modo mais amplo das formas de ser do partilhante.
MetodologiaA metodologia filosófico-clínica é composta por três eixos fundamentais que se entrecruzam: Exames Categoriais, Estrutura de Pensamento e Submodos. Os Exames Categoriais são exames iniciais que – assim como definido no conceito de categoria – permitem conhecer, mas limitam o conhecimento. Ou seja, eles consistem numa primeira abordagem, onde é observado o entorno do partilhante. As categorias observadas são: Assunto (Imediato e Último), Circunstância, Lugar, Tempo e Relação. Na categoria Assunto, como já vimos, o Assunto Imediato é a queixa inicial, e o Assunto Último, a questão a ser trabalhada em clínica. Há casos em que ambos são coincidentes, mas também há casos em que são totalmente diversos. Tanto o Assunto Imediato quanto o Assunto Último são sempre definidos pelo partilhante. Se o Assunto Último, ou seja, o objetivo da clínica, o para onde ela se dirige, é determinado pelo partilhante, então podemos afirmar que, em filosofia clínica, todo o processo terapêutico depende da pessoa e é definido por ela. Na categoria Circunstância, o filósofo clínico observa os contextos. Afirmou o filósofo Ortega y Gasset, em Meditações do Quixote: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não me salvo eu”.
A circunstância é todo o entorno, não apenas o ambiente, o entorno geográfico, mas a cultura, a sociedade, tudo o que circunda a pessoa. A categoria Circunstância permite contextualizar as questões e os modos de vida do partilhante, permite situar os problemas levantados a fim de identificar possíveis encaminhamentos. Na categoria Lugar é observado o lugar existencial (clique aqui). Como a pessoa se sente nos ambientes que freqüenta, como se relaciona com tais ambientes, em que lugares sente-se bem ou mal, como se sente habitando seu próprio corpo, sua casa, sua cidade, o planeta... Dados sensoriais e abstratos são aqui observados. A categoria Tempo cuida das relações entre o tempo cronológico e o tempo subjetivo. Duração: instantes que duram uma eternidade, vários anos que se passaram como se fosse um segundo, toda a vida, sempre, nunca, eternamente. Idades: quantos anos você tem? E com quantos você se sente? Esses modos de viver o tempo variam de acordo com os contextos, mudam com a categoria lugar?Em Relação, são consideradas as diferentes relações que o partilhante mantém: com ele mesmo, com o mundo, com os outros, com pessoas, instituições, animais de estimação, objetos, atividades, e outras formas de relação encontradas. São observadas as qualidades das relações. Se o leitor acompanhou atentamente até aqui, pode perceber que não há como separar cada uma das categorias, a distinção é apenas didática. Elas são formas de conhecer, limites do conhecimento, e constituem os contextos nos quais o partilhante se constituiu, construiu a si mesmo.
Pensar é criarOs modos de ser do partilhante são denominados Estrutura de Pensamento. Uma estrutura que considera relações, movimentos existenciais, um constante devir, um tornar-se contínuo. Pensamento aqui pode ser compreendido no sentido utilizado por Deleuze: pensar é criar. Na metodologia da Filosofia Clínica há 30 tópicos compondo a Estrutura de Pensamento. Neles encontramos desde uma visão de mundo até sensações, emoções, formas e veículos de expressão, valores, formas de raciocínio, de intencionalidade... O que importa ao filósofo clínico não é categorizar, classificar, mas compreender os movimentos existenciais. Assim, ele observa o que se passa com o partilhante, como ele vivencia as situações de seu entorno, como elas o afetam, o que lhe chama a atenção, como ele constrói seus pensamentos, como sente, como vive, como as diferentes relações interferem em sua constituição... e todos os dados que se destacarem nesse processo de observação.
SubmodosNo eixo Submodos, modos, procedimentos subordinados aos eixos anteriores, o filósofo clínico observará como o partilhante lida, informalmente, com as questões de sua vida. Os submodos são também os procedimentos clínicos, as possibilidades de atuação, que serão provocadas no partilhante. Há, no instrumental da filosofia clínica, 32 Submodos. São formas vazias, que só fazem sentido quando devidamente acompanhadas dos conteúdos aos quais se referem.
Os tópicos da Estrutura de Pensamento e os Submodos são observados considerando-se três critérios: Assunto (Imediato ou Último), ou seja, a queixa; dado padrão – o que se repete a ponto de constituir um padrão no modo de ser, sentir e pensar do partilhante –, e dado atualizado – como ele está hoje. Assim, diante do problema (Assunto), faz-se um estudo do entorno (Exames Categoriais), dos modos de ser (em devir) do partilhante (Estrutura de Pensamento) e dos Submodos Informais (maneiras que a pessoa possui para lidar com suas questões). Mas o leitor deve estar se perguntando: somente enquanto a pessoa conta a história, é possível observar tudo isso? Experimente iniciar a narrativa de sua história de vida. Muito provavelmente você observará que escolheu um percurso e foi contando sua história através dele. Muitas coisas ficaram para trás, muitos dados foram negligenciados. Para oportunizar a lembrança e a apresentação desses dados, após o partilhante relatar sua história, do nascimento aos dias atuais, o filósofo clínico pedirá que conte mais detalhes, outros dados, de cada período narrado em seu histórico. Assim, dividirá a história e pedirá que conte outra vez. Após subseqüentes divisões, quando a pessoa apenas estiver repetindo os dados já apresentados, iniciam-se os enraizamentos: procedimentos epistemológicos de busca de conteúdos de um termo, estudo das formas dos movimentos existenciais, pesquisa acerca do significado de um termo. Em outras palavras: enquanto o partilhante narra a história, o filósofo clínico esboça uma leitura, a cada nova consulta ele revê e atualiza seu esboço, que sempre será um esboço. Com os dados de tal esboço, ele terá elementos para provocar o partilhante a pensar em sua própria existência e tomar para si a responsabilidade pela construção de seus modos de vida. Assim, é possível ao filósofo clínico acompanhar as várias manifestações, os vários eus, as diferentes formas de ser que habitam a cada um de seus partilhantes.As formas de leitura e trabalho em filosofia clínica serão melhor detalhadas em próximos textos.Referências Bibliográficas: ORTEGA Y GASSET, J. Meditações do Quixote. Rio de Janeiro: Ibero, 1967.Para saber mais:AIUB, M. Para Entender Filosofia Clínica: o apaixonante exercício do filosofar. Rio de Janeiro: WAK, 2004. PACKTER, L. Filosofia Clínica: Propedêutica. Porto Alegre, AGE, 1997. (disponível no site www.filosofiaclinica.com.br)

Técnicas para aprimorar a memória frente à longevidade



Mente na Terceira Idade
Informações sobre funcionamento da mente na terceira idade e gerontologia
Técnicas para aprimorar a memória frente à longevidade
por Elisandra Vilella G. Sé
Programas de treinamento de memória são realizados para promover o aprimoramento de habilidades de memória na velhice. Estudos sobre intervenções de memória têm estabelecido que programas de treino de memória melhoram habilidades de memória em idosos. O treinamento de memória pode ajudar a pessoa a superar alterações de memória decorrentes da idade, indicando modificações e adaptações no funcionamento de memória de idosos.Com o processo de envelhecimento alguns sistemas de memória sofrem declínio, tais como a memória operacional (responsável pela manipulação da informação) e a memória episódica (eventos específicos), porém a memória semântica (vocabulário) melhora com a idade, porque ela é considerada parte da inteligência cristalizada, refere-se ao nosso conhecimento de mundo e quanto mais agregamos informações ao longo do tempo mais ela sofre transformações. Nossa memória semântica se forma a partir do uso social da linguagem. Entretanto pesquisas recentes confirmam que programas de treinamento de memória podem promover o aprimoramento de habilidades de memória.A aquisição de novas informações pela memória em idosos é mais lenta em função do processo de envelhecimento, mas estudos demonstram que após treinamento de memória, pessoas com idade mais avançada podem aprender novas habilidades de memória. Estudos demonstram resultados positivos da utilização de treino envolvendo somente treino unifatorial, utilizando somente uma técnica e resultados mais potentes com treino multifatorial, envolvendo mais de uma técnica.
"Manter a saúde mental e a memória ativa é o desafio do século, já que nem todas habilidades da inteligência declinam e outras são preservadas ou podem ligeiramente melhorar"
Os programas e técnicas de treinamento de memória têm o objetivo de fortalecer o registro de informações melhorando assim as funções da memória. As técnicas de aprimoramento de treinamento de memória possibilitam que o material recebido na fase da recepção seja mais bem codificado, permanecendo armazenado para ser utilizado quando necessário.
Existem três importantes grupos de estratégias internas (estimulação e codificação) e externas que possibilitam aprimoramento de memória. São ferramentas para melhorar habilidades de memória. E também, para nos tornarmos responsáveis por nosso sistema de memória, focar nossa atenção em conteúdos relevantes, selecionar e codificar o que precisamos e o que usaremos mais tarde. Para isso, a memória deve ser cuidada, para estar pronta para os momentos de registro. É importante ressaltar que todo esse cuidado não pode ser frio e mecânico, de forma descontextualizada. A motivação também é muito importante. Sem a motivação a comunicação entre os neurônios não tem vida própria. Não existe mágica, podemos ter atitudes para aprimorar o funcionamento da memória em função da capacidade de plasticidade humana. É importante lembrar que nossa capacidade de memorização têm limites e esquecer é saudável. Vejamos algumas técnicas de treinamento da memória que você poderá usufruir:
Estratégias externas e internas
As estratégias externas diz respeito ao grupo de estratégias para otimizar o ambiente. São técnicas importantes para facilitar e ajudar a memória no momento do resgate da informação. Vários estudos mostram que numa tarefa de resgate de informação ou de lembrança, as pessoas lembram com mais facilidade informações com pistas, ou seja referências, do que informações lembradas sem pistas. Portanto, podemos criar estratégias no ambiente e no nosso cotidiano para auxiliar a memória, possibilitando que sua memória fique menos sobrecarregada com o material que pode ser arquivado numa agenda, por exemplo. Use esses recursos para melhorar a qualidade de sua memória: agendas, lista de afazeres, bilhetes... Procure guardar as chaves e óculos sempre no mesmo lugar, programe o despertador para lembrar de compromissos ou medicamento. No começo da semana faça uma lista dos aniversariantes que gostaria de ligar.
As estratégias internas diz respeito às técnicas de aprimoramento de memória que favorecem o caminho da informação pelas redes neurais. São técnicas para facilitar o registro de informações e muito usadas para estimular a memória e todo sistema cognitivo através de exercícios e jogos. Elas dependem do sistema cognitivo, ou seja, do processamento mental e da criatividade. São ferramentas para melhorar as habilidades de memória, para tornarmos responsáveis por nosso sistema de memória, focarmos nossa atenção em conteúdos relevantes, selecionar e codificar o que precisamos e o que usaremos mais tarde, possibilitando que o registro da informação fique mais forte e duradouro nos sistemas de memória. Pense numa biblioteca em que os livros estão desorganizados, se você precisa de um livro de história, terá que percorrer um a um até encontrar o livro de história que necessita. Porém, se você tem uma biblioteca categorizada em livros de história, de culinária e de artes, quando precisar de um livro de história vai diretamente à prateleira com esse material. O sistema de memória funciona da mesma maneira, quando registramos a informação utilizando uma estratégia para a codificação estabelecemos uma forma que a informação fique fortemente registrada.Vejamos algumas estratégias internas de memória que você poderá utilizar para aprimorar sua memória:
Imagem visual: É conhecida como a mais importante estratégia *mnemônica. A técnica consiste na integração das informações que necessitam serem registradas numa única imagem visual. Por exemplo: João necessita ao longo de seu dia visitar sua mãe, comprar uma passagem aérea para uma viagem e comprar um presente para sua esposa. Segundo a técnica de imagem visual João pode criar um quadro mental no qual visualize sua mãe num avião sentada ao lado de sua esposa com um presente na mão.Associação: O método consiste na relação semântica entre duas palavras. Por exemplo: Necessito memorizar o número 9705. Faço uma relação entre 97 o ano que finalizei um curso e 05 a idade de minha sobrinha. Podemos fortalecer o registro usando conjuntamente imagem visual. Elaboração: O método de Elaboração é semelhante ao método de Associação. Na Elaboração são criadas sentenças para facilitar o registro. Por exemplo: Tenho que memorizar a primeira coluna da tabela periódica, crio uma estória. Li na Kama Robson Crusué Francés. LI - NA - K -RB - CR -FR.
As estratégias internas também incluem exercícios de estimulação que são usadas para estimular a mente através de exercícios e jogos. Adquira o hábito de realizar atividades que estimulem as funções intelectuais. Tais como os jogos de dominó, xadrez, quebra-cabeças, palavras cruzadas, desenhos, atividades artísticas, ou cartas com os amigos, etc... Identifique uma atividade de lazer que lhe dê prazer, como: ler um livro, caminhar, reunião com os amigos, pintar um quadro, bordar, freqüentar festivais, shows, palestras, cinema, ou participar de atividades laborais, como relaxamento.A leitura é um bom começo. O processo da leitura cria diversos caminhos pelo seu cérebro. É o processo de retenção e associação de idéias, estimula a capacidade de abstração, interpretação, formação de conceitos, avaliação e aumento do vocabulário.Manter a saúde mental e a memória ativa é o desafio do século, já que nem todas habilidades da inteligência declinam e outras são preservadas ou podem ligeiramente melhorar. Na Ásia, os orientais já vêm cuidando da longevidade mental há anos. Além de utilizar-se de estratégias de memória, para manter a mente em boa forma diminua o estresse e aumente a energia para se concentrar no equilíbrio entre corpo, mente, respiração, relacionamentos e boa alimentação.*Mnemônica: técnica para desenvolver a memória e memorizar coisas, que utiliza exercícios e ensina artifícios, como associação de idéias ou fatos difíceis de reter a outros mais simples ou mais familiares, combinações e arranjos de elementos, números etc.; mnemotecnia, mnemotécnica. Fonte Dicionário Houaiss
Elisandra Vilella G. Sé é Fonoaudióloga, Mestre em Gerontologia e Doutoranda em Lingüística

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Sandra de Sá. Valeu.

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Professores Generalistas e a Matemática nas Séries Iniciais: uma Reflexão


1
Professores Generalistas e a Matemática nas Séries Iniciais: uma Reflexão
Adriana Mascarenhas Mattos Bulos
Wilson Pereira de Jesus (orientador)
Mestrado em Ensino, Filosofia e História das Ciências
UFBA / UEFS – Bahia
Introdução
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o ensino da Matemática, a partir da sua
publicação, vêm direcionando as discussões sobre o ensino dessa disciplina no Brasil;
provocando, desde então, reflexões, adesões ou indiferença com relação ao que é preconizado
para o ensino da Matemática na escola de Educação Básica.
É nesse contexto de adoção dos PCNs, como diretrizes para o ensino da Matemática para as
séries iniciais do Ensino Fundamental, que resolvemos estudar a formação do professor
generalista, tendo como foco o currículo do Curso de Pedagogia, de uma universidade do
estado da Bahia, a UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), no que toca à
formação matemática do pedagogo.
Segundo os PCNs para a Matemática nas séries iniciais do Ensino Fundamental,
o conhecimento da história dos conceitos matemáticos precisa fazer parte da
formação de professores para que tenham elementos que lhes permitam mostrar aos
alunos a Matemática como ciência que não trata de verdades eternas, infalíveis e
imutáveis, mas como ciência dinâmica, sempre aberta à incorporação de novos
conhecimentos [...] (Brasil, 2000: p. 37)
O professor precisa identificar as principais características dessa ciência, de seus métodos, de
suas ramificações e aplicações; conhecer a história de vida dos seus alunos; ter clareza de suas
próprias concepções sobre a Matemática, uma vez que a prática em sala de aula, as escolhas
pedagógicas, a definição de objetivos e conteúdos de ensino e as formas de avaliação estão
intimamente ligadas a essas concepções; superar os obstáculos encontrados na construção dos
conceitos, transformando o saber científico em saber escolar, não deixando de considerar o
contexto sócio-cultural do educando.
Os cursos de Pedagogia estão cuidando da formação dos professores tendo em vista esse
perfil preconizado pelos PCNs? Se sim, em qual medida? O nosso propósito é analisar, além
2
dos PCNs, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia – Parecer,
CNE/CP Nº 5/2005 e o currículo atual do Curso de Pedagogia da UEFS, tendo em perspectiva
a formação matemática do licenciado em pedagogia.
A matemática na formação do professor generalista
A formação inicial dos professores generalistas, através dos cursos de Licenciatura em
Pedagogia ou Normal Superior, busca abranger: a docência, até a quarta série do Ensino
Fundamental; a participação na gestão; e a avaliação de sistemas e instituições de ensino em
geral.
O nosso estudo visa analisar a formação inicial de professores em relação à docência,
considerando que cada professor possui concepções acerca do que é aprender, conhecimento,
educação, ensino, ciência... Tais concepções e as crenças a elas vinculadas são “filtros”, que
vão caracterizar a prática docente na sala de aula.
Uma análise da formação básica em Matemática dos professores que atuam/atuarão nas séries
iniciais do Ensino Fundamental norteará esse estudo. Tentaremos configurar nosso problema
de pesquisa em algumas questões: Como anda a formação básica dos professores generalistas?
Esses professores egressam das universidades com competências básicas para atuarem nas
séries iniciais do Ensino Fundamental? De que maneira esses professores generalistas têm
acesso aos conteúdos que trabalham na sua prática docente? Como os professores generalistas
constroem o conhecimento didático do conteúdo a fim de que aconteça de fato o processo de
ensino e aprendizagem de forma eficiente em suas práticas?
Para sermos ainda mais específicos: Como anda a formação básica em Matemática dos
professores generalistas? Esses professores egressam das universidades com competências
matemáticas básicas para atuarem nas séries iniciais do Ensino Fundamental? De que maneira
esses professores generalistas têm acesso aos conteúdos matemáticos que trabalham na sua
prática docente? Como os professores constroem o conhecimento didático dos conteúdos
matemáticos a fim de que aconteça de fato o processo de ensino e aprendizagem de forma
eficiente em suas práticas?
Os PCNs para a área de Matemática no Ensino Fundamental assumem alguns princípios, a
saber: destacam essa disciplina como importante na construção da cidadania; disciplina ao
3
alcance de todos; construção e apropriação do conhecimento; relação das observações do
mundo real com representações e estas com os princípios e conceitos matemáticos. Além
disso, destacam que a aprendizagem está ligada à compreensão; os conteúdos são organizados
pela lógica da Matemática; a utilização dos recursos didáticos e a avaliação processual.
Nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia – Parecer, CNE/CP Nº
5/2005, considera-se que é importante que, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, os
alunos devem ser instruídos na língua escrita e na linguagem matemática.
Com base nessa consideração, firma-se a relevância desse nosso estudo da “formação
matemática dos professores que atuam/atuarão nas séries iniciais do Ensino Fundamental. A
preocupação com essa formação abrange todas as comunidades de Educação Matemática,
visto que Abrantes et al (1999) acredita que “aprender matemática é um direito básico de
todas as pessoas [...] e uma resposta a necessidades individuais e sociais” (apud LOUREIRO,
2004).
Nas suas experiências durante a escola básica, enquanto alunos, os futuros professores foram
construindo suas crenças e concepções acerca da matemática e do seu ensino, sejam estas
positivas ou negativas. Assim, urge a necessidade de uma formação centrada no
desenvolvimento da predisposição e aptidão para raciocinar matematicamente, além do gosto
pela disciplina.
Serrazina (2005) afirma que quando
os futuros professores chegam à sua formação inicial possuem um modelo implícito,
um conhecimento dos conteúdos matemáticos que têm de ensinar, adquiridos
durante a sua escolarização, bem como um conhecimento didático vivido durante a
sua experiência como alunos (p.307).
Essa vivência, normalmente, é tradicional, imposta, parcial e cheia de incompreensões.
A formação deve favorecer o desenvolvimento de concepções, atitudes e capacidades
positivas, como o “gosto por aprender, a autonomia, a vontade e o gosto por enfrentar
dificuldades, a persistência, a valorização da ajuda de outro, a capacidade de procurar ajuda, a
confiança nas idéias próprias...” (LOUREIRO, 2004: p. 93-94). Essa formação deve encorajar
o futuro professor a refletir, questionando suas crenças e concepções, de forma que possa vir a
alterá-las. Assim, possibilitará a esse professor romper com várias crenças construídas e ver a
Matemática de uma maneira diferente, construindo novas concepções sobre fazer, aprender e
ensinar Matemática.
4
Com isso, vale uma reflexão acerca de algumas questões voltadas para essa formação: de que
maneira as disciplinas relacionadas à Matemática contribuem para a formação matemática de
professores das séries iniciais do Ensino Fundamental? Os alunos-professores possuem os
conhecimentos matemáticos básicos para lecionar essa disciplina específica que lhes compete
na sua função? A educação matemática básica garante esses conhecimentos?
Conhecimento Matemático do professor generalista
O conhecimento matemático tem grande importância na formação desses professores, sem
dissociar-se da didática. É preciso fazer matemática, saber como e porquê ensinar essa
disciplina. A formação centrada no desenvolvimento da pesquisa, da investigação e do
questionamento busca melhorar a habilidade de ensinar.
Na verdade, ensinar só se aprende ensinando, e toda prática tem uma teoria que a sustenta. É
importante que a teoria sobre a qual nos embasemos, potencialize em nós a capacidade de
avaliação e raciocínio crítico.
Qualquer professor consegue desenvolver bons momentos em sala de aula, porém, os que têm
uma postura crítica, preconizada pelos PCNs, certamente, sentir-se-ão mais seguros e
conseguem responder a questionamentos dos alunos. Assim, não perderão a oportunidade de
desenvolver vários conteúdos a partir dessas questões, valorizando os conhecimentos prévios
dos educandos.
“Para muitos futuros professores, a matemática é vista como um conjunto de regras e
procedimentos desligados” (LOUREIRO, 2004: p. 101). Geralmente, a linguagem é vista
como um processo e a matemática, como atividades isoladas, não valorizando sua relação
com outras disciplinas e situações do nosso dia-a-dia.
Em relação ao Brasil, Santos (1989) ressalta que a formação básica de Matemática dos futuros
professores do Ensino Fundamental I apresenta sérios problemas1. Os alunos, muitas vezes,
tornam-se professores generalistas despreparados, sem a capacitação profissional necessária,
pois não dominam os conteúdos essenciais, são inseguros, não relacionam os conteúdos
matemáticos com a realidade e em conseqüência desenvolvem uma atitude negativa em
1 Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática relacionam parte dos problemas referentes ao ensino de
matemática ao processo de formação dos professores. (BRASIL, 2000: p. 24)
5
relação ao estudo, influenciando na formação dos seus alunos das séries iniciais do Ensino
Fundamental.
Santos (1989) apresenta como sugestão para resolver este problema uma proposta de um
método de trabalho baseado em questionamentos e reflexões em que o professor deixe de ser
um simples transmissor de conhecimento e passe a desenvolver uma atitude de orientador e
debatedor, analisando os erros dos alunos, propondo alternativas para a correção das más
interpretações.
Uma análise feita por Sztajn (2000) comparando a formação de professores generalistas da
PUC-Rio e da Universidade da Geórgia nos Estados Unidos, em relação à prática de ensino
em matemática na formação dos futuros professores das primeiras séries de escolarização das
crianças no Brasil, detectou que a formação dos professores primários na Universidade da
Geórgia envolve a prática de ensino em matemática.
Nessa análise, Sztajn percebeu que a maior diferença entre o curso no Brasil e o dos Estados
Unidos está na estrutura e na organização. Na universidade da Geórgia, os alunos do
Programa de Educação Infantil têm a oportunidade de trabalhar especificamente com a prática
de matemática com as crianças.
Verifica-se, nessa análise, que no ensino de metodologia da matemática é exigido do
professor primário que participe de cursos de conteúdos matemáticos na universidade,
correspondentes ao conteúdo proposto para o Ensino Médio brasileiro. Entretanto, difere da
situação brasileira, em virtude de que os alunos que chegam aos cursos de métodos
matemáticos passaram recentemente por cursos de matemática desenhados especificamente
para futuros professores, com a finalidade de tratar importantes aspectos da matemática
elementar, apresentados de modo compatível com a visão atual sobre o ensino-aprendizagem
de matemática.
Os profissionais refletem sobre a experiência, buscando conhecer melhor como as crianças
aprendem matemática e como essa aprendizagem se relaciona com o que se discute nas aulas
de metodologia da matemática.
Com relação às atitudes, Sztajn verificou que os alunos brasileiros verbalizam mais, fazem
mais perguntas e estão preparados sempre para discussão, visto que esse aspecto da cultura
americana dificulta a troca de idéias em sala de aula. No Brasil, essa situação pode ser
6
facilitada através da cultura existente na nossa sociedade, que favorece a interação alunoaluno
e professor-aluno.
A dinâmica social demanda da educação escolar um constante estado de atenção para com as
transformações, visto que os educandos têm tido acesso muito rápido às inovações que
ocorrem nos espaços de educação não-formal. Assim, o indivíduo entra em processo de
formação, através da educação informal.
É importante ressaltar, quando se fala do ensino de matemática e da sua necessidade, a qual
matemática está-se referindo: à pura ou à aplicada. Segundo Santaló (1996: p. 14), “opina-se
que a matemática que necessitam todos os cidadãos deve ser uma mistura combinada e bem
equilibrada de matemática pura e aplicada, ou de matemática como filosofia e de matemática
como instrumento de cálculo”.
Convém acrescentar que pensamos que a necessidade do estudo da matemática na escola se
dá principalmente pelo seu valor cultural, e não apenas pelo seu valor escolar ou instrumental.
Didática da Matemática
A Didática da Matemática também desempenha o papel de levar o aluno-professor a refletir
acerca do valor cultural e instrumental da matemática para o educando, buscando favorecer
um equilíbrio entre a formação e a informação. Além de analisar acerca dos conteúdos que
têm se tornado “obsoletos”, trocando-os por conteúdos e metodologias adequados, que
possibilitem aos indivíduos a capacidade de pensar e construir conhecimentos, ao invés de
memorizar conteúdos que os façam intelectualmente passivos. É preciso “ensinar a aprender”,
propiciando o desenvolvimento do raciocínio lógico e dedutivo. (GÁLVEZ, 1996: p. 31-32).
Segundo os PCNs, atualmente, os estudos alertam para a importância de uma metodologia
embasada na resolução de problemas 2 , quando o indivíduo desenvolve habilidades para
resolver (criando estratégias próprias de resolução) e propor problemas. Nessa metodologia,
“o ponto de partida da atividade matemática não é a definição, mas o problema” (BRASIL,
2000: p. 43). Assim, a matemática deixa de ser um fim e torna-se um meio eficaz no
desenvolvimento cognitivo, afetivo e social do indivíduo.
2 A metodologia através da resolução de problemas tem sido refletida por estudiosos como Charnay, Gómez,
Polya, dentre outros.
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O pioneiro da Didática da Matemática na França, Georges Glaeser, afirma que as opiniões no
campo da Didática da Matemática devem estar alicerçadas na experiência, pois para entender
os processos de ensino e aprendizagem é preciso o contato direto professor-aluno (LOPES,
2000).
Em 1971, Glaeser assumiu a direção do IREM (Instituto de Pesquisa em Educação
Matemática) de Estrasburgo e instituiu a pós-graduação em Didática da Matemática, que
resultou em transformações na formação do professor.
De acordo com Glaeser, para exercer bem a profissão de professor é condição necessária ter
conhecimentos profundos sobre o conteúdo matemático, além do “saber-fazer” específico de
suas disciplinas. Entretanto, esse conhecimento não é suficiente. Para tanto, a disciplina
Didática da Matemática deveria ser introduzida nos Cursos de formação de professores.
Com a introdução da nova disciplina Didática da Matemática para professores da
Universidade Louis Pasteur, Glaeser empenhou-se para o seu reconhecimento na instituição
universitária. Para ministrar os cursos na habilitação da Didática da Matemática, ele deu
prioridade à História da Matemática em uma pesquisa didática, enfatizando o lugar e o papel
da História no ensino.
Quanto ao curso de formação de professores, especificamente no de Licenciatura em
Pedagogia da UEFS, atualmente, é oferecida apenas uma disciplina relacionada à Matemática:
Fundamentos e Ensino da Matemática para a Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino
Fundamental, com carga horária de 60 horas (num curso de 3200 horas) que substitui a
disciplina Didática da Matemática, do currículo anterior.
A reflexão acerca dessa situação é muito importante, visto que uma disciplina oferecida nesse
curto espaço de tempo, certamente, não contemplará uma reflexão acerca do valor cultural e
instrumental da matemática por parte do aluno-professor; muito menos, contemplará uma
construção de conteúdos matemáticos necessários para a sua atuação nas salas de aula de 1ª à
4ª séries, impossibilitando a criação de metodologias que favoreçam essa construção por parte
dos educandos.
Conhecimento Profissional
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Os professores, para exercerem o seu papel, fazem jus a uma formação adequada para
lecionar as disciplinas ou saberes que lhe são propostos; além de um conjunto básico de
competências orientadas para a sua prática letiva, designados conhecimento profissional.
O conhecimento profissional, segundo Ponte (1998) está orientado para a ação e se desdobra
sobre quatro domínios inter-relacionados com aspectos do conhecimento pessoal e informal
da vida cotidiana do professor: o conhecimento dos conteúdos de ensino; o conhecimento do
currículo; o conhecimento do aluno; e o conhecimento do processo instrucional.
O processo de formação de professores nos diversos níveis (formação inicial, formação
contínua, formação especializada) é um processo de desenvolvimento profissional que
envolve o desenvolvimento de potencialidades de cada professor e a construção de novos
saberes marcados pelas dinâmicas sociais.
O conhecimento profissional dos professores se tece por meio da participação nas práticas
educativas, ou seja, nos processos de formação de professores a prática torna-se um elemento
essencial. Entretanto, a prática por si só não garante a qualidade na formação. É preciso
investigar as práticas educacionais.
Ponte (1998) relata que num curso de formação contínua de professores de matemática do
Departamento de Educação da FCUL (LISBOA), que tem como público-alvo professores de
2º e 3º ciclo do ensino básico e do ensino secundário, foram realizadas atividades de
investigação com o propósito de os alunos entrarem em contato com aspectos da experiência
matemática.
Essa experiência de trabalho investigativo da atividade matemática constituiu-se em um tipo
de trabalho de formação que envolveu as seguintes fases: definição de uma situação a
investigar; a formulação de questões de interesse; a elaboração de conjecturas; o seu teste; e,
caso estes testes se revelassem positivos, a procura de uma demonstração convincente. Neste
trabalho, o ponto culminante constituiu-se em corresponder os objetivos propostos com os
resultados conseguidos identificando-se qual a origem de eventuais dificuldades.
Essa integração do trabalho investigativo na formação do professor envolveu um contato
profissional com a prática, fundamental para os futuros professores. Isso porque os formandos
compreendem a sua própria aprendizagem por meio da investigação e análise e,
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conseqüentemente, compreendem esses processos nos próprios alunos (Ponte, 1998).
Acreditamos que a importância desse processo de aprendizagem significativa caracteriza-se
pelo fato da aprendizagem se dar no contexto do real.
A investigação educacional é um elemento importante porque contribui para a construção do
conhecimento por meio da prática profissional; em virtude da necessidade de manusear
conceitos, variáveis e hipóteses de uma maneira mais profunda e mais exigente.
Atualmente, segundo Zunino (1995), coexistem duas concepções antagônicas a respeito do
processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos matemáticos propostos na escola. Enquanto
numa concepção tradicional as crianças assimilam os conteúdos matemáticos por meio do
processo de explicação, repetição e memorização, na outra, construtivista, a metodologia
utilizada na forma de ensinar oferece às crianças oportunidades reais de assimilar o
conhecimento, baseadas na descoberta, investigação, discussão e interpretação.
O que se percebe é que em algumas escolas não se leva em consideração o que as crianças
pensam. Há uma separação entre a forma com que se atua dentro da escola e o que se faz fora
dela, ou seja, no processo de ensino e aprendizagem existe uma separação entre o ambiente
escolar e a vida cotidiana.
Numa análise feita por Zunino (1995) a criança não participa do aprendizado que está
vinculado ao conhecimento escolar; os procedimentos didáticos utilizados inadequados às
estratégias de aprendizagem desenvolvidas pelas crianças têm como resultado a dificuldade
dos alunos em compreenderem os conteúdos de matemática. Mas, como utilizar
procedimentos didáticos adequados sem ter domínio dos conteúdos a serem trabalhados, ou
mesmo sem consciência crítica de uma teoria que sedimente a prática docente?
Conclusão
A metodologia e os conteúdos ensinados na escola devem se adaptar às mudanças que
ocorrem na sociedade, procurando estar associados à realidade ambiental, auxiliando o aluno
a compreender o mundo.
Os educadores devem trabalhar buscando a interação entre os ensinamentos e o meio
ambiente; pois as facilidades advindas com a tecnologia permitem o acesso a grande
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quantidade de informações que exigem do homem atual, habilidades e destrezas a serem
desenvolvidas para atuar num mundo complexo.
Dessa forma, a escola deve buscar capacitar os alunos para se sintonizarem com processo em
constante mutação, que caracteriza o mundo atual. Porém, para que haja essa capacitação nas
escolas, os cursos de formação de professores generalistas precisam dar conta de uma
formação que contemple o perfil preconizado pelos PCNs na introdução desse trabalho.
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Bibliografia
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Matemática: reflexões psicopedagógicas. Porto Alegre – RS: Artes Médicas, 1996. P. 26-47.
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Glaeser. In: GEPEM, nº 37, Agosto, 2000.
PIRES, Yara Maria Cunha e FERREIRA, Eunice Freitas. Projeto para implantação do
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PONTE, João Pedro da. Didácticas específicas e construção do conhecimento profissional.
Conferência no IV Congresso de SPCE – Aveiro – Fevereiro, 1998.
SANTALÓ, Luis A. Matemática para não-matemáticos. In: PARRA, Cecília, et. al.
Didática da Matemática: reflexões psicopedagógicas. Porto Alegre – RS: Artes Médicas,
1996. P. 11-25.
SANTOS, Vânia Maria Pereira dos. Dificuldades em Matemática dos Futuros Professores
Primários. In: GEPEM, nº 27, ano XIV, 1o semestre, 1989.
SERRAZINA, Lurdes. A formação para o ensino da Matemática nos primeiros anos: que
perspectivas? In: SANTOS, Leonor; CANAVARRO, Ana Paula; BROCARDO, Joana.
Educação Matemática: caminhos e encruzilhadas. Actas do Encontro Internacional em
homenagem a Paulo Abrantes. Lisboa, Portugal: julho, 2005.
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Currículo do Curso de Pedagogia. Feira de Santana: Departamento de Educação/UEFS,
mimeo, 2002.
SZTAJN, Paola. Prática de Ensino de Matemática e Formação do Professor das Séries
Iniciais. In: GEPEM, nº 37, Agosto, 2000.
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ZUNINO, Délia Lerner. A Matemática na Escola: aqui e agora. 2a edição. Porto Alegre –
RS: Artes Médicas, 1995.
http://www.fae.ufmg.br:8080/ebrapem/completos/01-13.pdf

O Curso Normal Superior, (não foi extinto).



Governo não extingue os cursos de Normal Superior

Nos últimos dias têm sido vinculadas nos meios de comunicação matérias divulgando o título "O governo extingue cursos normais superiores do País", assim, cabe a indagação: como um órgão oficial intenciona acabar com um curso de graduação que tem respaldo legal pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira 9394/96 (Lei maior da área da Educação).

Aponto para esclarecimentos os seguintes artigos da LDB: 62 e 63, conforme explicitado abaixo: Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em Universidades e Institutos Superiores de Educação, admitida como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal. O curso Normal Superior é um curso de Licenciatura Plena conforme as exigências da Lei, assim não é possível acabar com um curso superior que cumpre a legislação. Art. 63. Os Institutos Superiores de Educação manterão I - cursos formadores de profissionais para a educação básica, inclusive o curso normal superior, destinado à formação de docentes para a educação infantil e para as primeiras séries do ensino fundamental.

O artigo 63 é enfático, pois o Curso Normal Superior é citado na LDB 9394/96 como "o curso" destinado à formação de professores para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental. Também não é recente a informação de que o curso de Pedagogia forma diretores, inspetores, supervisores e orientadores em nível de pós-graduação. O artigo da LDB 9394 que foi promulgada no ano de 1996, especificamente no Art. 64, trata especificamente dos cursos de Pedagogia: A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, supervisão e orientação educacional para educação básica, será feita em cursos de graduação em Pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional. A Lei distingue portanto, os cursos de Pedagogia daqueles destinados à formação de professores.

Dois aspectos são importantes enfatizar neste artigo para esclarecimento do leitor, o MEC expõe "a critério da instituição de ensino", então como um órgão nacional pode acabar com um curso que ele mesmo Autorizou e Reconheceu, sem levar em conta a autonomia das instituições de ensino superior que ele mesmo delegou? É preciso atentar-se ainda ao fato de que a lei distingue (e não extingue) os Cursos Normal Superior dos Cursos de Pedagogia. Observem ainda a Resolução do Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno CNE/CP nº. 1/2002, quando abre espaço para as instituições decidirem pela substituição dos cursos Normais Superiores. 3º As instituições de ensino superior decidirão pela aplicação, ou não, das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, aos cursos de Licenciatura, de graduação plena. Brasília (DF), 13 de setembro de 2005.

O que quer dizer que o MEC oferece a opção para a instituição aceitar ou não a transposição dos Cursos de Pedagogia para os cursos Normais Superiores. Ou ainda continuar com os dois, caso haja demanda de alunos, como ocorre em estados mais carentes do país. Vale ressaltar que há equívocos por parte dos meios de comunicação que divulgam tais notícias, quando refere-se que as Normas de extinção do Curso Normal Superior foram publicadas no Diário Oficial da União em abril, as DCNS (Diretrizes Curriculares dos Cursos de Pedagogia) é que foram aprovadas no início deste ano, analisemos os trechos a seguir: Art. 12. Concluintes do Curso de Pedagogia ou Normal Superior que, no regime das normas anteriores a esta Resolução, tenham cursado uma das habilitações, a saber Educação Infantil ou anos iniciais do Ensino Fundamental, e que pretendam complementar seus estudos na área não cursada poderão fazê-lo.

É relevante esclarecer que as instituições que quiserem optar por um curso só, poderão enviar seus projetos pedagógicos ao MEC, analisem a seguir: Art. 11. As instituições de educação superior que mantêm cursos autorizados como Normal Superior e que pretenderem a transformação em curso de Pedagogia, deverão elaborar novo projeto pedagógico, obedecendo ao contido nesta Resolução. § 1º O novo projeto pedagógico deverá ser protocolado junto ao órgão competente do respectivo sistema ensino, no prazo máximo de 1 (um) ano, a contar da data da publicação desta Resolução.

O sistema no MEC responsável por protocolar os pedidos de mudança é o sistema SAPIENS (Sistema de Acompanhamentos de Processos de Instituições de Ensino Superior/MEC), e, posteriormente envia uma comissão de especialistas para análise do projeto in loco, acredito como avaliadora do INEP/MEC (há 04 anos) que o mesmo possa ter divulgado a lista das 40 instituições que fizeram a opção por um curso só. Os parágrafos 2º e 3º das DCNS (Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Pedagogia) garantem os direitos dos alunos que ingressaram anterior as DCNS, o que pode ser explicitado na seqüência.§ 2º O novo projeto pedagógico alcançará todos os alunos que iniciarem seu curso a partir do processo seletivo seguinte ao período letivo em que for implantado.



* Márcia Helena de Lima- Possui o curso de Graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Uberlândia (1994) e mestrado em Geografia Escolar pela Universidade Federal de Uberlândia (2002). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Política Educacional, Sociologia da Educação e Formação Docente, atuando principalmente nos seguintes temas: Políticas Públicas da Educação Educação Popular e Educação no Campo. Docente do ensino superior nas áreas de Políticas Públicas, Metodologia do Ensino Superior e Metodologia de Pesquisa. Atua como avaliadora de curso do INEP/MEC para fins de autorização, reconhecimento e recredenciamento, e recentemente credenciamento de IES. Atua como Assessora para Credenciamento de IES e Autorização de Cursos. Coordena cursos de Pós-Graduação lato sensu em Uberlândia e Região. Tem experiência como Diretora Acadêmica.

Publicada em: 22/9/2006

Fonte:SINEPE/RS - SINDICATO DOS ESTABELECIMENTOS DO ENSINO PRIVADO NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

O que acontece quando uma organização é declarada terrorista?

Quando uma organização é oficialmente declarada ou designada como terrorista — seja por um governo específico (como o dos Estados Unidos),...