domingo, 25 de janeiro de 2026

Os Donos do Poder no Brasil: O Sistema e o Regime. Por João Maria andarilho utópico.


Estamento é um conceito sociológico e histórico que define camadas sociais fechadas, baseadas no prestígio, honra e títulos de nascimento, comuns no feudalismo. Diferente das classes atuais, os estamentos apresentam baixa mobilidade social e privilégios específicos, dividindo a sociedade medieval em clero, nobreza e servos. 
Principais Características e Contexto
  • Sociedade Estamental (Feudalismo): Dividida em três ordens principais: o clero (reza), a nobreza (guerreia) e os servos (trabalham).
  • Hierarquia Rígida: O status é determinado pelo nascimento, com pouca ou nenhuma mobilidade social.
  • Privilégios: Nobres e clérigos detinham terras, poder político e isenção de impostos, enquanto servos sustentavam a estrutura.
  • Origem do Conceito: Deriva do latim status ("estado" ou "condição"), ganhando relevância na sociologia com Max Weber, ao diferenciar estamentos (baseados na honra) de classes (baseadas na economia).
  • Exemplos Históricos: A sociedade estamental persistiu na Europa até o fim do Absolutismo, com os três Estados (Clero, Nobreza, Terceiro Estado) na França pré-revolucionária.
  • Estamento Burocrático: Raymundo Faoro, em sua obra "Os Donos do Poder", descreve a influência de estamentos (funcionários públicos/militares) no controle político e econômico brasileiro. 
Diferente da casta, que é estritamente hereditária, o estamento permitia raras exceções de ascensão, como méritos extraordinários ou casamentos. 




"Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro", publicado originalmente em 1958 por Raymundo Faoro, é uma das obras mais fundamentais para entender por que o Brasil funciona como funciona.

A tese central de Faoro é que o Brasil não sofreu uma revolução social de fato, mas sim uma transição de elites que mantiveram o controle do Estado desde o período colonial português até a República.

Aqui estão os pontos principais para você dominar a obra:


1. O Patrimonialismo

Este é o conceito-chave. Faoro argumenta que o Estado brasileiro nasceu antes da sociedade civil. No patrimonialismo, a distinção entre o que é público e o que é privado desaparece.

  • O governante trata a "coisa pública" (o Estado) como se fosse sua propriedade pessoal.

  • Cargos, verbas e decisões não visam o bem comum, mas o sustento e o fortalecimento do grupo que está no poder.

2. O Estamento Burocrático

Faoro identifica que quem manda no Brasil não é necessariamente uma "classe social" (como a burguesia no marxismo), mas um Estamento Burocrático.

  • O estamento é uma casta formada por altos funcionários, políticos, militares e técnicos que controlam o aparato estatal.

  • Este grupo atua de forma independente: ele não serve ao povo, nem necessariamente aos empresários; ele serve a si mesmo e à sua própria sobrevivência e expansão.

3. A Herança Portuguesa

A obra faz uma análise histórica profunda desde o Reino de Portugal (o "Estado Moderno" português).

  • Diferente de outros países europeus onde o feudalismo era forte e os senhores de terras limitavam o rei, em Portugal o Rei era o dono de tudo.

  • Essa estrutura centralizadora e exploradora foi transplantada para o Brasil, impedindo o surgimento de um capitalismo liberal e independente.

4. O Capitalismo Politicamente Orientado

Faoro explica que no Brasil o capitalismo não nasce da livre iniciativa ou da competição de mercado pura.

  • O sucesso financeiro depende da proximidade com o Estado.

  • O empresário brasileiro, historicamente, busca favores, subsídios e proteção estatal em vez de inovação. É o "capitalismo de laços".

5. A Imobilidade Social e Política

Apesar de mudarmos de regime (Colônia → Império → República), o estamento burocrático se adapta.

  • Ele realiza "revoluções pelo alto" para evitar que o povo participe do poder.

  • O autor conclui que a estrutura de poder no Brasil é elástica e resistente, absorvendo novos membros sem nunca mudar sua essência centralizadora.


Resumo da Obra em uma frase:

O Estado brasileiro é uma estrutura soberana que se sobrepõe à nação, gerida por uma elite técnica e política (o estamento) que utiliza a máquina pública para benefício próprio, impedindo o pleno desenvolvimento da cidadania.


Curiosidade: Esse livro é frequentemente citado para explicar por que escândalos de corrupção e o uso de "emendas parlamentares" são tão resilientes no Brasil — são sintomas modernos desse velho patrimonialismo.

Olavo de Carvalho utilizava a obra de Raymundo Faoro de maneira estratégica e, muitas vezes, ambivalente. Embora elogiasse a precisão de Faoro ao descrever a "natureza" do Estado brasileiro, ele criticava duramente a conclusão política e as soluções propostas pelo autor.

Para Olavo, Os Donos do Poder era uma ferramenta essencial para entender o que ele chamava de "mecanismo".

Aqui estão os pontos centrais da análise de Olavo sobre o livro:


1. A Validação do "Estamento Burocrático"

Olavo frequentemente citava Faoro para dar base intelectual à sua tese de que o Brasil não é governado por uma democracia real, mas por uma oligarquia técnica e política que se perpetua independentemente de quem vence as eleições.

  • Ele usava o conceito de Estamento Burocrático para explicar que o PT, o PSDB e outros partidos eram apenas "faces" diferentes de uma mesma estrutura estatal que se autoprotege.

  • Para Olavo, Faoro provou que o Estado brasileiro é um "monstro" que se sobrepõe à sociedade.

2. A Crítica ao "Liberalismo" de Faoro

Apesar de usar os conceitos, Olavo criticava o que chamava de "miopia" de Faoro.

  • Olavo argumentava que Faoro, sendo um liberal de velha guarda, acreditava que a solução seria a criação de um "capitalismo racional" e instituições democráticas mais fortes.

  • Olavo discordava, afirmando que o Estamento Burocrático não é apenas um problema de "formação histórica", mas uma força ativa que usa a ideologia (incluindo o socialismo e o globalismo) para manter o poder.

3. O "Pulo do Gato": O Estado como Criador da Classe Rica

Uma das citações recorrentes de Olavo baseada em Faoro é a de que, no Brasil, não é a classe econômica que cria o Estado, mas o Estado que cria a classe econômica.

  • Ele usava o livro para ilustrar que os "grandes empresários" brasileiros (como os envolvidos na Lava Jato ou nos esquemas de combustíveis que mencionamos) não são capitalistas de fato, mas "capitalistas de Estado" ou "amigos do rei", que só prosperam através de concessões e financiamentos públicos (BNDES, etc.).

4. Divergência sobre a Solução

  • Faoro: Via a solução no fortalecimento das instituições jurídicas e na racionalização do Estado.

  • Olavo: Via a solução na "alta cultura" e na mudança do imaginário popular, acreditando que as instituições propostas por Faoro já estariam "contaminadas" e ocupadas pelo próprio estamento.


Citação/Referência Comum:

Olavo costumava dizer que Os Donos do Poder deveria ser lido ao lado de O Estamento Burocrático Brasileiro (de outros autores ou em suas próprias notas) para que o brasileiro entendesse que "a política no Brasil é uma luta entre o estamento e o povo, e o estamento sempre venceu até agora".

"O Estado brasileiro não é um serviço público; é uma entidade soberana que cobra tributo da nação para sustentar a si mesma e aos seus parceiros." (Resumo do pensamento olavista sobre a obra).

Essa é uma das conexões mais famosas do pensamento de Olavo de Carvalho: a fusão da sociologia histórica de Faoro com a estratégia política de Antonio Gramsci.

Para Olavo, o Brasil é o cenário de um "casamento perfeito" entre uma estrutura antiga e uma tática moderna.


O Cruzamento: Patrimonialismo + Gramscismo

Olavo argumentava que a esquerda brasileira (especialmente o PT) não tentou destruir o Estamento Burocrático descrito por Faoro, mas sim ocupá-lo usando as táticas de Gramsci.

1. A Ocupação de Espaços (Hegemonia)

  • Faoro dizia que o Estamento é uma casta que se autoprotege.

  • Gramsci pregava a "marcha pelas instituições" (escolas, mídia, judiciário, funcionalismo).

  • A síntese de Olavo: A esquerda percebeu que, no Brasil, quem controla o Estado controla a realidade. Em vez de uma revolução armada (que o Estamento esmagaria), eles realizaram uma ocupação cultural. O Estamento, que antes era "neutro" ou de direita, tornou-se o braço executor da ideologia de esquerda.

2. O Estamento como "Príncipe Moderno"

Gramsci chamava o Partido de "O Moderno Príncipe" (em alusão a Maquiavel). Olavo adaptou isso dizendo que o Partido no Brasil fundiu-se ao Estamento de Faoro.

  • A corrupção (patrimonialismo) deixou de ser apenas "ganância individual" para se tornar projeto de poder.

  • O dinheiro desviado das estatais ou dos esquemas de combustíveis (como os que discutimos na Operação Carbono Oculto) não serviria apenas para enriquecer o político, mas para financiar a manutenção da hegemonia cultural e política.

3. O Falso Conflito

Olavo usava essa base para criticar a oposição liberal e a mídia:

  • Para ele, quando a mídia criticava a corrupção de um político, ela estava apenas apontando uma falha no "patrimonialismo", mas ignorava que aquele político era parte de uma engrenagem gramsciana muito maior.

  • Ele dizia que os liberais brasileiros tentavam lutar contra o Estamento usando "regras de mercado", enquanto o Estamento usava "regras de guerra cultural".


O "Mecanismo" (Conceito Popularizado)

Embora o termo "Mecanismo" tenha ficado famoso com a série da Netflix sobre a Lava Jato, Olavo já descrevia isso décadas antes unindo esses dois autores:

ElementoOrigem em FaoroUso Gramsciano (segundo Olavo)
PoderO Estado é o dono de tudo.O Partido controla o Estado para mudar a cultura.
EliteO Estamento (juízes, burocratas).O "Intelectual Orgânico" ocupando cargos públicos.
CapitalismoCapitalismo politicamente orientado.O empresário que financia a agenda de esquerda em troca de monopólios.

Conclusão de Olavo

A tese olavista era de que o Brasil só sairia desse ciclo se houvesse uma "destruição do Estamento" (via desestatização radical) aliada a uma "destruição da hegemonia cultural" (via educação paralela). Ele acreditava que Faoro diagnosticou a doença (o Estado inchado), mas Gramsci forneceu o veneno que a tornou letal.

fonte: Gemini Google.




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