domingo, 18 de maio de 2008

Freud e o Desenvolvimento: A teoria psicanalítica é como uma formulação desenvolvimentista da personalidade


Freud e o Desenvolvimento

A teoria psicanalítica é como uma formulação desenvolvimentista da personalidade

O desenvolvimento humano e a constituição do aparelho psíquico são explicados pela evolução da psicossexualidade.
A sexualidade está integrada no nosso desenvolvimento desde o nascimento, evoluindo através de estádios, com predomínio de uma zona erógena, que, quando estimulada, dá prazer.
Um dos conceitos mais importantes da teoria psicanalítica é a existência da sexualidade infantil.
Esta psicossexualidade envolve todo o corpo, é pré-genital e não centrada no aparelho genital, e nos primeiros anos é auto-erotica.

Organização das instancias do aparelho psíquico.

Id.

· É o primeiro elemento. Nasce com a criança. O seu conteúdo é constituído por toda a herança biológica do indivíduo, enquanto fonte da motivação e do prazer.
· É a fonte de toda a energia psíquica. É inconsciente e visa a satisfação imediata na busca exclusiva do prazer tendo assim a função de descarregar as tensões biológicas.
· A vida em sociedade seria impossível: é amoral.
· A busca narcísica e egocêntrica do prazer levaria a constantes frustrações e conflitos no mundo real.

Ego

· Orienta as pulsões de acordo com as exigências da realidade.
· Controla as exigências instintivas do Id, decidindo onde, quando e como são feitas. Tem o papel de árbitro na luta entre as pulsões inatas e o meio. É a parte racional da alma.
· É pressionado pelos desejos insaciáveis do Id, a severidade repressiva do Superego e os perigos do mundo exterior. Se se submete ao Id, torna-se amoral e destrutivo; se se submete ao Superego, enlouquece de desespero, pois viverá numa

insatisfação insuportável; se não se submeter à realidade do mundo, será destruído por ele. Por esse motivo, tem a dupla função de, recalcar o Id, satisfazendo o Superego, e satisfazer o Id, limitando o poderio do Superego.

Superego

· Autoridade do grupo social. Consciência moral que se liga a culpabilidade e a autocrítica.
· Representa um conjunto de valores nucleares como: honestidade, sentido de dever, obrigações, sentido de responsabilidade e outros.
· Também inconsciente faz a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem ao Id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos.
· Repreende. Manifesta-se à consciência de forma indirecta.
· Produção da imagem “Eu ideal”, isto é, da pessoa hipermoral, boa e virtuosa.

Estádios Psicossexuais

Estádio Oral (0 – 12/18 meses)

O ser humano nasce com id, ou seja, um conjunto de pulsões inatas.
O ego forma-se no primeiro ano de vida, de uma parte do id, que começa a ter características próprias.
Neste período são particularmente importantes as percepções visuais e auditivas.

A zona erógena do bebé, nos primeiros meses é constituída pelos lábios e cavidade bucal.
A alimentação é uma grande fonte de satisfação.
O chupar o seio materno é para os freudianos a primeira actividade sexual.
Nesta altura a relação entre o bebe e a mãe, vai ter reflexos na vida futura.

Estádio Anal (12/18 meses – 2/3 anos)

A maturação e o desenvolvimento psicomotor vão permitir à criança reter ou expulsar as fezes e a urina.
Neste estádio a zona erógena é o ânus.
Este período etário corresponde a uma fase em que a criança é mais autónoma, procurando afirmar-se e realizar as suas vontades.

Estádio Fálico (3 – 5/6 anos)

Neste estádio a zona erógena é a região genital. O órgão sexual é a fonte de prazer, sendo comum a sua manipulação.
A criança estão interessadas nas diferenças anatómicas entre os sexos, às interacções homem e mulher, tem brincadeiras que exploram essa interação (aos pais e as mães). Tem comportamentos exibicionistas e gostam de espreitar.




Estádio de Latência (5/6 anos – puberdade)

Após a vivência dos complexos e com um superego já formado a criança entra numa fase da latência, ou seja, vai esquecer alguns acontecimentos e sensações, através de um processo que se chama amnésia infantil.
O estádio de latência caracteriza-se por uma diminuição da actividade sexual.
A criança pode nesta fase, de uma forma mais calma e disponibilizada, desenvolver competências a nível escolar, social, cultural… Via aprender a ser mulher ou homem na sociedade.

Estádio Genital (depois da puberdade)

A adolescência vai reactivar uma sexualidade que esteve como que adormecida durante o período de latência.
A puberdade traz novas pulsões sexuais genitais e o mundo relacional do adolescente é alargado a pessoas exteriores à família.
O adolescente vai reactivar o seu complexo de Édipo e poderá assim, fazer escolhas sexuais fora do mundo familiar, bem como adaptar-se a um conjunto de exigências socioculturais.

Conflitos inerentes aos diferentes estádios psicossexuais do desenvolvimento

Cada estádio é marcado pelo confronto entre as pulsões sexuais (libido) e as forças que se lhe opõem (ódio, raiva, desespero, ausência de desejo).

Estádio oral

Neste período a criança é muito passiva e dependente; e por outro em que a criança é mais activa e na época do desmame pode mesmo morder o seio da mãe.
O desmame corresponde a uma frustração que vai situar a criança em relação à realidade do mundo.

A mãe é então muito investida enquanto pessoa que pela sua presença dá prazer e pela sua ausência frustra. A partir deste acontecimento dá-se um primeiro passo no processo de separação.

Estádio anal

A estimulação do ânus neste estádio dá prazer à criança, todavia, as contracções musculares podem provocar dor.
A ambivalência está também presente na forma como a criança hesita entre ceder ou opor-se ás regras de higiene que a mãe exige.

Estádio Fálico

Complexo de Édipo

É vulgar ouvir os meninos dizer que a sua namorada é a mãe e quando forem crescidos querem casar com ela.
Segundo Freud, os desejos libidinosos do filho para com a mãe, são totalmente inconscientes, embora eles influenciem o seu comportamento, não é ciente deles.
À medida que o seu desejo se sente mais forte, a criança entra inconscientemente em competição com o pai. É a conjugação destes dois sentimentos (amor/rivalidade) que fazem com que surja no rapaz o desejo de imitar o pai, de ser como ele, para conquistar a mãe.
Isto origina outro complexo – o complexo da castração – em que o rapaz teme que o pai se vingue, mutilando-o, particularmente amputando-lhe os órgãos genitais. O que aqui nos parece negativo e de certo modo chocante é, pelo contrário, positivo e basilar para a estruturação da personalidade.

Complexo de Electra

O desenvolvimento da personalidade da rapariga segue as mesmas directrizes. A rapariga sente-se atraída pelo pai. Uma importante diferença é que a rapariga esteve desde sempre muito ligada à mãe e, nesta idade, vai investir e seduzir o pai.
É mais difícil rivalizar com a mãe porque receia perder o seu amor. As meninas sentem aquilo a que Freud chamou inveja do pénis, ou pura e simplesmente dão-se conta de que o não têm, culpam a mãe por as terem posto no mundo incompletas. Porém, a resolução deste complexo não chega a um desfecho abrupto e quando o desfecho é feliz, a rapariga identifica-se com a mãe e torna socialmente aceitáveis os seus sentimentos pelo pai.

Estádio de Latência

A vergonha, o pudor, o nojo, a repugnância são sentimentos que contribuem para reter e controlar a libido. A existência do superego vai manifestar-se em preocupações morais.
O ego tem mecanismos inconscientes, que permitem estruturar uma nova organização face as pulsões do id.

Estádio Genital

Alguns adolescente, face as dificuldades deste período, regridem, recorrendo a mecanismos como o ascetismo ou a intelectualização.

Ascetismo: o adolescente nega prazer, procura ter controlo das pulsões através de uma rigorosa disciplina e de isolamento.

Intelectualização: o jovem procura esconder os aspectos emocionais do processo adolescente, interessa-se por actividades como pensamento, colocando ai toda a sua energia.

Obrigado por sua visita, volte sempre.

A ABORDAGEM HOLÍSTICA DO CUIDADO DE ENFERMAGEM NA




A ABORDAGEM HOLÍSTICA DO CUIDADO DE ENFERMAGEM NA
DOENÇA DE HUNTINGTON
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Centro Universitário São
Camilo como requisito para obtenção do
título de Bacharel em Enfermagem
Orientadora: Profa. Dra. Ana Cristina de Sá
São Paulo
Novembro - 2006
2
Thatiana Otaviano
A ABORDAGEM HOLÍSTICA DO CUIDADO DE ENFERMAGEM NA
DOENÇA DE HUNTINGTON
São Paulo, 11 de novembro de 2006.
Prof. Orientador: Ana Cristina de Sá
Prof. Examinador
3
DEDICATÓRIA
Dedico esse trabalho a toda minha família, pela confiança depositada em mim,
pelo amor, apoio e paciência.
4
AGRADECIMENTOS
Agradeço em primeiro lugar a Deus, fonte de luz e sabedoria, pela força e
coragem concedidas a mim, estando comigo em toda a trajetória, por todos os
momentos de alegrias e boas surpresas, pelo crescimento pessoal que estes quatro
anos me proporcionaram.
Às minhas tias Maria Helena, Jussara e Benedita, sem as quais a realização
desse trabalho não seria possível.
A todos os amigos que caminharam junto a mim neste período tão importante.
À minha orientadora pela paciência, eficiência e tranqüilidade que ela
transmitiu durante todo o processo de confecção desse trabalho.
E, finalmente, a todos os meus professores, fundamentais para minha
formação.
5
“A arte de cuidar, promove os valores da vida que transcendem a toda e qualquer
limitação humana (Adalberto P. Barreto)”.
6
RESUMO
O trabalho visa estabelecer um plano de assistência para o indivíduo portador
de Doença de Huntington e orientações a seus cuidadores, em especial a família.
Traz ainda ao conhecimento dos profissionais da saúde essa doença degenerativa
pouco comum, a partir de amplo levantamento bibliográfico em bases diversas
incluindo LILACS, MEDLINE e SCIELO em fontes diversas como artigos, tratados e
livros num espaço de tempo ampliado até 15 anos de publicação, visto que
publicações sobre a patologia são raras. Conclui-se, a partir do referencial teórico
levantado, que o grande desafio da enfermagem é prestar cuidados que ofereçam
uma melhor qualidade de vida para este doente, fazendo as intervenções
necessárias mediante os problemas levantados e, principalmente, aplicando a essas
intervenções a visão holística e a humanização, trabalhando lado a lado com a
família, o que se faz essencial.
Palavras-chave: enfermagem, doença de huntington, doenças degenerativas.
7
ABSTRACT
The work aims to set up an assistance schedule for a Huntington Desease
porter and guidelines to their caretakers, especially to their family. It still brings to the
knowledge of Health professionals that uncommon degenerative desease, from a
broad bibliographic survey on several bases including LILACS, MEDLINE and
SCIELO from several sources as articles, treaties and books on an amplified time
space up to 15 years of publication, once publications about that pathology are rare. It
is concluded, from the surveyed theoretical reference, that the big nursing challenge
is giving assistance which offer a better quality of life to this patient, doing the
necessary interventions throughout the surveyed problems and, mainly, applying to
those interventions a holistic vision and humanization, working together with the
family, what is essencial.
Key Words: nursing, huntington desease, degenarative deseases.
8
SUMÁRIO
1. Introdução.............................................................................................09
1.1Histórico e epidemiologia da Doença de Huntington...................10
2. Objetivo.................................................................................................11
3. Material e método.................................................................................12
3.1 Tipo de pesquisa.........................................................................12
3.2 Método........................................................................................12
4. Revisão bibliográfica...........................................................................14
4.1 Anatomia.....................................................................................14
4.1.1 Sistema Motor...............................................................15
4.1.2 Núcleos da Base...........................................................15
4.2 Fisiopatologia.............................................................................17
4.3 Sinais e sintomas.......................................................................19
4.4 Diagnóstico.................................................................................21
4.5 Tratamento.................................................................................22
4.6 Assistência de Enfermagem......................................................23
4.6.1 Abordagem Holística na Assistência............................23
4.6.2 Assistência ao Paciente...............................................24
4.6.3 Assistência à Família...................................................26
5. Doença de Huntington – uma experiência pessoal.........................29
6. Conclusão...........................................................................................32
7. Referências bibliográficas / Documentos on-line ..........................33
9
1. Introdução
O adoecer é um processo que requer atenção especial não só para o
indivíduo doente, mas também para as pessoas envolvidas no seu cuidado. Há
percepções, avaliações e respostas diferentes às doenças.
São comuns alguns comportamentos quando o indivíduo se reconhece como
doente: ele pode agir, usando um autotratamento ou procurando ajuda especializada;
pode não agir com o objetivo de esperar para ver o que acontece e pode negar a
existência da doença o que pode ser extremamente perigoso, pois é ignorada a
gravidade ou existência dos sintomas (HUDAK e GALLO, 1997).
Além desses comportamentos há um outro ponto importante a ser observado:
quando se está doente se aceita ou impõe-se um papel dependente onde existe a
obrigatoriedade em seguir um plano de tratamento prescrito.
Nessas condições, se faz necessária a assistência de outras pessoas para
que as necessidades humanas básicas sejam atendidas, para que haja apoio
emocional e para que se tomem decisões e se façam as tarefas, no lar ou no
trabalho, para o doente.
Diante de certas patologias, principalmente as degenerativas, torna-se
indispensável um acompanhamento terapêutico sério para trabalhar a adaptação às
mudanças que acontecerão na rotina do doente e de sua família. Dentro dessas
patologias, a Coréia de Huntington, que é uma afecção crônica e incapacitante,
requer cuidados especiais.
A raridade da patologia em questão e a pouca quantidade de referencial
teórico chamaram à atenção, principalmente com relação a assistência de
enfermagem.
10
A Doença de Huntington é altamente incapacitante e as mudanças na vida do
paciente e sua família não são poucas e tampouco suaves, o que pede
acompanhamento específico.
Nós enfermeiros devemos estar preparados para atender essa demanda
específica entendendo o que acontece em nível genético e neurológico e o porquê.
1.1 Histórico da DH e aspectos epidemiológicos
George Huntington, em 1872 descreveu as características da doença, mas
apenas em 1983 descobriu-se que sua causa é um gene defeituoso numa região do
cromossomo 4. Dez anos depois, foi descoberto que essa região é o braço curto
deste cromossomo.
A Doença de Huntington também é chamada de Coréia de Huntington por
causar movimentos involuntários que lembram uma dança típica deste país.
É uma afecção hereditária e as chances de um filho herdar o gene defeituoso
do pai ou mãe afetado são de 50%. Ainda não existem dados estatísticos da doença
no Brasil, mas em cada 100.000 pessoas cerca de 5 a 10 são acometidas, não
existindo fatores predisponentes para sua ocorrência.
Seus sintomas aparecem geralmente entre 30 e 50 anos de idade. Na forma
juvenil isso acontece antes dos 20 anos.
11
2. Objetivo
O presente trabalho objetiva, a partir de pesquisa descritiva de caráter
etnográfico e amplo levantamento bibliográfico retrospectivo, não apenas traçar um
plano de cuidados para o paciente e seus cuidadores, mas trazer esse conhecimento
aos profissionais da saúde para o estudo aprofundado de doenças degenerativas
pouco comuns.
12
3. Material e Método
A concretização deste trabalho deu-se através da observação e descrição,
visando conhecer melhor os costumes específicos da família com doente de
Huntington, com relação a assistência de enfermagem. Para a realização do seguinte
trabalho também foi feito um levantamento bibliográfico de artigos, tratados e livros
com 10 a 15 anos de publicação, devido a escassez de material cujo tema seja
“Doença de Huntington”.
3.1 Tipo de Pesquisa
A pesquisa é descritiva e de caráter etnográfico, procurando explicar o
assunto através da observação e descrição de um grupo específico, a família
(MARCONI e LAKATOS, 2004). Foi realizado também um levantamento bibliográfico
esclarecendo o tema a partir de referências teóricas publicadas em documentos.
Busca conhecer e analisar as contribuições científicas passadas existentes sobre o
determinado tema (CERVO e BERVIAN, 2002)
3.2 Método
O amplo levantamento bibliográfico foi realizado em base de dados LILACS,
SCIELO E MEDLINE, por lógica boleana, com os seguintes resultados:
- 2 Artigos nacionais;
- 4 Artigos internacionais;
- 10 Livros, nos últimos 15 anos.
A margem de anos é alta justificada por ser uma patologia rara e com pobre
literatura desenvolvida a respeito.
13
Para levantamento de fontes diversas, foram pesquisados os acervos das
seguintes bibliotecas: Biblioteca Padre Inocente Radrizzani, Biblioteca da Escola de
Enfermagem da USP.
Complementando os dados, foram realizadas pesquisa on-line em sites
oficiais da Associação Brasileira de Huntington (ABH) e União dos Parentes e
Amigos dos Doentes de Huntington (UPADH).
14
4. Revisão Bibliográfica
Para proceder ao cuidado com doentes de Huntington, é necessário o
conhecimento sobre as principais estruturas que ela afeta. É uma doença que atinge
os núcleos da base, região cerebral responsável pelo controle dos movimentos.
4.1 Anatomia
Em nível celular, o Sistema Nervoso se divide em 2 componentes: a glia e os
neurônios. A glia não participa diretamente da sinapse, mas providencia suporte
estrutural e metabólico para os neurônios durante as fases de desenvolvimento e
maturação cerebral (MARTIM, 1998).
O neurônio é uma célula capaz de armazenar e processar informações. Ele
participa ativamente da sinapse, apresenta diferentes formas e tamanhos e é
composto por dendritos, corpo celular, axônio e terminações axônicas.
De acordo com Martim (1998), outra divisão que acontece no Sistema
Nervoso é quanto a sua região e funcionamento, podendo ser central ou periférico.
- Sistema Nervoso Periférico: possui 2 porções uma autônoma, que controla
as glândulas e a musculatura lisa das víceras e vasos sanguíneos, e outra somática
que é responsável pela inervação sensitiva dos tecidos corpóreos e inervação
motora da musculatura esquelética.
- Sistema Nervoso Central: comanda todos os outros sistemas do corpo e é
dividido em 7 partes: medula espinhal; bulbo; ponte; cerebelo; mesencéfalo;
diencéfalo, que contém o tálamo e o hipotálamo, e os hemisférios cerebrais que
contém os núcleos da base (estrutura chave da Doença de Huntington), a amígdala,
a formação hipocampal e o córtex cerebral.
15
4.1.1 Sistema Motor
O Sistema Motor dirige os movimentos dos membros e tronco regulando o
músculo esquelético. Fazem parte deste sistema, 4 componentes.
O primeiro componente, as vias de projeção descendente, tem origem nas
regiões do córtex e tronco cerebral caminhando em direção à periferia. Os neurônios
de projeção fazem sinapse diretamente tanto com neurônios motores, como em
interneurônios, que por sua vez fazem sinapse com neurônios motores.
Martim (1998), afirma ainda que tais neurônios motores e interneurônios são o
segundo componente do sistema motor e são encontrados, em sua maioria, na zona
intermediária da medula espinhal.
O terceiro e quarto componente do sistema motor, os núcleos da base e
cerebelo, não contém neurônios interligados com os neurônios motores, mas
possuem grande influência reguladora sobre o comportamento motor através de
seus efeitos nas vias descendentes.
4.1.2 Núcleos da Base
Bear (2002), afirma que os núcleos ou gânglios da base - CAUDATO,
PUTAMEN, GLOBO PÁLIDO e NÚCLEO SUBTALÂMICO - estão contidos no
córtex cerebral e envolvidos em conjunto, no controle do movimento. Parece que
os gânglios da base participam também de um grande número de circuitos
paralelos, sendo apenas alguns poucos de função motora. Outros circuitos estão
envolvidos em certos aspectos da memória e da função cognitiva.
Ainda segundo Bear (2002), algumas das funções mais específicas dos
gânglios basais relacionadas aos movimentos são:
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- Núcleo caudato: controla movimentos intencionais grosseiros do corpo
(isso ocorre a nível sub-consciente e consciente) e auxilia no controle global dos
movimentos do corpo.
- Putâmen: funciona em conjunto com o núcleo caudato no controle de
movimentos intencionais grosseiros. Ambos os núcleos funcionam em
associação com o córtex motor, para controlar diversos padrões de movimento.
- Globo pálido: provavelmente controla a posição das principais partes do
corpo, quando uma pessoa inicia um movimento complexo, isto é, se uma
pessoa deseja executar uma função precisa com uma de suas mãos, deve
primeiro colocar seu corpo numa posição apropriada e, então, contrair a
musculatura do braço. Acredita-se que essas funções sejam iniciadas,
principalmente, pelo globo pálido.
- Núcleo subtalâmico e áreas associadas: controlam possivelmente os
movimentos da marcha e talvez outros tipos de motilidade grosseira do corpo.
Evidências indicam que a via motora direta funciona para facilitar a
iniciação de movimentos voluntários por meio dos gânglios da base. Essa via
origina-se com uma conexão excitatória do córtex para as células do putâmen.
Estas células estabelecem sinapses inibitórias em neurônios do globo pálido,
que, por sua vez, faz conexões inibitórias com células do tálamo. A conexão do
tálamo com a área motora do córtex é excitatória. Ela facilita o disparo de células
relacionadas a movimentos na área motora do córtex. Portanto, a conseqüência
funcional da ativação cortical do putâmen é a excitação da área motora do córtex
pelo núcleo ventrolateral do tálamo (BEAR, 2002).
17
4.2 Fisiopatologia
Leite (2001), descreve a Doença de Huntington (DH) como um distúrbio
provocado por mutação caracterizada por aumento do número de repetições de
trinucleotídeo CAG, que codifica o aminoácido glutamina. Repetições de
trinucleotídeos freqüentemente são encontradas em genes que codificam fatores de
transcrição (proteínas que regulam a expressão de outros genes) e em genes que
regulam o desenvolvimento.
Na DH o gene afetado, localizado no cromossomo 4, codifica a proteína
huntingtina, de função ainda desconhecida, mas possivelmente envolvida no
desenvolvimento embrionário normal, na hematopoiese e na neurogênese . A
huntingtina normalmente apresenta até 35 resíduos de glutamina na extremidade Nterminal,
enquanto a mutante apresenta 38 ou mais resíduos e forma agregados cuja
translocação para o núcleo parece ser um evento crítico que induz a morte neuronal
por apoptose (morte celular programada) (LEITE, 2001).
As mutações por expansão de segmentos de trinucleotídeos são denominadas
dinâmicas ou instáveis, pois tendem a aumentar de uma geração para outra. Como
existe uma relação inversa entre o tamanho da expansão do segmento de
poliglutamina e a idade de início das manifestações, em tais doenças pode ocorrer o
fenômeno de “antecipação”, onde os descendentes desenvolvem manifestações em
idade mais precoce que seu genitor afetado.
Leite (2001), afirma que na DH a correlação clínica entre estes parâmetros é
significativa apenas para mutações com mais de 60 ou 70 repetições CAG, mas
como a maior parte dos pacientes apresenta entre 40 e 49 repetições, raramente o
fenômeno de antecipação é observado. Ao contrário de outras doenças provocadas
por expansão de CAG, na DH a instabilidade da mutação ocorre quando o pai é o
genitor afetado.
18
A doença de Huntington se manifesta através de uma degeneração
generalizada dos neurônios do núcleo caudado e putâmen, responsáveis pela
regulação dos movimentos intencionais grosseiros do corpo (GUYTON e HALL,
2002).
A neurodegeneração da DH é seletiva, provocando atrofia inicialmente mais
marcante no corpo estriado (núcleo caudado e putâmen), o que determina dilatação
dos ventrículos laterais. A atrofia cerebral é proporcional à duração e gravidade dos
sintomas e envolve ativação da apoptose. As hipóteses que tentam explicar a morte
neuronal na DH envolvem diminuição do metabolismo energético, alterações da
função mitocondrial, estresse oxidativo e neurotoxicidade mediada por aminoácidos
excitatórios, como o glutamato, ou por metabólitos endógenos do triptofano. É
possível que diversos mecanismos se complementem na promoção da lesão celular
(LEITE, 2001).
De acordo com Guyton e Hall (2002), essa degeneração envolve
principalmente os neurônios secretores do ácido gama – butílico, responsável pela
inibição dos neurorreceptores da substância negra permitindo, em contra partida, a
hiperatividade dos neurônios secretores de dopamina acarretando a inibição intensa
do núcleo caudado e putâmen e conseqüente descontrole dos movimentos corporais,
decadência mental progressiva e alterações comportamentais.
19
4.3 Sinais e Sintomas
A degeneração neuronal causa a coréia que é a ocorrência de movimentos
involuntários, manifestados por contrações musculares espontâneas, irregulares e
transitórias. Associados à coréia, outros sintomas principais são o envelhecimento
precoce e emagrecimento intenso.
Brunner e Suddarth (2005) afirmam que a fala é afetada ficando arrastada no
começo da manifestação da DH, depois hesitante, às vezes explosiva e finalmente
ininteligível. A mastigação e deglutição se apresentam cada vez mais danificadas,
tornando constante o risco de aspiração e asfixia. Um dos sintomas característicos
dessa patologia é o bruxismo. Por conta disso, em muitos casos, faz se necessário a
indicação cirúrgica para a extração total dos dentes, para que não haja danos
maiores para orofaringe.
O equilíbrio é afetado deixando o paciente mais suscetível a quedas e
conseqüentes lesões de pele e / ou fraturas interferindo também no ato de sentar. A
marcha, vacilante no início, fica prejudicada a ponto de impossibilitar a deambulação,
deixando o paciente confinado ao leito.
As mudanças no campo cognitivo também são de grande relevância, pois o
doente tem suas habilidades de memória, de organização e intelectuais reduzidas,
levando à demência em estágios mais avançados. Depressão, apatia, ansiedade e
irritabilidade são freqüentes. (BRUNNER e SUDDARTH, 2005)
As alterações nos campos mental e emocional são, na maioria das vezes,
mais avassaladoras para o paciente e sua família que a presença de movimentos
anormais.
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No aspecto comportamental variações entre explosões agressivas, isolamento
social, impulsividade e mudanças de humor são comuns no estágio inicial da doença.
Os distúrbios de personalidade também estão presentes, acompanhados de
alucinações e pensamentos paranóides. O risco de suicídio deve ser considerado,
pois é de 4 a 6 vezes maior nas famílias afetadas pela doença.
21
4.4 Diagnóstico
Só se pode chegar a um diagnóstico clínico de DH através de um exame
completo, que geralmente vincula um exame neurológico e psicológico e uma história
familiar detalhada. A RM (ressonância magnética) ou TC (tomografia
computadorizada) podem ser incluídas, mas os achados destes procedimentos não
são suficientes para formar um diagnóstico, e sim para excluir outros problemas que
causam sintomas semelhantes (WEATHERALL, 1993).
De forma similar, o teste genético pode ser usado para auxiliar a confirmar ou
excluir o diagnóstico de DH. Entretanto, o resultado positivo do teste (indicando a
presença do gene da DH) não é suficiente apenas por si próprio (por exemplo, sem
um exame neurológico) para confirmar o diagnóstico clínico da DH manifesta.
É melhor fazer uma consulta com um médico (geralmente um neurologista)
que esteja familiarizado com DH, uma vez que os sintomas podem imitar aqueles de
outras desordens, como outras formas de coréias, ataxias, doença de Parkinson ou
alcoolismo (WEATHERALL, 1993).
O diagnóstico de DH pode explicar porque a memória não é mais tão boa
como costumava ser, ou porque a pessoa está se sentindo irritada ou deprimida.
Contudo, para muitos a notícia é muito perturbadora. É comum as pessoas
manifestarem o "estado de negação" após receberem o diagnóstico de DH e
procurarem outras opiniões.
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4.5 Tratamento
Sabe-se atualmente que não existem meios de reverter o processo básico da
Doença de Huntington, posto que vários métodos têm mostrado ação paliativa
satisfatória.
São usados as fenotiazinas, as butirofenonas e os tioxantenos para bloquear
os receptores da dopamina, melhorando os movimentos coreiformes em muitos
pacientes.
O tratamento é puramente sintomático e seu objetivo é melhorar a qualidade
de vida do doente uma vez que tal distúrbio não tem cura.
Antidepressivos são úteis nos estados depressivos, e benzodiazepínicos, em
alterações comportamentais. Fisioterapia, fonoaudiologia e musicoterapia também
auxiliam na manutenção da qualidade de vida dos doentes.
São comuns alguns efeitos colaterais dos benzodiazepínicos, como
constipação, xerostomia, hipotensão, bradicardia, tontura, convulsões e edema
periférico.
23
4.6 Assistência de Enfermagem
4.6.1 Abordagem holística na assistência
O paciente crônico neurológico precisa de cuidados específicos não apenas
para os achados de enfermagem fisiopatológicos, mas também para questões
psicossociais, ambientais e familiares que se tornam intimamente ligadas à doença
física (HUDAK e GALLO, 1997).
A adaptação do paciente gera alguns comportamentos:
- Afastamento: o paciente foge da situação,
- Oposição: as defesas do organismo tentam destruir o fator de estresse às
custas de outros sistemas,
- Adaptação: busca-se estabelecer uma resposta compatível ao estresse e
ainda preservar um estado de equilíbrio.
O objetivo da enfermagem é a adaptação e, de alguma forma, todos esses
mecanismos que contribuem para isso. Os enfermeiros estimulam essa adaptação
através das respostas do funcionamento fisiológico e emocional, reduzindo o
estresse e poupando energia (HUDAK e GALLO, 1997).
Uma conduta holística para cuidados de enfermagem em pacientes crônicos
neurológicos deve incluir a família.
Hudak e Gallo (1997), consideram membro da família qualquer pessoa que
tenha papel significativo no estilo de vida do doente. Quando o paciente se encontra
numa situação de doença crônica e morte iminente, suas funções e
responsabilidades são acrescentadas agora às responsabilidades de outras pessoas,
24
alterando seus horários e atividades, causando desconforto e contrariedade diante
do seu não – cumprimento.
Além dessas responsabilidades, seu papel social dentro da família está
deficiente e na maioria das vezes acontece uma mudança nesses papéis,
favorecendo uma situação de crise.
Cabe a nós, enfermeiros, ajudar essa família a alcançar o maior nível de
adaptação por aprendizado com a experiência da crise, recuperando um estado de
equilíbrio, conhecendo os sentimentos envolvidos na crise para evitar depressões
tardias, permitindo crescimento emocional (HUDAK e GALLO, 1997).
4.6.2 Assistência ao paciente
O grande desafio da Enfermagem é prestar cuidados que ofereçam uma
melhor qualidade de vida para o doente de Huntington. Para que o objetivo seja
alcançado é necessário que liste os achados de enfermagem, fazendo assim as
intervenções necessárias.
Devido à movimentação constante e perda contínua do equilíbrio, o
doente tem uma tendência maior a quedas e conseqüentemente de escoriações
cutâneas. Para diminuir o risco para quedas é necessário deixar o ambiente livre de
quaisquer obstáculos – tapetes, mesas, cadeiras - evitando que o doente tropece.
Para aqueles em estágio avançado, onde a deambulação já foi bastante
afetada e o doente precisa ser mantida uma alternância entre leito e cadeira de
acordo com a disposição do paciente dificultando a predisposição para pneumonia e
outras afecções respiratórias, é importante também atentar para o risco de se
formarem úlceras de pressão (BRUNNER E SUDARTH, 2005).
25
Deve-se fazer uso de lençóis e roupas de cama macios, acolchoar laterais e
cabeceira do leito, manter a pele limpa e livre de umidade, se possível fazer banho
de aspersão, usar sempre emolientes, hidratantes e loções de limpeza. É indicada
também a restrição tóraco - peitoral, quando o doente faz uso de cadeira. É
interessante lembrar que não existem cadeiras específicas para doentes de
Huntington, devemos então usar da criatividade para proporcionar o máximo de
conforto a eles.
Quando pensamos em alimentação, devemos atentar para a movimentação
constante, déficit de mastigação e deglutição que podem resultar em aspiração e
asfixia. No estágio inicial da DH há um comprometimento pequeno da coordenação
motora, devendo-se, então, assistir parcialmente à dieta e estimular o paciente a se
alimentar sem pressa. Com o declínio do sistema motor será necessário assistir a
dieta de forma integral, observando a possibilidade de se instalar uma sonda para
alimentação diante de um quadro terminal. É importante lembrar que a dieta deve ser
cada vez mais nutritiva, calórica e pastosa para suprir o contínuo emagrecimento,
que é um sinal significativo do avanço da doença e não deixar que o paciente entre
num quadro de desnutrição. É importante também que a dieta tenha componentes
laxativos para combater aos efeitos colaterais dos benzodiazepínicos.
A dieta deve ser fracionada deve haver a manutenção constante do aporte
nutricional, pois alguns medicamentos têm como efeito colateral a eliminação gradual
de sódio e outros sais causando hipotensão. Não devemos esquecer jamais dos
cuidados com a higiene oral desse paciente.
De acordo com Brunner e Suddarth (2005), o declínio das funções
cognitivas e comportamentais deve ser trabalhado através de apoio psicológico.
Tal apoio consiste não apenas em contar com ajuda profissional especializada,
mesmo porquê é difícil encontrar esse profissional, mas em respeitar o paciente
como um indivíduo com direitos iguais aos de todos, mas com necessidades
especiais.
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O diagnóstico não é de fácil, pois há uma linha muito tênue entre o declínio
cognitivo, a atrofia cerebral e a falta de comunicação.
Há alternativas como o contato visual, o toque, a leitura, conversar com o
paciente mesmo que ele não seja capaz de responder. É importante o auxílio de
terapias alternativas, que resgatem a identidade do doente, como a musicoterapia,
por exemplo. O paciente, apesar do declínio cognitivo e de não ser capaz de fazer
contato às vezes, está consciente e com as capacidades visual e auditiva
preservadas, sendo importante mostrar para ele que, mesmo doente, inapto a tomar
decisões e isento de responsabilidades, ele é parte de uma família que o apóia, o
respeita e que o ama.
4.6.3 Assistência à família
“Cuidar é mais que um ato; é uma atitude que abrange mais que um momento
de atenção, zelo e desvelo. Representa uma atitude de ocupação, responsabilidade
e envolvimento afetivo com o outro (BOFF, 2001)”.
A família é uma das peças chave para o cuidado de doentes com Huntington,
mas, para que se encaixe neste complexo quebra-cabeças, essa peça precisa ser
trabalhada, ou mais que isso: cuidada.
O diagnóstico definitivo de uma doença degenerativa leva a uma situação de
crise trazendo mudanças para todas as pessoas diretamente ligadas ao doente e
isso provoca sofrimento (BRASIL, 2004).
Mas mesmo em face dessa crise, a vida segue seu curso e a família tem que
se reorganizar diante dessa nova perspectiva de vida. Tal situação possivelmente
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acarretará brigas, discussões e desentendimentos devido a alterações no papel de
cada um dentro do núcleo familiar.
Quando se cuida de alguém, inúmeros sentimentos difíceis de lidar são
cultivados – raiva, medo, culpa, tristeza, irritação e outros – e isso é absolutamente
normal (BRASIL, 2004).
Em contra partida, existem também sentimentos como esperança, fé, amor,
carinho e solidariedade servindo de estímulo para que o cuidado seja levado a
diante.
Um detalhe importante é que esses sentimentos se misturam com uma
facilidade incrível, sendo que a mesma pessoa que amamos pode despertar raiva
fazendo birra para comer, por exemplo.
Apesar de ser normal a dualidade de sentimentos, muitas vezes ela pode
atrapalhar o cuidar e é necessário buscar ajuda tão logo esse fato seja percebido.
Além disso, devemos nessas horas, e, na verdade sempre, fazer uso da paciência,
instrumento indispensável para que não desistamos dos nossos objetivos maiores
que são o bem estar do doente e, principalmente, a boa convivência com ele
(BRASIL, 2004).
Outro ponto importante é o tempo livre do cuidador. Esse tempo é necessário
para que não haja sobrecarga de funções sobre uma única pessoa e conseqüente
estresse.
Uma alternativa interessante são os grupos de cuidadores para promover a
troca de experiências sobre o cuidar, funcionando como uma rede de apoio, uma vez
que todos os participantes discutem os problemas – e algumas soluções – comuns a
todos, relacionados a pessoas com doenças crônicas degenerativas de cuidados
permanentes. Tal troca de experiências produz grande alívio, pois os participantes
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percebem que não estão sozinhos, que muita gente passa pelas mesmas situações
(BRASIL, 2004).
Um outro contexto que devemos levar em consideração é a situação de morte
iminente desse doente. Esse acontecimento pode representar um alívio para quem
cuida, no entanto a culpa também aparece e, apesar de normal, é difícil aceitar e
lidar com tais sentimentos.
A raiva pode aparecer quando nos damos conta de que não podemos mudar o
curso das coisas ou prolongar a vida. Deve-se lembrar que foi feito tudo o que se
poderia fazer e da melhor maneira possível para que essa última fase da vida do
doente fosse o mais confortável possível e para que ele se sentisse amado e querido
pela família.
Devemos também reconhecer nossos limites diante da situação e compartilhar
o que sentimos com outras pessoas, não esconder ou guardar, pois isso é natural e
necessário diante da perda. As formas de extravasar angústias, procurar alívio, são
muito particulares e precisam ser respeitadas. Esses momentos podem proporcionar
uma profunda reflexão sobre sua vida e ajudar a reorganizá-la (BRASIL, 2004).
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5. Doença de Huntington – uma experiência pessoal
Há cerca de 15 anos minha tia fez uso de um medicamento para redução de
peso cujo nome e origem ainda são desconhecidas.
Depois do uso do fármaco, começou a apresentar um quadro de agitação
intensa, ansiedade, redução da capacidade cognitiva e distúrbios de comportamento.
Tinha desequilíbrios freqüentes, sofrendo quedas da própria altura e
conseqüentes cortes e escoriações na pele. Seu andar lembrava o de um etilista e,
muitas vezes, perguntavam se ela havia bebido.
Meses depois já não era possível que ela saísse desacompanhada de casa e
houve mudanças nos movimentos corporais: as mãos adotaram um posicionamento
cerrado, como se estivesse segurando alguma coisa; havia também movimentos
desordenados e involuntários de membros superiores e inferiores.
Paralelo a isso, distúrbios de comportamento foram se agravando, as brigas
eram freqüentes e houve tentativa de suicídio.
Apesar de várias idas e vindas a psicólogos e psiquiatras, o quadro se
agravava cada vez mais e a possibilidade de uma internação permanente foi
cogitada.
Após muito tempo nessa situação conflitante e, quase esgotadas as
possibilidades de diagnóstico, entramos em contato com um neurologista que
diagnosticou a Coréia de Huntington.
Quando soubemos do diagnóstico não sabíamos o quanto isso mudaria as
vidas de todos na nossa família. Mas o choque mesmo veio quando soubemos que o
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medicamento desconhecido para redução de peso acelerou o processo da doença,
processo este que normalmente se desenvolveria pelo menos nos próximos 10 anos.
A aceitação dessa nova perspectiva de vida e a adaptação a ela não foram
fáceis. Durante anos a rotina da família sofreu drásticas alterações.
Minha tia tinha alucinações e acordava aos gritos assim permanecendo
durante a madrugada toda inteira. Tal episódio que era esporádico passou a ser
freqüente e depois de um certo tempo, diário.
Às vezes quando os gritos não aconteciam, as crises de bruxismo também
tiravam o sono de todos até que um dia, por indicação médica, foi feita a retirada
cirúrgica dos dentes que restavam, pois a maioria deles pereceu em conseqüência
das freqüentes quedas em função do desequilíbrio.
A dieta, que antes geral, passou a ser cada vez mais hipercalórica para
prevenir um quadro de desnutrição severa, e pastosa, pois a mastigação e a
deglutição já estavam prejudicadas.
A autonomia, aos poucos, foi perdida.
Os banhos, antes assistidos minimamente, passaram a ser assistidos
integralmente, assim como a dieta, as trocas de roupa e as idas ao banheiro, que
foram substituídas por fraldas.
Hoje, aos 48 anos, ela é totalmente dependente de nós familiares para tudo; o
déficit no autocuidado é total. Ela está extremamente magra em relação ao que era,
não fala, não anda, não tem mais os dentes, mas está consciente, lúcida.
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A partir do momento em que entendemos os caminhos que essa doença ia
trilhar, quantas marcas ela ia deixar e principalmente nossa responsabilidade sobre
tudo isso, uma mudança na nossa postura precisou ser adotada.
As brigas foram substituídas pela compreensão, resgate da auto-estima, amor;
nós procuramos trabalhar a reinclusão de minha tia na família.
As alterações na vida familiar me fizeram ver o quanto a união e o amor são
importantes e complementares ao ato de cuidar, além das intervenções específicas
da doença.
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6. Conclusão
A partir do referencial teórico levantado e observação da dinâmica familiar
conclui-se que o grande desafio da enfermagem é prestar cuidados que ofereçam
uma melhor qualidade de vida para este doente, fazendo as intervenções
necessárias mediante os problemas levantados e, principalmente, aplicando a essas
intervenções a visão holística e a humanização, trabalhando lado a lado com a
família, o que se faz essencial.
O referencial teórico sobre o assunto é limitado, principalmente no que se
refere à assistência de enfermagem, interferindo parcialmente no resultado final
dessa pesquisa.
Conviver com o doente de Huntington é uma experiência muito curiosa e
enriquecedora, que colabora de forma muito positiva para o desenvolvimento do
raciocínio clínico. A observação do desenvolvimento da patologia facilita a listagem
dos problemas e conseqüente elaboração do plano de cuidados.
Recomenda-se maior exploração do tema, a partir de elaboração de mais
pesquisas e trabalhos, para que o enfermeiro, caso venha a cuidar do portador da
Doença de Huntington, possa elaborar uma assistência mais específica e que traga
dignidade a este ser humano e família que sofrem com a insidiosa e incapacitante
evolução da doença.
33
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Documentos Online
UPADH - União dos Parentes e Amigos dos Doentes de Huntington
www.upadh.org.br
ABH –Associação Brasil Huntington
www.abh.org.br
http://www.abh.org.br/TCC.pdf

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Percepção


Percepção

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.a

A percepção de cores: um dos aspectos da percepção visual.
A percepção de cores: um dos aspectos da percepção visual.

Em psicologia, neurociência e ciências cognitivas, percepção é a função cerebral que atribui significado a estímulos sensoriais, a partir de histórico de vivências passadas. Através da percepção um indivíduo organiza e interpreta as suas impressões sensoriais para atribuir significado ao seu meio. Consiste na aquisição, interpretação, seleção e organização das informações obtidas pelos sentidos. A percepção pode ser estudada do ponto de vista estritamente biológico ou fisiológico, envolvendo estímulos elétricos evocados pelos estímulos nos órgãos dos sentidos. Do ponto de vista psicológico ou cognitivo, a percepção envolve também os processos mentais, a memória e outros aspectos que podem influenciar na interpretação dos dados percebidos.

O estudo da percepção A percepção é um dos campos mais antigos da pesquisa psicológica e existem muitas teorias quantitativas e qualitativas sobre os processos fisiológicos e cognitivos envolvidos. Os primeiros a estudar com profundidade a percepção foram Hermann von Helmholtz, Gustav Theodor Fechner e Ernst Heinrich Weber, A Lei de Weber-Fechner é uma das mais antigas relações quantitativas da psicologia experimental e quantifica a relação entre a magnitude do estímulo físico (mensurável por instrumentos) e o seu efeito percebido (relatado). Mais adiante Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental em Leipzig em 1875.

Na filosofia, a percepção e seu efeito no conhecimento e aquisição de informações do mundo é objeto de estudo da filosofia do conhecimento ou epistemologia. Em geral a percepção visual foi base para diversas teorias científicas ou filosóficas. Newton e Goethe estudaram a percepção de cores e algumas escolas, como a Gestalt, surgida no Século XIX e escolas mais recentes, como a fenomenologia e o existencialismo baseiam toda a sua teoria na percepção do mundo.



Percepção e realidade

Imagem ambígua. O animal da figura pode ser um coelho ou um pato. Um exemplo de "percepção mutável"
Imagem ambígua. O animal da figura pode ser um coelho ou um pato. Um exemplo de "percepção mutável"

Na psicologia, o estudo da percepção é de extrema importância porque o comportamento das pessoas é baseado na interpretação que fazem da realidade e não na realidade em si. Por este motivo, a percepção do mundo é diferente para cada um de nós, cada pessoa percebe um objeto ou uma situação de acordo com os aspectos que têm especial importância para si própria.

Muitos psicólogos cognitivos e filósofos de diversas escolas, sustentam a tese de que, ao transitar pelo mundo, as pessoas criam um modelo mental de como o mundo funciona (paradigma. Ou seja, elas sentem o mundo real, mas o mapa sensorial que isso provoca na mente é provisório, da mesma forma que uma hipótese científica é provisória até ser comprovada ou refutada ou novas informações serem acrescentadas ao modelo (v. Método científico).

À medida que adquirimos novas informações, nossa percepção se altera. Diversos experimentos com percepção visual demonstram que é possível notar a mudança na percepção ao adquirir novas informações. As ilusões de óptica e alguns jogos, como o dos sete erros se baseiam nesse fato. Algumas imagens ambíguas são exemplares ao permitir ver objetos diferentes de acordo com a interpretação que se faz. Em uma "imagem mútável", não é o estímulo visual que muda, mas apenas a interpretação que se faz desse estímulo.

Assim como um objeto pode dar margem a múltiplas percepções, também pode ocorrer de um objeto não gerar percepção nenhuma: Se o objeto percebido não tem embasamento na realidade de uma pessoa, ela pode, literalmente, não percebê-lo. Os primeiros relatos dos colonizadores da América relataram que os índios da América Central não viram a frota naval dos colonizadores que se aproximavam em sua primeira chegada. Como os navios não faziam parte da realidade desses povos, eles simplesmente não eram capazes de percebê-los no horizonte e eles se misturavam à paisagem sem que isso fosse interpretado como uma informação a considerar. Somente quando as frotas estavam mais próximas é que passaram a ser visíveis. Qualquer pessoa nos dias atuais, de pé em uma praia espera encontrar barcos no mar. Eles se tornam, portanto, imediatamente visíveis, mesmo que sejam apenas pontos no horizonte.

Passa-se a considerar cada vez mais a importância da pessoa que percebe, durante o ato da percepção. A presença e a condição do observador modificam o fenômeno.

As percepções são normais se realmente correspondem àquilo que o observando vê, ouve e sente. Contudo, podem ser deficientes, se houver ilusões dos sentidos ou mesmo alucinações. Esta ambiguidade da percepção é explorada em tecnologias humanas como a camuflagem, mas também no mimetismo apresentado em diversas espécies animais e vegetais, como algumas borboletas que apresentam desenhos que se assemelham a olhos de pássaros, que assustam os predadores potenciais. Algumas flores também possuem seus órgão sexuais em formatos atraentes para os insetos polinizadores.

Teorias cognitivas da percepção assumem que há uma pobreza de estímulos. Isto significa (em referência à percepção) que as sensações, sozinhas, não são capazes de prover uma descrição única do mundo. As sensações necessitam de enriquecimento, que é papel do modelo mental. Um tipo diferente de teoria é a ecologia perceptual, abordagem de James J. Gibson. Gibson rejeita a tese da pobreza de estímulos ao mesmo tempo que rejeita que a percepção seja o resultado das sensações. Ao invés disso, ele investigou quais informações são efetivamente apresentadas aos sistemas perceptivos. Ele e outros psicólogos que trabalham com esse paradigma explicam como o mundo pode ser explicado como um organismo móvel através de leis de projeção da informação sobre o mundo em matrizes de energia. A especificação é um mapeamento 1:1 de alguns aspectos do mundo em uma matriz de percepção; dado um mapa deste tipo, nenhum enriquecimento é necessário e a percepção é direta.

Fatores que influenciam a percepção

Os olhos são os órgãos responsáveis pela visão, um dos sentidos que fazem parte da percepção do mundo.
Os olhos são os órgãos responsáveis pela visão, um dos sentidos que fazem parte da percepção do mundo.

O processo de percepção tem início com a atenção que não é mais do que um processo de observação seletiva, ou seja, das observações por nós efetuadas. Este processo faz com que nós percebamos alguns elementos em desfavor de outros. Deste modo, são vários os fatores que influenciam a atenção e que se encontram agrupados em duas categorias: a dos fatores externos (próprios do meio ambiente) e a dos fatores internos (próprios do nosso organismo).

Fatores externos

Os fatores externos mais importantes da atenção são a intensidade (pois a nossa atenção é particularmente despertada por estímulos que se apresentam com grande intensidade e, é por isso, que as sirenes das ambulâncias possuem um som insistente e alto); o contraste (a atenção será muito mais despertada quanto mais contraste existir entre os estímulos, tal como acontece com os sinais de trânsito pintados em cores vivas e contrastantes); o movimento que constitui um elemento principal no despertar da atenção (por exemplo, as crianças e os gatos reagem mais facilmente a brinquedos que se movem do que estando parados); e a incongruência, ou seja, prestamos muito mais atenção às coisas absurdas e bizarras do que ao que é normal (por exemplo, na praia num dia verão prestamos mais atenção a uma pessoa que apanhe sol usando um cachecol do que a uma pessoa usando um traje de banho normal).

Fatores internos

Os fatores internos que mais influenciam a atenção são a motivação (prestamos muito mais atenção a tudo que nos motiva e nos dá prazer do que às coisas que não nos interessam); a experiência anterior ou, por outras palavras, a força do hábito faz com que prestemos mais atenção ao que já conhecemos e entendemos; e o fenómeno social que explica que a nossa natureza social faz com que pessoas de contextos sociais diferentes não prestem igual atenção aos mesmos objetos (por exemplo, os livros e os filmes a que se dá mais importância em Portugal não despertam a mesma atenção no Japão).

princípios da percepção

Princípio da figura e fundo. Percebemos um vaso ou duas faces se entreolhando, dependendo da escolha do que é figura (o tema da imagem) e o que é fundo.
Princípio da figura e fundo. Percebemos um vaso ou duas faces se entreolhando, dependendo da escolha do que é figura (o tema da imagem) e o que é fundo.

Na percepção das formas, as teorias da percepção reconhecem quatro princípios básicos que a influenciam:

  • a tendência à estruturação ou princípio do fechamento - tendemos a organizar elementos que se encontram próximos uns dos outros ou que sejam semelhantes;
  • segregação figura-fundo - explica que percebemos mais facilmente as figuras bem definidas e salientes que se inscrevem em fundos indefinidos e mal contornados (por exemplo, um cálice branco pintado num fundo preto);
  • pregnância das formas ou boa forma - qualidade que determina a facilidade com que percebemos figuras bem formadas. Percebemos mais facilmente as formas simples, regulares, simétricas e equilibradas;
  • constância perceptiva - se traduz na estabilidade da percepção (os seres humanos possuem uma resistência acentuada à mudança).

Outros fatores

Em relação à percepção da profundidade, sabe-se que esta advém da interacção de factores orgânicos (características do nosso corpo) com factores ambientais (características do meio ambiente). São exemplos dos factores orgânicos: a acomodação do cristalino que é uma espécie de lente natural de que dispomos para focar convenientemente os objectos; e a convergência das linhas de visão (a posição das linhas altera-se sempre que olhamos para objectos situados a diferentes distâncias).

Para exemplificar os factores ambientais temos o princípio do contraste luz-sombra (as partes salientes dos objectos são mais claras que as restantes, em função da iluminação recebida) e a grandeza relativa (a profundidade pode ser representada variando o tamanho e a distância dos objectos pintados. Os objectos mais distantes parecem-nos mais pequenos do que aqueles que estão mais próximos).

Tipos de Percepção

O estudo da percepção distingue alguns tipos principais de percepção. Nos seres humanos, as formas mais desenvolvidas são a percepção visual e auditiva, pois durante muito tempo foram fundamentais à sobrevivência da espécie (A visão e a audição eram os sentidos mais utilizados na caça e na proteção contra predadores). Também é por essa razão que as artes plásticas e a música foram as primeiras formas de arte a serem desenvolvidas por todas as civilizações, antes mesmo da invenção da escrita. As demais formas de percepção, como a olfativa, gustativa e tátil, embora não associadas às necessidades básicas, têm importante papel na afetividade e na reprodução.

Além da percepção ligada aos cinco sentidos, os humanos também possuem capacidade de percepção temporal e espacial.

Percepção visual

Ver artigo principal: Percepção visual
O triângulo de Kaniza demonstra o princípio do fechamento. Tendemos a ver um triângulo branco sobreposto à figura, como uma figura completa e fechada, embora ele só seja sugerido por falhas nas demais formas que compõem a figura.
O triângulo de Kaniza demonstra o princípio do fechamento. Tendemos a ver um triângulo branco sobreposto à figura, como uma figura completa e fechada, embora ele só seja sugerido por falhas nas demais formas que compõem a figura.

A visão é a percepção de raios luminosos pelo sistema visual. Esta é a forma de percepção mais estudada pela psicologia da percepção. A maioria dos princípios gerais da percepção foram desenvolvidos a partir de teorias especificamente elaboradas para a percepção visual. Todos os princípios da percepção citados acima, embora possam ser extrapolados a outras formas de percepção, fazem muito mais sentido em relação à percepção visual. Por exemplo, o princípio do fechamento (ver figura ao lado) é melhor compreendido em relação a imagens do que a outras formas de percepção.

A percepção visual compreende, entre outras coisas:

  • Percepção de formas;
  • Percepção de relações espaciais, como profundidade. Relacionado à percepção espacial;
  • Percepção de cores;
  • Percepção de intensidade luminosa.

Percepção auditiva

Ver artigo principal: Percepção auditiva

A audição é a percepção de sons pelos ouvidos. A psicologia, a acústica e a psicoacústica estudam a forma como percebemos os fenômenos sonoros. Uma aplicação particularmente importante da percepção auditiva é a música. Os princípios gerais da percepção estão presentes na música. Em geral, ela possui estruturação, boa-forma, figura e fundo (representada pela melodia e acompanhamento) e os gêneros e formas musicais permitem estabelecer uma constância perceptiva.

Entre os fatores considerados no estudo da percepção auditiva estão:

  • Percepção de timbres;
  • Percepção de alturas ou freqüências;
  • Percepção de intensidade sonora ou volume;
  • Percepção rítmica, que na verdade é uma forma de percepção temporal;
  • Localização auditiva, um aspecto da percepção espacial, que permite distinguir o local de origem de um som.

Percepção olfactiva

perfumes
perfumes

O olfacto é a percepção de odores pelo nariz. Este sentido é relativamente tênue nos humanos, mas é importante para a alimentação. A memória olfactiva também tem uma grande importância afetiva. A perfumaria e a enologia são aplicações dos conhecimentos de percepção olfactiva. Entre outros fatores a percepção olfactiva engloba:

  • Discriminação de odores, que estuda o que diferencia um odor de outros e o efeito de sua combinação;
  • O alcance olfactivo.

Em alguns animais, como os cães, a percepção olfactiva é muito mais desenvolvida e tem uma capacidade de discriminação e alcance muito maior que nos humanos.

Percepção gustativa

O paladar é o sentido de sabores pela língua. Importante para a alimentação. Embora seja um dos sentidos menos desenvolvidos nos humanos, o paladar é geralmente associado ao prazer e a sociedade contemporânea muitas vezes valoriza o paladar sobre os aspectos nutritivos dos alimentos. A arte culinária e a enologia são aplicações importantes da percepção gustativa. O principal fator desta modalidade de percepção é a discriminação de sabores.

Percepção tátil

Uma placa de sinalização em Braille
Uma placa de sinalização em Braille

O tato é sentido pela pele em todo o corpo. Permite reconhecer a presença, forma e tamanho de objetos em contato com o corpo e também sua temperatura. Além disso o tato é importante para o posicionamento do corpo e a proteção física.

O tato não é distribuído uniformemente pelo corpo. Os dedos da mão possuem uma discriminação muito maior que as demais partes, enquanto algumas partes são mais sensíveis ao calor. O tato tem papel importante na afetividade e no sexo. Entre os fatores presentes na percepção tátil estão:

  • Discriminação tátil, ou a capacidade de distinguir objetos de pequenos tamanhos. (Importante, por exemplo, para a leitura em Braille);
  • Percepção de calor;
  • A percepção da dor.

Percepção temporal

Não existem órgãos específicos para a percepção do tempo, no entanto é certo que as pessoas são capazes de sentir a passagem do tempo. A percepção temporal esbarra no próprio conceito da natureza do tempo, assunto controverso e tema de estudos filosóficos, cognitivos e físicos, bem como o conhecimento do funcionamento do cérebro (neurociência).

A percepção temporal já foi objeto de diversos estudos desde o século XIX até os dias de hoje, quando é estudado por técnicas de imagem como a ressonância magnética. Os experimentos destinam-se a distinguir diferentes tipos de fenômenos relevantes à percepção temporal:

  • a percepção das durações;
  • a percepção e a produção de ritmos;
  • a percepção da ordem temporal e da simultaneidade.

Resta saber se estes diferentes domínios da percepção temporal procedem dos mesmos mecanismos ou não e também algumas novas considerações que decorrem da escala de tempo utilizada. Segundo o psicólogo francês Paul Fraisse, é preciso distinguir a percepção temporal (para durações relativamente curtas, até alguns segundos) e a estimativa temporal que é designada como a apreensão de longas durações (desde alguns segundos até algumas horas). Estes fatores envolvem ainda os ciclos biológicos, como o ritmo circadiano.

Percepção espacial

Assim como as durações, não possuímos um órgão específico para a percepção espacial, mas as distâncias entre os objetos podem ser efetivamente estimadas. Isso envolve a percepção da distância e do tamanho relativo dos objetos. A razão para separar a percepção espacial das outras modalidades repousa no fato de que aparentemente a percepção espacial é supra-modal, ou seja, é compartilhada pelas demais modalidades e utiliza elementos da percepção auditiva, visual e temporal. Assim, é possível distinguir se um som procede especificamente de um objeto visto e se esse objeto (ou o som) está aproximando-se ou afastando-se. O lobo parietal do cérebro representa um papel importante neste tipo de percepção.

Propriocepção

Ver artigo principal: Propriocepção

Propriocepção é a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais, sem utilizar a visão. Este tipo específico de percepção permite a manutenção do equilíbrio e a realização de diversas atividades práticas. Resulta da interação das fibras musculares que trabalham para manter o corpo na sua base de sustentação, de informações táteis e do sistema vestibular, localizado no ouvido interno e responsável pelo equilíbrio.

O conjunto das informações dadas por esses receptores permitem, por exemplo, desviar a cabeça de um galho, mesmo que que não se saiba precisamente a distância segura para se passar, ou mesmo o simples fato de poder tocar os dedos do pé e o calcanhar com os olhos vendados, além de permitir atividades importantes como andar, coordenar os movimentos responsáveis pela fala, segurar e manipular objetos, manter-se em pé ou posicionar-se para realizar alguma atividade.

Intensidade da percepção

Lei de Weber-Fechner

Pierre Bouguer (1760) e depois Ernst Heinrich Weber (1831) estudaram a menor variação perceptível para determinados estímulos. Para isso apresentaram estímulos variáveis a diversos indivíduos para determinar o funcionamento quantitativo de diversos tipos de percepção. A lei de Bouguer-Weber estipulava que o limiar sensorial (a menor diferença perceptível entre dois valores de um estímulo) aumenta linearmente com o valor do estímulo de referência. O médico Gustav Fechner (inventor do termo psicofísica) modificou essa lei, para que ela se tornasse válida aos valores extremos do estímulo: "a sensação varia como o logaritmo da excitação". Esta lei pode ser aplicada a diversas formas de percepção. Não se sabe ao certo a causa neurológica dessa lei, mas ela pode ser percebida em diversos fenômenos da percepção. Por exemplo, na percepção de alturas, as pessoas percebem intervalos iguais, quando suas freqüências variam exponencialmente. Por exemplo, a relação entre as freqüências de 220 Hz e 440 Hz é percebida como um intervalo de uma oitava. A relação entre 440 Hz e 880 Hz é percebida como um intervalo igual de uma oitava, mesmo que a distância real entre as freqüências não seja igual. Relações semelhantes se aplicam à percepção de intensidade sonora, intensidade luminosa, cores e diversos outros aspectos da percepção.

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Gerenciar conflitos em sala de aula melhora aprendizagem


Gerenciar conflitos em sala de aula melhora aprendizagem

Fonte: Agência USP de Notícias

Uma proposta para melhorar a convivência e reduzir conflitos em sala de aula, colocada em prática na 1ª série do ensino fundamental de uma escola municipal em Ribeirão Preto (interior de São Paulo), aumentou a capacidade das crianças em enfrentar o estresse. A metodologia, aplicada pela pedagoga Dâmaris Simon Camelo Borges, também ampliou a percepção de que os colegas se tornaram mais solidários, o que colaborou com o processo de ensino e aprendizagem.

Participaram da pesquisa 116 crianças, divididas em quatro grupos, dois no mestrado e dois no doutorado da pedagoga, defendido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. No estudo, foi feita a sondagem de habilidades de solução de problemas interpessoais, registro de conflitos em um diário de campo, observação do comportamento em sala de aula, um inventário de fontes de estresse escolar e um indicador de desempenho pró-social.

No mestrado, defendido em outra instituição, Dâmaris aplicou um programa de intervenção denominado EPRP (Eu Posso Resolver Problemas), desenvolvido pela pesquisadora norte-americana Myrna Shure. O EPRP oferece abordagem prática, por meio de jogos, brincadeiras e histórias para ajudar as crianças a refletirem sobre problemas interpessoais e lidar com eles. "Na aplicação do EPRP durante o conflito, não interessa o que aconteceu, mas como as crianças percebem o que de fato aconteceu", explica a pedagoga.

"Ao final do ano, as crianças apresentaram um comportamento habilidoso, mas essa mudança não foi para a sala como um todo e não se manteve após a interrupção das férias de julho". No doutorado, Dâmaris acrescentou dois componentes na proposta de intervenção - um módulo de iniciação aos valores humanos e outro de autocontrole.

As crianças que utilizaram multicomponentes ampliaram suas habilidades de solução de problemas interpessoais, diminuíram a participação em conflitos, reduziram comportamentos incompatíveis com as atividades escolares e melhoraram o desempenho pró-social. "Também aumentou o raciocínio anti-social, mas mesmo pensando em levar vantagem, no bater e no tomar, o comportamento melhorou, pois pensam em todas as possibilidades", completa a pesquisadora.

Soluções
A pesquisa deixou claro que as soluções para os conflitos em salas de aula não são simples, mas existem, e cada um tem sua parcela de responsabilidade nesse processo, inclusive as crianças. "Para que elas consigam desenvolver habilidades sociais, ou seja, comportamentos que favoreçam o relacionamento, é necessário uma intervenção que trabalhe também valores humanos e autocontrole desde muito cedo, uma vez que a formação do senso moral acontece dos 4 aos 9 anos de idade", diz a pedagoga.

Para trabalhar valores humanos a pesquisadora recorreu à literatura. Foram mais de 30 obras, entre elas, Romeu e Julieta, onde foram discutidos preconceito - aceitação das diferenças - e cooperação. Na questão do autocontrole, além de incentivar o relaxamento após o intervalo, quando as crianças voltam para a sala de aula mais eufóricas, a pesquisadora trabalhou também com literatura.

"O objetivo das aulas práticas é fazer com que a criança desenvolva sua própria habilidade, assim ela pensa e reflete nas possíveis conseqüências de seus atos e consegue lidar melhor com seus impulsos", conta Dâmaris. "Chegamos ao final do ano com menos conflitos, eles aumentaram a gama de possibilidades para resolvê-los, e ainda ficaram mais centrados nas atividades em sala de aula".

Outro aspecto avaliado pela pesquisadora foi o comportamento das crianças em relação à busca por ajuda. "É comum elas pedirem ajuda para aqueles que, na percepção delas, sabem mais e não para aqueles que são mais solidários", explica. "Avaliei esse aspecto em duas situações, no pátio e durante as tarefas. No final do ano, todas haviam ampliado a gama de amigos para ajudá-las".

(Fontes: Rosemeire Talamone e Renan Gouvêa, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura do Campus de Ribeirão Preto)


9/4/2008


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Lição do Bambu Chinês

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