segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A Origem do Sectarismo Por Sua Divina Graça Srila Bhaktivinoda Thakura.


Sectarismo

.




A Origem do Sectarismo

Por Sua Divina Graça Srila Bhaktivinoda Thakur

O sectarismo é um subproduto natural da Verdade Absoluta. Quando inicialmente os Acharyas determinam e instruem a Verdade, ela não está poluída com o sectarismo. Mas as regras e regulações recebidas através da sucessão discipular, no que diz respeito à meta e ao método de alcançá-la, podem mudar no decorrer do tempo de acordo com a mentalidade e localização das pessoas.

"Portanto, devido às diferentes características das entidades vivas dentro do Universo, existe uma grande variedade de rituais védicos, mantras e recompensas. Devido à grande variedade de desejos e naturezas dos seres humanos, existem inúmeras filosofias de vida teístas, que são mantidas pela tradição, costumes e sucessão discipular. Existem outros mestres que mantêm diretamente pontos de vista ateístas." (SB. 11.14.7-8)

Uma regra seguida por uma sociedade não é necessariamente aceita em outra comunidade. É por isso que uma comunidade é diferente da outra. Assim que uma comunidade gradativamente vai desenvolvendo os seus padrões, ela vai desenvolvendo aversão pelas outras comunidades e considera os padrões dos outros inferiores. Estes sintomas sectários são vistos em todos os países desde tempos imemoriais.

Isso é muito evidente nos neófitos e também ocorre em certa medida entre os madhyama-adhikaris (praticantes no estágio intermediário). No entanto, nos uttama-adhikaris (praticantes no estágio mais elevado) não há indício de sectarismo. A adesão a determinados padrões é o sintoma proeminente de uma sociedade.

Existem três tipos de padrões -alochakagata, alochanagata e alochachyagata. Alochakagata é quando os sectários adotam alguns sinais exteriores. Os exemplos de alochakagata são a tilaka, os colares, vestes açafroadas e o batismo que é amplamente praticado. As diferentes atividades praticadas no processo de adoração são chamadas alochanagata. Exemplos de alochanagata são os sacrifícios, as austeridades, as cerimônias de fogo, os votos, o estudo das escrituras, a adoração de deidades, a construção de templos, respeitar a pureza de diversas árvores e rios, vestir-se como sannyasis, agir como acharyas, vestir-se como brahmacharis ou grihasthas, fechar os olhos, respeitar determinados tipos de livros, regras e regulações para comer e respeitar a pureza de determinadas ocasiões e locais.

Os exemplos de alochachyagata são a atribuição de personalismo e impersonalismo ao Senhor Supremo, instalar deidades, exibir o humor de uma determinada encarnação do Senhor, especular sobre céu e inferno e descrever o destino futuro da alma. As diferentes formas destas atividades espirituais criam divisões de sectarismo. As diferenças que surgem de locais, épocas, línguas, comportamento, alimentos, vestimentas e naturezas das diversas comunidades estão incorporados nas práticas espirituais das pessoas e vão fazendo com que gradualmente uma comunidade se torne completamente diferente da outra. Esta diferença é tão acentuada que até mesmo a consideração de que todos são seres humanos pode deixar de existir. Devido a estas diferenças, há desacordo, deixam de haver relacionamentos sociais e acabam ocorrendo as lutas, que chegam ao ponto da matança mútua.

Quando uma mentalidade asinina (semelhante à dos asnos) predomina entre os kanistha-adhikaris (praticantes no estágio primário), eles fatalmente acabam assumindo este tipo de conduta. Mas se eles desenvolvem uma mentalidade semelhante à dos cisnes, então eles não tomam parte de disputas; ou seja, eles assumem um comportamento mais elevado. Os madhyama-adhikaris não discutem tanto sobre os padrões exteriores, mas vivem apegados aos desacordos filosóficos. Às vezes, eles condenam os padrões dos neófitos e estabelecem os seus próprios padrões como sendo superiores. Eles condenam a adoração à deidade dos neófitos para estabelecerem a adoração do Senhor sem atributos ou forma.


मन्मायामोहितधिय: पुरुषा: पुरुषर्षभ ।
श्रेयो वदन्त्यनेकान्तं यथाकर्म यथारुचि ॥ ९ ॥
man-māyā-mohita-dhiyaḥ
puruṣāḥ puruṣarṣabha
śreyo vadanty anekāntaṁ
yathā-karma yathā-ruci
"Ó melhor entre os homens, a inteligência dos seres humanos está confundida pela Minha potência ilusória, e desta maneira, de acordo com as suas atividades e desejos, eles falam de inúmeras maneiras sobre o que é realmente bom para as pessoas." (SB. 11.14.9)

Nestes casos, eles também são considerados como possuidores de mentalidade asinina. Por outro lado, se apresentarem uma mentalidade semelhante à dos cisnes e o desejo de alcançarem um nível mais elevado, eles devem respeitar as práticas dos outros e inquirir sobre temas mais elevados. Na verdade, as contradições só ocorrem devido à mentalidade semelhante asinina. As pessoas de mentalidade semelhante à dos cisnes consideram a necessidade de diferentes práticas de acordo com a qualificação das pessoas, e portanto estão naturalmente desapegadas das disputas sectárias.

अकिञ्चनस्य दान्तस्य शान्तस्य समचेतस: ।
मया सन्तुष्टमनस: सर्वा: सुखमया दिश: ॥ १३ ॥
akiñcanasya dāntasya
śāntasya sama-cetasaḥ
mayā santuṣṭa-manasaḥ
sarvāḥ sukha-mayā diśaḥ

"Quem não deseja nada neste mundo, quem já obteve a paz por controlar os sentidos, cuja consciência está equilibrada em todas as circunstâncias e cuja mente está completamente satisfeita em Mim, só encontra felicidade onde quer que vá." (SB. 11.14.13)

Quanto a isso, deve ficar claro que tanto as pessoas semelhantes a asnos quanto aquelas semelhantes a cisnes podem ser encontradas entre kanisthas e madhyama-adhikaris. Eu não espero que pessoas de mentalidade asinina aceitem este livro com o devido respeito. Se os neófitos e madhyama-adhikaris se tornarem complemente indiferentes em relação às contradições encontradas nas várias práticas e tentarem avançar mais, daí então eles se tornaram pessoas semelhantes a cisnes. Então serão nossos amigos queridos e respeitáveis amigos.

Apesar de que personalidades de comportamento semelhante aos cisnes podem aceitar uma prática em particular do nascimento até a infância de acordo com as instruções que receberam, elas ainda assim permanecem indiferentes e não-sectárias.
__________________________________________

Os princípios religiosos que serão explicados e estabelecidos neste livro são muito difíceis de ser classificados. Se dermos a estes princípios um determinado nome sectário, então outras seitas irão se opor a eles. Por este motivo, o Srimad-Bhagavatam estabeleceu sanatana-dharma (a religião eterna da alma) como satvata-dharma, ou os princípios religiosos relacionados com a Verdade Absoluta.

धर्म: प्रोज्झितकैतवोऽत्र परमो निर्मत्सराणां सतां
वेद्यं वास्तवमत्र वस्तु शिवदं तापत्रयोन्मूलनम् ।
श्रीमद्भागवते महामुनिकृते किं वा परैरीश्वर:
सद्यो हृद्यवरुध्यतेऽत्र कृतिभि: शुश्रूषुभिस्तत्क्षणात् ॥ २ ॥
dharmaḥ projjhita-kaitavo ’tra paramo nirmatsarāṇāṁ satāṁ
vedyaṁ vāstavam atra vastu śivadaṁ tāpa-trayonmūlanam
śrīmad-bhāgavate mahā-muni-kṛte kiṁ vā parair īśvaraḥ
sadyo hṛdy avarudhyate ’tra kṛtibhiḥ śuśrūṣubhis tat-kṣaṇāt

"Rejeitando completamente todas as atividades religiosas que são materialmente motivadas, este Bhagavata Purana propõe a verdade mais elevada, que é compreensível para os devotos que são completamente puros de coração..." (SB. 1.1.2)

Outro nome para estes princípios religiosos é Vaishnava-dharma. Os Vaishnavas de comportamento semelhante aos asnos caem na categoria dos Shaktas (seguidores de Durga), Sauras (seguidores do deus do Sol), Ganapatyas (seguidores de Ganesa), Shaivitas(seguidores de Shiva) e Vaishnavas (seguidores de Vishnu). Mas os Vaishnavas com comportamento semelhante ao dos cisnes são não-sectários e portanto raros.

Estes cinco tipos de espiritualistas são encontrados na Índia, e classificados de acordo com as suas respectivas qualificações. Os seres humanos têm dois tipos de tendências -arthica, ou material; e paramarthica, ou espiritual. As tendências materiais incluem manutenção do corpo, construção de uma casa, casamento, ter filhos, estudar, ganhar dinheiro, ciência material, trabalho nas fábricas, adquirir e manter o erário e acumular mérito piedoso.

Apesar de haver algumas semelhanças entre as atividades dos seres humanos e dos animais, os esforços materiais humanos devem ser considerados superiores às tendências naturais dos animais. Se depois de executarem as suas atividades materiais os seres humanos não se abrigarem em suas atividades constitucionais, então eles passarão a ser chamados animais de duas pernas. As atividades naturais de uma alma pura são chamadas sva-dharma, ou atividades prescritas. O sva-dharma de uma entidade viva é predominantemente manifesto em seu estado de existência pura.

No estado de existência pura, esta sva-dharma está presente em forma de atividades espirituais. Todas as tendências materiais mencionadas tornam-se bem-sucedidas quando relacionadas com as atividades espirituais. De outra maneira, isoladamente, elas não podem ajudar a alcançar a meta mais elevada.

"As atividades ocupacionais que um homem realiza de acordo com a sua própria posição nada mais são do que muito trabalho inútil se não provocam atração pela mensagem da Suprema Personalidade de Deus." (SB. 1.2.8).

O estágio que vai da dedicação a atividades materiais até o despertar das atividades espirituais é chamado de estágio preliminar da consciência de Deus. Deste estágio preliminar até o estágio de uttama-adhikari existem vários níveis.

"As cinco qualidades, tama, rajas-tama, raja, raja-sattva e sattva são geradas das cinco propensões grosseiras das pessoas. Os eruditos têm considerado estes cinco níveis de propensões e qualidades do mais baixo até o mais elevado." (Datta-kaustuba)

Indagar sobre a verdade do mundo material é chamado Shakta-dharma, porque a deidade predominante no mundo material é a semideusa Durga.

Todo comportamento e práticas em Shakta-dharma são úteis apenas no estágio preliminar. Este comportamento e estas práticas se destinam a fazer com que a pessoa se aproxime da vida espiritual, e as pessoas materialistas podem ficar atraídas por isso apenas até o momento em que começarem a indagar sobre a Suprema Verdade Absoluta. Shakta-dharma é o início do esforço que as entidades vivas fazem para iniciar a vida espiritual, e ele é extremamente necessário para as pessoas desse nível.

Quando o estágio preliminar avança um pouco mais, alcança-se o nível seguinte. Então, passa-se a considerar a energia do trabalho e a superioridade do calor sobre a matéria inerte, e portanto passa-se a aceitar o deus do Sol, que é a fonte do calor, como a deidade adorável. Neste momento, desperta o Saura-dharma. Mais tarde, quando se considera calor como matéria inerte e a consciência animal como sendo superior, alcança-se o terceiro estágio,Ganapatya-dharma. No quarto estágio grosseiro, o Senhor Shiva é adorado como a consciência pura das entidades vivas e se manifesta o Shaiva-dharma. No quinto estágio, a entidade viva adora a consciência suprema e então o Vaisnava-dharma se manifesta. Por natureza, há cinco tipos de dharmas paramarthicos, ou deveres espirituais, que são conhecidos no mundo inteiro com diferentes nomes em épocas diferentes.

Se considerarmos todos os diferentes dharmas que existem na Índia e pelo mundo, poderemos verificar que fatalmente eles caem numa destas cinco categorias. Os princípios religiosos ensinados por Maomé e por Jesus Cristo são similares aos princípios religiosos ensinados pelas seitas Vaishnavas. Budismo e jainismo são similares ao Shaiva-dharma. Esta é uma consideração científica sobre as verdades relativas aos princípios religiosos. Aqueles que consideram os seus princípios religiosos como o verdadeiro dharma e os outros princípios religiosos como irreligião ou sub-religião são incapazes de apurar a verdade por estarem sendo influenciados pelo preconceito.

"Não é apropriado que as pessoas de comportamento semelhante aos cisnes rejeitem os princípios religiosos que as pessoas em geral seguem de acordo com a situação delas."

Na verdade, todos os princípios religiosos seguidos pelas pessoas em geral são diferentes unicamente devido às diferentes qualificações dos praticantes, mas os princípios religiosos constitucionais de todas as entidades vivas são apenas um. Não é apropriado que as pessoas de comportamento semelhante aos cisnes rejeitem os princípios religiosos que as pessoas em geral seguem de acordo com a situação delas. Portanto, iremos discutir os princípios religiosos constitucionais das entidades vivas com o devido respeito aos princípios religiosos seguidos pelas pessoas em geral.
__________________________________________

O Satvata-dharma, ou Vaishnava-dharma não-sectário, é o princípio religioso constitucional ou eterno das entidades vivas.

Os princípios Vaishnavas encontrados na sampradaya Mayavada são apenas imitações indiretas destes princípios. Quando estes princípios Vaishnavas sectários se tornam transcendentais; isto é, quando se livram do impersonalismo, então eles se tornam Satvata-dharma, ou princípios religiosos relacionados à Verdade Absoluta. As diferentes sampradayas, denominadas dvaita (dualismo), dvaitadvaita (simultânea unidade e diferença), suddhadvaita(unidade purificada) e visistadvaita (monismo específico) que são encontradas em satvata-dharma não são nada além do que as maravilhosas variedades de sentimentos dentro da ciência Vaishnava.

Na verdade as várias sampradayas não são o resultado das diferenças sobre a verdade básica. O impersonalismo é diametralmente oposto à ciência de bhakti. Os Vaishnavas que aceitam o impersonalismo não são Vaishnavas puros.

fonte:
http://www.scsmathbrasil.com.br/aorigemdosectarismo.html






Leia o livro em pdf clicando no link abaixo ou na
imagem. 










Obrigado pela visita, volte sempre.

Tulasi A Amada de Krishna 1. Sociedade Internacional para Consciência de Krishna Tulasi: A Amada de Krishna Fundador-Ācārya: Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupāda




Obrigado pela visita, volte sempre.

N.O.M. deixou à muito de ser uma teoria Fantasiosa. 23/01/2022 João Andarilho.

Zé do I.M.L. fala sobre o modus operandi do tráfico.


Obrigado pela visita, volte sempre.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O “pecado oculto” de Santa Catarina de Sena Se Santa Catarina de Sena conseguiu, com a graça de Deus, parar de cometer este pecado, também nós somos capazes de combatê-lo.



Edward SriTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
28 de Outubro de 2017Tempo de leitura: 3 minutos

Jesus manda-nos imitar o coração misericordioso de Deus: “Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36). As Escrituras descrevem nosso Deus como sendo “bom e misericordioso, lento para a ira e cheio de clemência” (Sl 103, 8). Mas será que nós refletimos essa paciência e misericórdia?

Sem de forma alguma aprovar condutas pecaminosas, Jesus desafia-nos a examinar se há compaixão em nossos corações por aqueles cujas vidas não são ainda perfeitas. Será que temos em nós um desejo contínuo de demonstrar misericórdia? Ou somos, ao contrário, rápidos em criticar e em condenar?

Santa Catarina de Sena foi certa vez confrontada por Deus a respeito de um “pecado oculto” que ela tinha: o pecado de julgar as pessoas. Ela costumava pensar que tinha um dom para ler a natureza humana e notar as falhas alheias, especialmente as dos sacerdotes. Mas, um dia, Deus lhe mostrou que as intuições que ela estava a receber sobre as fraquezas dos outros não vinham de Deus, mas do diabo. Ela passou a ver aquela conduta, então, como “a armadilha do demônio”.

O diabo nos permite ver as faltas uns dos outros a fim de que, ao invés de ajudar, nós comecemos a julgar as almas alheias e condená-las. Catarina admitiu isso ao Senhor, dizendo-lhe:

Vós me destes remédio contra uma doença escondida que eu não havia reconhecido, ensinando-me que não posso jamais sair em julgamento de qualquer pessoa. Pois eu, cega e debilitada como me encontrava por essa doença, frequentemente julgava os outros sob o pretexto de estar trabalhando para vossa glória e a salvação alheia.

Se nós enfrentamos a verdade sobre nós mesmos e prestamos atenção a nossas próprias lutas diárias contra o pecado, ficamos menos propensos a sair julgando as outras pessoas. Se verdadeiramente reconhecemos o quanto necessitamos da misericórdia de Deus — se experimentamos seu perdão e seu poder de cura em nossas vidas —, então nossos corações se tornam muito mais compassivos ao se depararem com as faltas dos outros.

Se já experimentamos como Deus é paciente e brando com as nossas fraquezas, então nós seremos mais misericordiosos para com os outros.

É por isso que Santa Catarina aprendeu que, quando notamos as faltas de uma pessoa, devemos dizer a nós mesmos: “Hoje é a vez dela, amanhã será a minha, a menos que me sustente a graça divina.”

Mas, se tendemos a responder às faltas alheias com condenação, ao invés de compaixão, deve ser porque nós mesmos padecemos de um sério problema moral. Pode ser que isso aconteça porque ainda não aceitamos nossas próprias fraquezas e pecados, e ainda não experimentamos a misericórdia de Deus.

Enquanto muitos cristãos podem dizer facilmente que precisam da misericórdia divina, o verdadeiro discípulo de Jesus tem essa verdade gravada no mais profundo do seu ser: ele tem consciência do quão absolutamente dependente é da graça de Deus.

Um homem assim não está em condição alguma de ficar impaciente com as faltas alheias, pois ele conhece bem a si mesmo e sabe o quão paciente Deus tem sido com suas próprias fraquezas.

O hábito de julgar os outros, no entanto, pode ser um sinal de que não conhecemos realmente a nós mesmos ou ao Deus que nos ama. Como ensinou São Bernardo de Claraval,

Se tens olhos para as deficiências de teu próximo e não para as tuas próprias, nenhum sentimento de misericórdia surgirá dentro de ti, mas antes indignação. Estarás mais pronto a julgar do que a ajudar, mais pronto a esmagar com espírito de raiva do que a instruir com espírito de ternura.

O mesmo doutor da Igreja explica ainda como só um homem realmente humilde pode ter compaixão pelas fraquezas de seus irmãos:

A pessoa sadia não sente as dores de quem está doente, tampouco o bem alimentado a angústia de quem está faminto. São os companheiros no sofrimento que prontamente sentem compaixão pelos doentes e pelos famintos. Tu nunca terás misericórdia de verdade pelos defeitos do outro, até que descubras e percebas que tens os mesmos defeitos em tua alma.

Assim, “quanto mais conscientes estivermos de nossa miséria e de nossos pecados”, disse certa vez o Papa Francisco, “mais experimentaremos o amor e a misericórdia infinita de Deus por nós, e mais seremos capazes de olhar para os muitos ‘feridos’ que encontramos ao longo do caminho com aceitação e misericórdia”.


Obrigado pela visita, volte sempre.

A cartomante: Conto de Machado de Assis.



Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade.

— Errou! interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois.

— Qual saber!, tive muita cautela ao entrar na casa.

— Onde é a casa?

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— O senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor. Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a…

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”. Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”. Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

“Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim…”

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa… Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos… Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: “Vem, já, já…” E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar… Camilo achou-se diante de um longo véu opaco… pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia…” Que perdia ele, se…?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não…

— A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

— As cartas dizem-me…

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita… Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato…

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela… E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu…

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer causa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade… De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e continuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Muitas vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação:

— Vá, vá, ragazzo inflamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.


Este conto do Bruxo do Cosme Velho fora publicado originalmente em 1884, no periódico Gazeta de Notícias, na corte do Rio de Janeiro.

Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.



fonte: https://revistaesmeril.com.br/a-cartomante/
Assine Esmeril e tenha acesso a conteúdo de Alta Cultura. Assine!




Aqueduto da Carioca em 1875 -- artista desconhecido


Obrigado pela visita, volte sempre.

Hoje é dia do sagrado Amalaki Ekadasi dia 27/02/26 sexta-feira explicando e lendo

Obrigado pela visita, volte sempre. Se você observar que a postagem, vídeo ou slidshre está com erro entre em contato.