domingo, 25 de maio de 2008

A ESCRITA E AS OUTRAS LINGUAGENS.(Vygotsky).



A ESCRITA E AS OUTRAS LINGUAGENS [1]

Maria Sílvia Cintra MARTINS [2]

■ RESUMO: O presente artigo tem como objetivo propor uma ampliação da reflexão em torno do acesso à linguagem escrita. Nosso enfoque centra-se em crianças que se encontram no limiar da idade escolar e se baseia em algumas idéias centrais defendidas por psicólogos pertencentes à Escola de Vigotski a respeito da escrita e da exploração pedagógica do faz-de-conta infantil. A partir delas e do ponto de vista da Lingüística, propomos entender a linguagem presente no faz-de-conta infantil como uma dentre outras linguagens que devem ser exploradas quando se tem como meta a aquisição da linguagem escrita. Simultaneamente, propomos que a escrita seja mais enfaticamente enfocada como uma linguagem, e não como transcrição da língua falada, ou, mesmo, como uma representação de segundo grau, apenas. Nesse sentido, compreendemos, na linha da Teoria da Enunciação desenvolvida pelo lingüista francês Antoine Culioli (1990), que o ser da linguagem abrange outras dimensões, além da representação propriamente dita.

■ PALAVRAS-CHAVE: Aquisição; linguagem; escrita; oralidade; internalização; faz-de- conta; escolaridade.

Pretendemos desenvolver uma reflexão em torno das relações entre pensamento e linguagem, e entre linguagem e escrita, de modo a ampliar o escopo da conceituação que se formou, nos últimos trinta anos, a respeito do processo de alfabetização.

É com base no construtivismo piagetiano, adotado por Emilia Ferreiro em pesquisas desenvolvidas na Argentina e no México (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985), que se costuma desenvolver a linha de trabalho que leva em consideração as diversas etapas de formação de hipóteses, por parte das crianças, a respeito do processo de alfabetização. Nesse sentido, é comum que se levantem duas perguntas básicas a serem respondidas, quando se busca compreender como se dá a alfabetização, de tal modo a interferir em sua aquisição de forma competente.

“O que a escrita representa?” Esta primeira pergunta visa chamar a atenção para o fato de que a escrita é um simbolismo de segundo grau, ou seja, a escrita não representa diretamente o mundo da realidade objetal; em vez disso, representa a linguagem oral que já é, por si mesma, uma forma de representação.

“Qual a estrutura do modo de representação da escrita?” Com base nesta segunda pergunta, trata-se de apontar para as diversas hipóteses pelas quais a criança passa antes de atingir o grau alfabético próprio da linguagem escrita adulta.

Nesse sentido, cabe observar que a criança passa, num primeiro momento, por um período de indecisão entre o desenho e a escrita propriamente dita, uma vez que parte de representações icônicas e, apenas gradativamente, o predomínio do desenho vai cedendo espaço para o simbolismo gráfico de base alfabética. Este estágio é denominado pré-silábico.

À medida que avança em suas hipóteses a respeito do que a escrita representa, a criança transita para estágios às vezes híbridos em que, num primeiro momento, as letras passam a representar sílabas, de modo que, por exemplo, para representar a escrita de “gato”, a criança escreverá “AO”: neste caso, cada unidade gráfica diz respeito a uma unidade percebida pela pronúncia de uma sílaba.

O nível alfabético desponta como uma fase final de um longo percurso no qual o professor poderá exercer influência, desde que se dê conta de todo esse trajeto e de seu significado em termos cognitivos.

É nesse âmbito, aliás, que se insere a proposta de um rico “ambiente alfabetizador”: é necessário pôr a criança, seguidamente, em contato com o mundo letrado, motivá-la, ajudá-la na construção de suas hipóteses, de forma a evitar estagnações em determinados estágios e, ainda, com as devidas cautelas, provocar acelerações. Compreende-se, dessa maneira, que o educando deva sentir “necessidade” de se alfabetizar: vê-se a “necessidade” como mola propulsora do processo de aprendizagem, no sentido da necessidade que o educando passa a sentir de se inserir no mundo letrado.

É interessante notar, de toda a maneira, que, embora, via de regra, se proponha o acesso da criança a recursos diversificados, com a exploração de jogos e do trabalho em torno de projetos, o enfoque centraliza-se, na maioria dos casos, na aquisição da linguagem escrita, sem muita ênfase nas demais linguagens, e, de resto, sem a compreensão adequada da escrita enquanto linguagem, e não como transcrição ou representação da fala, apenas. Cabe, ainda, observar um universo cognitivo que se centra, preferencialmente, no aspecto intelectivo, ou seja, na formação de hipóteses racionais a respeito da escrita.

Nesse sentido, o Sujeito piagetiano a quem Emilia Ferreiro se refere é fundamentalmente um sujeito cognoscente:

[...] o sujeito cognoscente, o sujeito que busca adquirir conhecimento, o sujeito que a teoria de Piaget nos ensinou a descobrir. O que quer isto dizer? O sujeito que conhecemos através da teoria de Piaget é um sujeito que procura ativamente compreender o mundo que o rodeia, e trata de resolver as interrogações que este mundo provoca (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p.26).

Essa tendência evidencia-se, por exemplo, quando se aponta para um trabalho pedagógico em que o educador convoca suas crianças para a lousa onde lhes pede que escrevam certas palavras e mostrem “com o dedinho” que seqüências representam quais sonoridades. Muitas vezes, as próprias crianças se dão conta de certas contradições e se corrigem, quando, por exemplo, o percurso do “dedinho” fica aquém ou além dos símbolos gráficos. Outras vezes, é o educador quem as provoca, através de perguntas que trazem à tona as inadequações entre a linha da fala e a da escrita.

Admite-se, de toda a maneira, na linha de trabalho baseado no construtivismo, assim como no que vem se denominando o pós-construtivismo, que o trabalho pedagógico com as crianças em fase de alfabetização não se restringe a isso, aludindo-se a toda uma outra amplitude – e é esta que, de alguma forma, vamos tentar explorar, dentro da certeza dos acertos presentes na teorização que vimos expondo, porém na convicção de que é necessário ampliar a reflexão em torno das perguntas propostas, de forma a fornecer base teórica consistente para a necessidade da inserção do trabalho com a linguagem escrita dentro do âmbito das múltiplas linguagens infantis.

Já nos chegam ecos das “Cem Linguagens da Criança”, fruto da experiência italiana em Reggio Emília (EDWARDS; GANDINI; FORMAN, 1999), que leva em consideração, não só o construtivismo piagetiano, mas, também, as conceituações do psicólogo russo L.S.Vigotski e do educador francês Célestin Freinet. Compreendemos, no entanto, que cabe explicitar os fundamentos teóricos que estão por trás da necessidade da exploração dessas múltiplas linguagens, e extrair deles todas as suas conseqüências, para que não aportem em nossas praias como mais um dos múltiplos modismos em educação que, muitas vezes por serem mal compreendidos, não podem ser aplicados com a necessária eficiência. Além disso, a falta de fundamentação teórica explícita costuma conduzir a uma colagem muitas vezes inadequada de conceituações contraditórias: forma-se uma colcha de retalhos em que fiapos de teorização vigotskiana convivem, sem conflito, com o construtivismo piagetiano, para fornecer um exemplo apenas.

A nova edição para a língua portuguesa, datada do ano de 2001, da obra principal de L.S.Vigotski, agora com o título “A Construção do Pensamento e da Linguagem”, traz uma versão mais detalhada e completa do pensamento do psicólogo russo. No entanto, sem a necessária percepção da complexidade teórica desse pensamento, esta versão mais prolixa terá pouco a acrescentar. É certo que uma edição mais bem cuidada é sempre proveitosa para o pesquisador atento e disposto a ingressar num mundo teórico que envolve uma lógica de pensamento diferente da racionalidade a que está acostumado; mas também é certo que, sem a percepção dessa lógica de base, poucos avanços poderão ser feitos no sentido de superarmos a visão mais superficial que assimilamos a respeito desse pensamento.

Normalmente, o que temos feito é adicionar ao construtivismo piagetiano uma visada voltada para a socialização, para a interação, enfatizando a aprendizagem coletiva e compartilhada: “ninguém aprende sozinho” é um lema presente em qualquer manual que se queira moderno. [3]

Vamos propor um aprofundamento na teorização vigotskiana, primeiro no sentido de compreender melhor o que são as tais etapas de alfabetização à luz desse pensamento; num segundo momento, no sentido de ampliar nossa compreensão da escrita enquanto linguagem.

Vimos que a conceituação provinda da escola piagetiana prevê a travessia de um percurso que envolve diferentes hipóteses com relação à representação escrita e compreendemos que a constatação da existência dessas etapas de aprendizagem decorreu da observação de como as crianças aprendem a escrever. Adquirimos, com isso, a valorização de diferentes formas de representação, que deixam de ser consideradas simplesmente discrepantes, para serem compreendidas como passos construtivos, rumo à etapa final do nível alfabético de escrita.

Embora fique clara a existência dessas etapas, percebemos, no entanto, que falta, ainda, uma explicitação de por que, afinal, as coisas se dão assim e não de outra maneira, de modo a termos uma visão mais global do universo cognitivo infantil, que sirva como pano de fundo explicativo, tanto para as etapas que a criança atravessa no processo de sua alfabetização, como para a elaboração geral de sua linguagem.

Piaget (1959) faz referência ao pensamento sincrético infantil, de caráter sintético, e à evolução gradual, primeiro para o pensamento por complexos, depois para a elaboração de operações formais, fato que já dá, em parte, conta do que se passa no universo cognitivo infantil na passagem da idade pré-escolar para a escolar, e nos ajuda a compreender, também em parte, a ocorrência primeira do nível silábico de representação gráfica, a ser substituído pelo nível alfabético, analítico por natureza. Ou seja, essa manifestação gráfica que se revela na escrita e faz com que a criança pareie uma expressão sonora de base silábica com uma letra apenas, para somente mais tarde ser capaz de parear fonema com grafema, tem a ver com sua transição cognitiva global, a partir de um pensamento sintético para um pensamento analítico.

Se comparamos, no entanto, essa forma de ver as coisas dentro do enfoque piagetiano com seu contraponto vigotskiano, deparamo-nos com uma complexidade muito maior a envolver os fatos e a interligá-los, o que traz à tona o caráter relativamente discreto e analítico da visão piagetiana, que prevê uma certa linearidade no transcurso das etapas e não põe em cena a inter-relação complexa entre as diferentes linguagens. Quando a criança que já ensaia transitar para o nível alfabético apresenta um tipo de retrocesso rumo ao nível silábico, isso á chamado apenas de hesitação – o que denuncia o fato de que são enfocados elementos de superfície, sem serem devidamente compreendidos os mecanismos lingüísticos e cognitivos subjacentes.

Vigotski (2001), em contrapartida, aponta para a relação complexa, dialética e processual, que se dá entre linguagem e pensamento. Já prestamos atenção suficiente para os momentos em que afirma que, em princípio, pensamento e linguagem são processos independentes, cujas linhas de desenvolvimento se cruzam e voltam a se separar? Já prestamos atenção suficiente, quando postula uma dialética entre termos antagônicos, que apresentam trajetória diferenciada e se complementam dentro desse antagonismo? Já nos detivemos para ler e reler e tentar compreender o trecho em que afirma que a criança faz uso da linguagem, num primeiro momento, dentro de uma compreensão global, e que só paulatinamente vai tendo uma compreensão mais analítica das partes? Já abrimos suficientemente os olhos quando passamos pelo trecho em que afirma que justamente por serem antagônicos é que os processos que envolvem pensamento e linguagem se dialetizam: o pensamento atravessa um percurso que vai do particular para o geral, enquanto que a linguagem atravessa o percurso oposto, do geral para o particular?

É muito difícil, na verdade, captar toda a complexidade desse pensamento e as inúmeras conseqüências que envolve, daí nos determos, com freqüência, em aspectos mais palpáveis dessa conceituação, como naquele que diz respeito à socialização. No entanto, é aí, nesse movimento processual e dinâmico entre pensamento e linguagem e entre o todo e suas partes que reside o pano de fundo para aquilo que a criança manifesta na superfície do papel no processo de aquisição da escrita.

Mas que diferença faz saber ou não saber disso, se na prática estamos diante de letras que reproduzem sílabas antes de representarem fonemas?

Faz diferença, porque aponta para um processo global, que não diz somente respeito à escrita e que, portanto, não precisa, necessariamente, ser ativado através da escrita. Em outros termos: o percurso que tem como ponto final a aquisição da escrita alfabética não passa única, nem necessariamente pela escrita. É possível chegar-se a ele sem todos esses grafismos que temos convencionado incentivar. É possível chegar-se a ele – e, ainda, de forma mais completa e mais competente - sem ter o lápis e o papel direcionados explicitamente para esse lado.

Nesse sentido, a constatação das fases de alfabetização pode se dar, eventualmente, de forma diagnóstica, e não com a insistência conferida a um procedimento pedagógico. Não será, ao final das contas, igualmente exaustivo e enfadonho dedicar-se a traçar letras e acompanhá-las “com o dedinho”, quanto exercitar-se nas “ondinhas” e em outros procedimentos de coordenação refutados pela pedagogia moderna?

É certo que avançamos quando abrimos mão dos exercícios caligráficos em busca de razões mais profundas para o ato de escrever, mas precisamos – assim nos parece – avançar mais, em busca de algo como o que Célestin Freinet (1977) denominou seu “Método Natural”. Não nos parece natural incentivar as crianças nos exercícios de coordenação, mas, tampouco, incentivá-las a arriscar hipóteses seguidas sobre a escrita. E, é claro, nossa motivação em busca de outro enfoque, ou de um enfoque mais amplo para o trabalho com alfabetização, dá-se, além disso, em face de um quadro ainda reconhecidamente insatisfatório nos índices efetivos de alfabetização.

Nesse sentido, além da convicção de que podemos e devemos motivar a escrita por caminhos que conduzam, igualmente, a um desenvolvimento do universo cognitivo e categorial infantil, cabe, ainda, compreender melhor de que forma se dão e se relacionam as diferentes linguagens, mesmo porque, apresentando-se a escrita como uma dentre as diversas linguagens, podemos imaginar um caminho bem sucedido rumo à escrita alfabética pelo recurso consciente e metódico às outras linguagens.

Podemos, hoje, dizer que o enfoque piagetiano coaduna-se com um modelo epistemológico descontínuo, enquanto que Vigotski adota um modelo contínuo de abordagem dos fatos. Essa constatação traz à tona uma diferença muito mais marcante entre os dois pesquisadores, do que supusemos no passado. É assim que as linhas de Piaget falam de uma evolução progressiva em que as etapas vão sendo vencidas e substituídas por outras, o mesmo se dando com relação ao universo semiótico, no qual a criança transitaria da imitação, para a fala oral, para o desenho e para a escrita. Não se postula, de forma mais decisiva, uma inter-relação entre essas linguagens, nem se cogita, com a ênfase necessária, em fatores de retenção na passagem de uma para outra linguagem.

Conhecemos bem a divergência de Vigotski (2001) com relação à maneira como Piaget encara a linguagem egocêntrica, embora nem sempre tenhamos prestado suficiente atenção para o fato de que, enquanto Piaget (1959) fala da superação do egocentrismo à medida que a criança se socializa, Vigotski (2001) contrapõe-se, dizendo que o percurso é contrário, do social para o individual, o que tem a ver com um dos princípios básicos de sua Escola: a postulação de que tudo o que somos individualmente vivemos antes no âmbito social, ou seja, os processos intra-psicológicos têm fundamento inter-psicológico.

Dessa maneira, se Piaget (1959) fala na progressiva superação da fala egocêntrica e na sua substituição pela fala internalizada (ou pensamento verbal), Vigotski (2001) aponta, não para a substituição, mas para um desenvolvimento complexo em que, mais uma vez, elementos complementares se antagonizam.

A fala egocêntrica já não é vista de forma compartimentada, estanque, como um tipo de excrescência a ser expelida e superada, mas como a mediação necessária entre a fala social e o pensamento verbalizado individual. Superficialmente, pode parecer que é tudo a mesma coisa, porém, mais uma vez, estamos diante de processos cognitivos significativos, que vale a pena conhecer melhor, para saber lidar com eles com mais eficácia.

Um primeiro aspecto que se destaca, quando vemos a fala egocêntrica como algo que vai, progressivamente, sendo internalizado, é o fato de que ela precisa existir, precisa se diferenciar, para poder, gradativamente, silenciar-se. Outro aspecto para o qual Vigotski (2001) nos alerta, com base em suas pesquisas com crianças em idade pré-escolar, é o fato de que a fala egocêntrica também evolui, apresentando-se, primeiro, de forma muito semelhante a sua manifestação oral de caráter social, para, paulatinamente, ir adquirindo caráter sintético e predicativo, o que aponta para a construção simultânea e também paulatina do seu contraponto cerebral: ou seja, algo vai se construindo internamente, de tal forma que, externamente, a linguagem oral já pode carecer de certos elementos anteriormente verbalizados.

Restam as perguntas: como fica essa elaboração mental em crianças que não tenham o incentivo devido à fala egocêntrica? Como se manifesta a própria fala egocêntrica na ausência de maior socialização? Em que medida o incentivo à oralidade pode contribuir para o desenvolvimento do universo cognitivo infantil?

É diante dessas perguntas, que se delineia uma possível relação, também complexa e processual, entre oralidade e escrita: será que crianças que manifestem elaboração oral precária não terão o acesso à escrita dificultado?

Conhecemos a tese polêmica de Bernstein (1972), do “déficit cultural”, veementemente criticada. Para o autor, classes sociais diferentes apresentariam códigos lingüísticos diferenciados, mais ou menos elaborados, o que pode resultar em diferenças no desenvolvimento cognitivo.

Mary Kato (1987, p.124), por outro lado, faz referência ao estudo de Kroll, na Inglaterra, segundo o qual a elaboração lingüística oral de crianças em idade pré-escolar tem pouca relevância para o acesso à escrita, o que levou o autor a apontar para outros aspectos relevantes, como a consciência da escrita que a criança traz para a escola. Emilia Ferreiro posiciona-se de forma semelhante, quando defende que o importante é levar a criança à consciência do que faz com a linguagem quando fala: “ajudá-la a tomar consciência de algo que ela sabe fazer, ajudá-la a passar de um ‘saber fazer’ a um ‘saber acerca de’, a um saber conceitual” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p.281).

O certo é que a Psicolingüística contemporânea comporta o ingrediente inatista que herdou, por um lado, da teoria psicogenética piagetiana, por outro, da teoria lingüística chomskiana (CHOMSKY, 1965), os dois componentes básicos de que se formou. Nesse sentido, essa questão de uma interferência na linguagem oral com vistas a proporcionar avanços cognitivos e facilitar o acesso à escrita foi-lhe sempre irrelevante: a aquisição da língua materna manifestava-se na dependência de processos de maturação, acreditando-se na existência de uma faculdade de linguagem geneticamente determinada, sujeita a um desenvolvimento relativamente espontâneo. Por sua vez, sendo a escrita considerada um sistema de representação de segunda ordem, e não propriamente uma outra linguagem, uma linguagem diferenciada, parecia que as mesmas expectativas de maturação pudessem ser transferidas para a aquisição da escrita, conforme podemos sentir pelo seguinte trecho de Kato:

Posso supor, assim, que um mesmo equipamento inato que permite à criança interagir com os dados da língua oral lhe dê as condições mínimas para desenvolver sua percepção inicial sobre a escrita. O desenvolvimento para além dessa percepção inicial seria uma função das necessidades e estimulação ambientais, e os vários estágios do desenvolvimento seriam marcados por uma consciência progressiva por parte do aprendiz de seu saber e seus comportamentos (KATO, 1987, p.138).

A teorização de Vigotski (2001), no entanto, nos conduz a outras conclusões. Alerta-nos para a necessidade de se abordar os fatos de forma mais indireta, ou seja: a escrita alfabética envolve o pensamento analítico que, por sua vez, tem a ver com um grau de categorização mais complexo. Não basta entender que é uma representação de segundo grau, no sentido de que não representa diretamente o mundo objetal e, sim, os sons da fala. É necessário entender que, tal qual a moeda corrente, ela necessita ter lastro, um lastro de base cognitiva que, entre outros caminhos, pode ser propiciado pelo incentivo adequado da linguagem oral, como também por um trabalho dirigido com o desenho e com o faz-de-conta infantil.

Acreditamos que caiba ao lingüista comprometido com a educação infantil esta tarefa, de, ampliando os conceitos de linguagem e de aquisição de linguagem, apontar para a inter-relação entre as diferentes linguagens e para a maneira como elas se alimentam reciprocamente. Apontar, também, para a forma com que a aquisição de uma linguagem, por assim dizer, mais genuína, menos asfixiada pela linguagem do outro, passa, necessariamente, pelo incentivo a cada linguagem em seu tempo devido, de tal forma que a irrupção de uma nova linguagem dê-se na medida do esgotamento de sua manifestação anterior. Nesse sentido, a aquisição da escrita passa a ser vista como apropriação de uma linguagem, e não, meramente, como transcrição fonética, uma vez que, assim nos parece, mesmo aqueles que postulam ser a língua escrita uma “representação de segundo grau”, justamente porque não transcendem essa dimensão lingüística da representação, também não conseguem se distanciar o suficiente da visão mais tradicional que vê na escrita apenas a transcrição da fala.

Este fato contém implicações pedagógicas, uma vez que aponta para a necessidade de se incentivar a fala para si mesma, a “fala egocêntrica” da criança que tem por volta dos três anos de idade. Nesse sentido, cabe proporcionar espaços e materiais para que possa, eventualmente, estar só com seus brinquedos e objetos, desenvolvendo aquela sua fala, só aparentemente autista. Dos quatro aos seis anos, essa fala continuará existindo, e o educador atento poderá observar a maneira como vai se tornando progressivamente lacunar ou reticente. Paralelamente, a criança manifestará uma nova linguagem, a linguagem presente no jogo de “faz-de-conta”, o qual tem sido reconhecido do ponto de vista da brincadeira, do jogo, mas urge chamar a atenção, e muito enfaticamente, para o papel e o estatuto de linguagem que se desenvolve no interior dessa brincadeira: linguagem que cabe ao educador incentivar, seja fornecendo à criança espaços e materiais motivadores, seja participando, de forma comedida e discreta, no jogo de seu faz-de-conta.

Esse aparente desvario infantil, em que vemos as crianças como que no ar, sem os pés no chão, no mundo da lua, é de fundamental importância para a ascensão a patamares mais complexos de categorização, o que, entre outros aspectos, significa o incentivo à elaboração progressiva de seu pensamento abstrato. As vozes de fora vão se internalizando para poderem, depois, se externar, num processo complexo e vital, dinâmico, primordial para a aquisição, não só da linguagem, mas da própria personalidade em que coexistem, se imbricam e se antagonizam as vozes do “eu” e do “outro”.

É certo que, se postulamos, com a Escola de Vigotski, a internalização da linguagem verbalizada exterior, cabe, sempre, conversar muito com as crianças e favorecer para que elas conversem entre si. O princípio da imitação, num sentido muito peculiar e complexo, está sempre presente: porém, é necessário vislumbrá-lo de uma forma problemática, em que, se há assimilação, há também rejeição; se há internalização, há a luta e a necessidade de externalização.

Voltamos, com isso, à palavra “necessidade”, agora dentro de outro enfoque. Já não é uma “necessidade” provinda apenas de apelos externos: é uma necessidade que se confronta com o mundo. Veja-se: não se adapta, confronta-se com o mundo – eis aqui uma divergência básica entre os pensamentos de Piaget (1959) e de Vigotski.(2001). Neste, vemos confronto, conflito, problematização, e não movimentos adaptativos ou assimilativos.

É necessário, ainda, diferenciar leitura de escrita, para compreender melhor a profundidade dos mecanismos e anseios psicológicos que estão em jogo. Normalmente, fazemos uma referência global à lecto-escritura, como se constituíssem um único e mesmo processo, mas cabe perceber – algo aparentemente banal – que a leitura vem, preponderantemente, de fora para dentro (mesmo que reconheçamos um movimento processual e construtivo envolvido nela), enquanto que a escrita deve, em princípio, brotar de dentro para fora, como necessidade íntima de manifestação, como linguagem. Freinet (1977), à sua maneira, tinha essa clareza, ao propor o incentivo à correspondência como forma de mobilizar a necessidade afetiva pela escrita.

Falamos que a criança aprende a falar, mas não falamos que aprende a escutar, pois isso parece óbvio demais, parece que esteve lá desde sempre, não foi necessário aprender. Por outro lado, referimo-nos à lecto-escritura, como se leitura e escrita constituíssem um único e mesmo processo. Falar envolve uma certa individualidade, a manifestação de uma personalidade. Atribuímos especial importância às primeiras palavras da criança, porque é justamente nesse momento, quando aprende a falar, que a criança se humaniza, se manifesta mais claramente como “ser humano”. Não percebemos, no entanto, que a escrita merece esse mesmo estatuto de humanização, que ela envolve um novo patamar de humanização.

Nesse sentido, apesar de pretender responder à pergunta “o que a escrita representa”, fugindo a uma prática anterior muito voltada à caligrafia, aos grafismos, ainda a escrita que se tem praticado dentro da escola piagetiana, exatamente por não levar em conta a dialética complexa que envolve o interno e o externo, o eu e o outro, é uma escrita na superfície do papel, que não se coloca enquanto linguagem propriamente dita. Daí as matizes que comporta e que enfatizam a inserção no mundo letrado, e não propriamente o acesso a uma linguagem diferenciada, enquanto possibilidade de manifestação individual. A escrita pode, sim, reproduzir a fala do outro, mas alfabetizar não pode, nem deve se reduzir a essa dimensão pequena da escrita. Nesse sentido, assim como Deleuze (1988) se refere à concepção lingüística estruturalista, com suas oposições binárias diferenciais e negativas, como sendo uma abordagem do “pequeno lado da linguagem”, da mesma maneira, reduzir a escrita a uma representação de segundo grau significa vislumbrar apenas o “lado pequeno” da escrita. [4]

A escrita é uma das manifestações lingüísticas a que temos acesso, e não é fortuito o fato de despontar exatamente no momento da ontogênese do pensamento e da linguagem infantis em que a criança gradativamente abandona, tanto a fala egocêntrica, quanto os jogos de faz-de-conta.

Só temos acesso à parte traduzida do russo dos escritos da Escola de Vigotski, ali onde há referência à transmutação paulatina da fala egocêntrica em pensamento verbalizado, como também à importância dos jogos protagonizados – o faz-de-conta infantil – para a ascensão a patamares superiores de categorização. Sabemos, também, da forma como Vigotski (1991) atribui a pré-história da escrita ao desenho infantil, e da maneira como Leontiev (2001) aponta para a necessidade de pesquisa no sentido de mostrar a inter-relação entre processos afetivos e intelectivos, aos quais atribui igual importância na formação do universo cognitivo. Conhecemos, ainda, a forma como Luria (1986) explora a indicação de Vigotski de que o significado das palavras evolui, desde uma relação mais íntima com o mundo objetal, até vir a fazer parte de um universo auto-suficiente de inter-relações semânticas.

Foi com base nessas indicações que avançamos em nossa pesquisa de base teórica e prática, em contato com crianças em idade pré-escolar, até vir a concluir pela inter-relação, não só da fala egocêntrica com o pensamento verbalizado, mas das diversas linguagens entre si e com o pensamento verbalizado progressivamente abstrato. Compreendemos, nesse percurso, que a escrita pressupõe a internalização, não só da fala verbalizada, mas das pessoas, dos co-enunciadores, de tal forma que o pensamento abstrato que envolve comporta e pressupõe o embutimento do diálogo.

O pensamento não é monológico. As lacunas e o próprio caráter predicativo que lhe é inerente denunciam a presença de um outro; e é esse pensamento dialógico que fornece o pano de fundo para a escrita. Para sua constituição, foi necessário que se internalizasse, de forma problemática e contraditória, a fala egocêntrica que o precedeu; mas foi fundamental, também, que se internalizasse a duplicidade, ou mesmo, a pluralidade de vozes presente no jogo do faz-de-conta infantil.

Através dessa ótica, queremos, entre outros motivos, atribuir ao jogo de faz-de-conta uma dimensão muito mais ampla do que a de uma mera brincadeira, na interpretação lúdica e descomprometida da palavra. Dentro dessa brincadeira, não só se constroem personalidades no sentido alternante de um eu e de um outro. Constroem-se personalidades complexas, que envolvem, problematicamente, o eu e o outro.

E isto não é tudo: cabe ainda falar das palavras propriamente ditas, pois é dentro do faz-de-conta que elas adquirem duplicidade e polissemia. É dentro do faz-de-conta que a vassoura é vassoura, mas é também cavalo; o caixote é caixote, mas é também um barco, e assim por diante. De um sentido monossêmico, as palavras se transformam, como que num passe de mágica, em cabides, em entradas para múltiplas significações.

Vale lembrar, a esse respeito, que, apesar dos avanços mais recentes nos estudos lingüísticos, no sentido de se tentar superar o paradigma estruturalista dominante no decorrer do século XX, ainda prevalece, como que intocado, o eixo fundamental que envolve a conceituação do signo lingüístico enquanto união de um significante e um significado centrada no princípio da arbitrariedade e da exclusão do universo extra-lingüístico. Foi no início do século XX, nos cursos proferidos para os estudantes na Universidade de Genebra, que Ferdinand de Saussure, considerado o fundador da Lingüística contemporânea, estabeleceu uma conceituação algébrica em que os signos lingüísticos adquirem significado – ou valor – através de um jogo de relações recíprocas que atingem, tanto o lado material – o significante -, quanto o aspecto conceitual – o significado do signo -, ficando, de toda forma, excluído do universo da linguagem o mundo objetal das coisas reais.

Essa conceituação constituiu a base da Lingüística estruturalista, que se deteve, preferencialmente, no estudo dos significantes, isto é, das relações entre os fonemas enquanto feixe de oposições distintivas, estruturas binárias elementares, e se estendeu, posteriormente, para as estruturas sintáticas. O interesse pela área da Semântica sobreveio na segunda metade do século, particularmente através da “Semântica Estrutural”, de A. J. Greimas (1973), em que, agora, na linha de pensamento de Hjelmslev, o significado é que passou a ser alvo de análise componencial, porém sempre dentro da exigência básica de se excluir o mundo das coisas reais do campo da investigação e ver a linguagem como um universo estruturado de relações intrínsecas. Ou seja, na sua base, no seu eixo, ainda a conceituação saussureana do início do século é que continuou dominante.

A Lingüística de viés cognitivo vem ensaiando algumas tentativas no sentido de questionar essa tendência analítica, descontínua, e propor, em vez disso, modelos contínuos de investigação. O certo, porém, é que, como o enfoque, via de regra, recai sobre o desempenho lingüístico do adulto, certas discrepâncias e exigências próprias à aquisição da linguagem no universo cognitivo infantil não costumam vir à tona. Assim, embora tenhamos tido acesso a considerações mais complexas, em que se propõem relações transcategoriais que envolvem os eixos semântico, sintático, morfológico e pragmático, sem separá-los, como antes, em compartimentos estanques, e embora se acene para o âmbito cognitivo como parte, também, do universo lingüístico, ainda assim mantém-se o mundo objetal a certa distância confortável, dentro de uma exigência epistemológica de que haja um corte nítido entre o mundo da realidade e o mundo da representação.

Lingüistas cognitivistas, como Culioli (1990) e Fauconnier (1997), apontam para relações semânticas complexas, que fazem com que o item lexical já não possa ser visto de forma isolada, mas envolva um “pacote de relações” ou implique a “integração conceitual”. Ainda assim, como o foco da investigação costuma se centrar na modalidade lingüística adulta, certos elementos característicos da ontogênese da linguagem infantil são desconsiderados.

Já no campo da Psicologia da Educação, Luria (1986) desenvolve o pressuposto vigotskiano de que os significados das palavras evoluem qualitativamente e pondera a respeito da longa história que se dá no processo de aquisição da linguagem infantil. Dentro desse processo evolutivo, as primeiras palavras estão estreitamente ligadas à ação da criança e à sua comunicação com os adultos. Nesse contexto inicial, o significado da palavra depende da situação, da entonação e dos gestos que a acompanham.

Apenas progressivamente, a palavra vai adquirindo autonomia. Assim, até por volta dos dois anos de idade, as palavras possuem caráter difuso e estão fortemente enlaçadas com a prática. É por essa época que a criança começa a adquirir a morfologia elementar da palavra, adicionando, por exemplo, um sufixo que passa a determinar o uso daquela palavra com o valor de substantivo. Nesse mesmo momento, há uma súbita expansão vocabular: “o significado da palavra se reduz e o vocabulário se amplia.” (LURIA, 1986, p.31).

Nesse sentido, Luria pondera:

[...] a observação da ontogênese facilita-nos fatos complementares que permitem considerar que a palavra nasce de um contato simpráxico, separando-se progressivamente da prática, e converte-se em um signo autônomo, que designa um objeto, uma ação ou uma qualidade (e mais adiante uma relação). É neste momento que ocorre o verdadeiro nascimento da palavra diferenciada como elemento do complexo sistema de códigos da língua (LURIA, 1986, p.31).

Conclui, a partir disso e em confirmação da tese de Vigotski, que o significado da palavra se desenvolve, uma vez que, apesar de conservar a mesma referência objetal, a palavra adquire novas estruturas semânticas, ou seja, há uma alteração no sistema de enlaces e generalizações nela encerrados. Junto com esse fato e como decorrência dele, há uma mudança na estrutura sistêmica da palavra: “Ou seja, por trás do significado da palavra, em cada etapa, estão presentes diferentes processos psíquicos” (LURIA, 1986, p.51)

Estes dois aspectos estão intimamente relacionados. No que diz respeito ao que Luria (1986) denomina a estrutura do significado, temos uma progressão desde as etapas iniciais do desenvolvimento infantil, em que o significado da palavra ainda é amorfo, difuso, genérico e não possui uma firme referência objetal: “[...] o significado é muito difuso e, mesmo designando um determinado traço, faz referência a distintos objetos que apresentam este traço comum e se inserem na situação correspondente” (LURIA, 1986, p.49). Nessa etapa, a palavra conserva um estreito vínculo com a situação prática. A partir do momento em que já começa a adquirir uma referência objetal mais estável, há, de toda maneira, uma continuidade na evolução de sua estrutura de significado, no que concerne à sua função generalizadora e analítica.

Junto com a evolução na estrutura do significado, há uma mudança nos sistemas de processos psíquicos que estão por trás da palavra. Assim, na criança pequena, predomina o laço afetivo; na idade pré-escolar, predomina a memória de uma imagem concreta imediata:

Conseqüentemente, no estágio dos conceitos concretos, o papel decisivo cabe aos enlaces situacionais diretos, reais dos objetos e no estágio dos conceitos abstratos, o papel decisivo cabe aos enlaces lógico-verbais, hierarquicamente constituídos. Portanto, o significado muda não só em sua estrutura, mas também nos sistemas de processos psíquicos que a realizam (LURIA, 1986, p.54).

Luria (1986) retoma, também, a concepção de Vigotski segundo a qual a organização do ato voluntário da criança fundamenta-se em seu desenvolvimento lingüístico. A criança passa por uma primeira etapa de desenvolvimento, na qual a mãe dirige-se a ela e orienta sua atenção através de uma série de instruções, como: “pega o balão”, “levanta a mão”, “onde está a boneca?”. Nessa primeira etapa, a criança cumpre instruções verbais para então, na etapa seguinte, começar a dar ordens a si mesma, a princípio em linguagem externa, depois através da linguagem interior. Dessa maneira, a origem do ato voluntário na criança é atribuída à comunicação da criança com o adulto:

No início, a criança deve se subordinar à instrução verbal do adulto para, nas etapas seguintes, estar em condições de transformar esta atividade ‘interpsicológica’ em um processo interno ‘intrapsíquico’ de auto-regulação (LURIA, 1986, p.95, ênfase do autor).

Com base nesse reconhecimento de que a ação voluntária da criança tem origem social e é mediada pela linguagem (e não resultado de desenvolvimento biológico), Luria (1986) aponta para a função pragmática ou reguladora da linguagem. Ou seja, além da função cognoscitiva, a palavra emerge como meio de regulação da conduta. De nossa parte, enquanto lingüistas, é interessante notar que Antoine Culioli (1990) aponta para as três diferentes operações inerentes à linguagem: a representação, a referenciação e a regulação. É sempre difícil ponderar em que medida certa terminologia tem ou não o mesmo estatuto em diferentes autores, mas o que importa, no caso, é acentuar o fato de que a linguagem não se reduz à representação, comportando outros aspectos, outras funções. Nesse âmbito, a função da regulação diz respeito ao aspecto pragmático, àquele aspecto que concerne às pessoas, aos interlocutores e aos papéis que eles comportam. Compreendemos, nesse sentido, que, ao lado da reflexão a respeito da dimensão representativa da escrita, cabe compreender que papéis, que pessoas estão em jogo nessa nova linguagem.

As ponderações de Vigotski (2001) a respeito do inter-relacionamento entre as diferentes linguagens infantis forneceram-nos um pano de fundo para uma reflexão subseqüente a respeito da linguagem que se manifesta no jogo de faz-de-conta infantil, e a respeito dos papéis sociais que comporta e que estarão pressupostos na aquisição da escrita. De forma inédita, Vigotski (2001) estabelece comparações entre a linguagem exterior socializada, a linguagem egocêntrica, a linguagem interior e a escrita, obtendo esclarecimentos num jogo de espelhos dialético em que cada forma de linguagem se faz melhor compreender através do paralelo estabelecido com a outra forma, que, em princípio, pareceria absolutamente díspar, carecendo de qualquer possibilidade de comparação. Além disso, mostra as influências recíprocas entre essas diversas linguagens. É assim que, por exemplo, pondera:

O importante é que, em certas circunstâncias, todas essas peculiaridades podem surgir na linguagem exterior; é importante que isso seja geralmente possível, que as tendências para a predicatividade, para a redução do aspecto físico da linguagem, para a prevalência do sentido sobre o significado da palavra, para a aglutinação das unidades semânticas, para a influência dos sentidos, para o idiomatismo do discurso possam ser observadas também na linguagem exterior, o que, conseqüentemente, a natureza e as leis da palavra admitem e tornam possível. E isto, reiteremos, é para nós a melhor confirmação da nossa hipótese de que a linguagem interior surgiu por intermédio da diferenciação das linguagens egocêntrica e social da criança (VIGOTSKI, 2001, p.473).

Através dessas comparações entre as diferentes formas ou funções da linguagem e da demonstração de sua influência recíproca, Vigotski (2001) combate a teorização tradicional que vê na linguagem exterior uma simples “expressão do pensamento”, uma vez que são, na verdade, funções absolutamente específicas e díspares, fato que não invalida, nem compromete a relação dialética que entre elas se estabelece, mas, ao contrário, é condição fundamental para que se dê essa relação processual. É assim que passa a ser vislumbrado um processo complexo de transformação da linguagem interior em linguagem exterior, que implica

[...] a reestruturação da linguagem, a transformação de uma sintaxe absolutamente original, da estrutura semântica e sonora da linguagem interior em outras formas estruturais inerentes à linguagem exterior. Como a linguagem interior não é uma fala menos som, a linguagem exterior não é linguagem interior mais som. A passagem da linguagem interior para a exterior é uma complexa transformação dinâmica – uma transformação da linguagem predicativa e idiomática em uma linguagem sintaticamente decomposta e compreensível para todos (VIGOTSKI, 2001, p.474).

O autor chama a atenção para o fato de que, aos três anos de idade, há ainda um certo equilíbrio entre a linguagem egocêntrica e a linguagem socializada, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto qualitativo. Aos poucos, e até atingir os sete anos de idade, vão se modificando as características próprias da linguagem egocêntrica, que vai se tornando, progressivamente, concisa, predicativa e pouco inteligível para os demais. De fato, o que se vislumbra, nesse caso, já são os sinais de germinação de uma nova forma de linguagem, uma vez que essas mesmas características – a tendência à concisão, à predicatividade – são aspectos próprios da linguagem interior.

Dessa forma, em lugar da tese piagetiana para explicar a linguagem egocêntrica com base na teoria da insuficiência de socialização – a criança ainda não teria desenvolvido suficientemente sua fala social e, assim que o faz, a linguagem egocêntrica se extingue - , Vigotski (2001) propõe vê-la como isolamento insuficiente da linguagem para si em relação à linguagem para os outros. Mais uma vez, é a visão dialética, dinâmica, processual que vem à tona:

[...] a linguagem interior não deve ser vista como fala menos som, mas como uma função discursiva absolutamente específica e original por sua estrutura e seu funcionamento, que, em razão de ser organizada em um plano inteiramente diverso do plano da linguagem exterior, mantém com esta uma indissolúvel unidade dinâmica de transições de um plano a outro (VIGOTSKI, 2001, p.445).

É nessa mesma linha de pensamento que propomos enfocar o jogo de faz-de-conta infantil, que se intensifica na faixa etária dos quatro aos seis anos, como uma atividade processual e produtiva, que não se extingue, simplesmente, por volta dos sete anos, dando lugar a outras formas de jogos, mas, ao deixar de se manifestar externamente, mantém, ainda, marcas na linguagem infantil que se internaliza. Nesse sentido, se vale a pena ver a linguagem egocêntrica em sua transição dialética, com transformações qualitativas, rumo à constituição da linguagem interior, sem com isso significar, simplesmente, o silenciamento da voz externa, também valerá a pena compreender melhor a estrutura lingüística presente no jogo de faz-de-conta infantil, assim como suas formas de desdobramento desde seu aparecimento até o limiar da idade escolar, para dar conta, principalmente, do elemento dialógico que, conforme acreditamos, permanece na linguagem interior, fornecendo subsídios para a aquisição da escrita.

Com vista a um aprofundamento futuro desses aspectos, queremos apontar para o fato de que são certas semelhanças estruturais entre a linguagem que as crianças praticam no decorrer dos jogos de faz-de-conta e a estrutura da linguagem sinsemântica apontada por Luria (1986) que nos levam a ver nessa função da linguagem infantil uma fase importante para o acesso à linguagem conceitual adulta, passando, através de transições complexas, pela constituição da linguagem interna. Trata-se de enfocar o jogo de faz-de-conta infantil do ponto de vista da linguagem que comporta e de estabelecer paralelos entre essa manifestação e a transformação progressiva da linguagem infantil: tanto exterior, quanto interior; tanto verbalizada, quanto escrita.

Um primeiro aspecto que se apresenta para comparação está na forma como sentido e significado se manifestam. Leontiev (2001, p.128) destaca a maneira como, dentro do faz-de-conta, uma vara, enquanto passa a adquirir outro sentido, mantém seu significado de base: a vara continua a ser vara, dentro de uma conformação simpráxica, enquanto adquire, simultaneamente, um sentido no jogo, passando a ser um cavalo. É dentro da ação do jogo, que envolve objetos e interlocutores, que essa transfiguração se dá, como que por magia, sem que decorra, é claro, de nenhum tipo de ausência ou de alucinação.

Fica nítido, para nós, nessa forma de linguagem, o caráter de transição da estrutura do significado até então dominante, e que se vincula mais diretamente com o mundo objetal, estando na sua dependência, para a estrutura de significado própria da manifestação lingüística adulta, em que as palavras soltam-se do mundo das coisas, adquirindo certa autonomia e independência.

Cabe, ainda, lembrar aspectos reconhecíveis dentro do desenvolvimento progressivo do faz-de-conta infantil, desde a faixa etária dos três anos de idade, até o início da idade escolar, que apontam para uma progressão estrutural reencontrável nas outras formas de linguagem, seja na linguagem exterior, seja na interior, de modo que seria necessário incluir a linguagem que se desenvolve no jogo de faz-de-conta, ao lado das outras linguagens, a fim de detectar com mais clareza a relação dialética complexa e processual aí implicada.

Segundo Elkonin (1998), o aspecto evolutivo mais importante dos jogos é o desenvolvimento do argumento, intimamente relacionado ao papel. Aos três anos de idade, a criança já apresenta um jogo de caráter temático, em intenso desenvolvimento até os sete anos, concomitantemente à aprendizagem gradual do papel que a criança representa numa comunidade infantil. Há, assim, uma passagem gradual (com base no tema e no papel) de ações domésticas (como cozinhar, lavar etc.) para significações histriônicas baseadas nessas ações (“eu sou a mamãe”, “eu sou a cozinheira” etc.).[5] Ao lado dessas ações protagonizadas, aparecem as relações entre as personagens e, finalmente, surge o papel propriamente dito: “A experiência dos jogos demonstra como neles vão surgindo as perspectivas e os planos no lugar das ações casuais e informes [...]” (ELKONIN, 1998, p.239).

As crianças pequenas (três ou quatro anos) examinam, escolhem certos objetos ou brinquedos e passam a manipulá-los individualmente, repetindo ações monótonas e sem se interessar pelo que faz a outra criança. Todo o andamento do jogo resume-se a uma série de ações repetitivas com brinquedos, embora, ao serem perguntadas, costumam atribuir certo sentido a seu jogo, certo argumento, certos papéis (“Estou brincando de jardim da infância”, “Sou a diretora” etc. - ELKONIN, 1998, p.244).

Já as crianças mais velhas costumam entrar em acordo quanto aos papéis a serem executados, seguindo, depois, uma ordem determinada na realização do jogo. O grau de complexidade dos argumentos dependerá dos elementos presentes no jogo e da relação existente entre eles.

Estabelece-se, assim, uma dinâmica complexa que une ações, objetos e palavras, e que sofre uma profunda mudança justamente na idade pré-escolar. Dentro dessa estrutura dinâmica e como pré-requisito para poder inserir-se nela, a palavra impregna-se de todas as possíveis ações com objetos e passa a ser agente desse sistema de ações com objetos. Em jogos com crianças em idade pré-escolar, percebeu-se que, só depois de se impregnar desse sistema de ações, é que a palavra pôde substituir o objeto.

Provavelmente, foram os pesquisadores russos que, na linha de pensamento de Vigotski, levaram mais a fundo a investigação a respeito do faz-de-conta infantil e de sua utilização pedagógica, tendo em vista a formação dos atos mentais e dos conceitos. No entanto, apesar do apelo que fazem ao uso da palavra (que ganha destaque nos jogos, diferentemente do que acontece na linha piagetiana), ainda, ao que nos parece, esta não adquire o lugar central que lhe deveria ser reservado, numa dialética complexa que envolveria papel, ações e palavras.

Compreendemos que cabe ao lingüista essa função, de dar o destaque necessário à linguagem e esclarecer o papel que desempenha nos jogos e no desenvolvimento psíquico da criança, particularmente no momento da transição da idade pré-escolar para a idade escolar; de esclarecer como se relacionam as diferentes linguagens e de chamar a atenção para o estatuto lingüístico da escrita, arrancando-a daquela dimensão pequena, que a vê meramente como transcrição dos sons da fala, e explicitando, ao lado da função representativa, a função pragmática que lhe é inerente.

■ ABSTRACT: This paper enlightens the debate over the way children access writing. The approach focuses on pre-school children, and it is based on the Vigotskian claims on both writing and the use of role-playing for pedagogical purposes. From the point of view of Linguistics, it is claimed that children’s language as practiced when role-playing is one, among other languages, that must be explored when the writing acquisition is at stake. Simultaneously, it is also claimed that writing must be considered a particular language, not the written counterpart of speech, or a parasitic second grade representation. It is emphasized, according to Culioli’s Enunciation Theory (1990), that the essence of language comprises further dimensions other than representation itself.

■ KEYWORDS: Acquisition; language; writing; oral; internalization; role-play; schooling.

Referências bibliográficas:

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[1] Este artigo foi originalmente publicado na Revista Alfa: Revista de Lingüística, vol.47 (2), 2003. Publicamos aqui com algumas modificações.

[2] Pós-doutora em Lingüística Aplicada no IEL/UNICAMP. Pesquisadora vinculada aos Grupos de Pesquisa “Formação do Professor: Processos de retextualização e práticas de letramento” (IEL/UNICAMP) e “Estudos Marxistas em Educação” (UNESP/Araraquara).

[3] O professor Newton Duarte alerta-nos contra esse perigo de apenas adicionar “uma pitada social no construtivismo”: “[...] não se trata de passar a um construtivismo social ou de trazer o social para o construtivismo, pois entendemos que o construtivismo piagetiano já contém um modelo do social e esse modelo se respalda no modelo biológico da interação entre organismo e meio ambiente. Não se trata de que PIAGET tenha desconsiderado o social, mas de como ele o considerou” (DUARTE, 1996, p.88).

[4] “Quando interpretamos as diferenças como negativas e sob a categoria da oposição, já não estamos do lado daquele que escuta e mesmo que ouviu mal, que hesita entre várias versões atuais possíveis, que tenta ‘reconhecer-se’ pelo estabelecimento de oposições, o pequeno lado da linguagem, não o lado daquele que fala e que atribui o sentido? Não traímos assim a natureza do jogo da linguagem, isto é, o sentido dessa combinatória, desses imperativos ou desses lances de dados lingüísticos que, como os gritos de Artaud, só podem ser apreendidos por aquele que fala no exercício transcendente? ( DELEUZE, 1988, p.329-330).

[5] Não cremos ser mera coincidência o fato de que é por volta do mesmo momento detectado pelos psicólogos russos, aos dois anos de idade, quando subitamente se amplia o vocabulário infantil, que também emerge o uso do pronome pessoal eu para se referir às ações do Sujeito (“eu quero”, em lugar de, por exemplo, “Vinícius quer”).


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Texto de Charles Feitosa ( A Arte de pensar a Arte).


Texto de Charles Feitosa ( A Arte de pensar a Arte).
Resumo do capítulo

O senso e o sensível

A beleza da arte e seus discursos:

- O belo artístico, o gosto individual (“ gosto não se discute”).

- Surgimento da “estética” (1750): Tenta sistematizar racionalmente a diversidade de experiências da beleza na arte.

- O filósofo alemão Alexander Baumgarten (1714-1762) que cunhou o termo e remeteu seu significado à percepção por meio dos sentidos e/ ou sentimentos.

”Dentro deste contexto, estética é a ciência da sensibilidade, na verdade uma ciência de exceção, já que via a algo que pode se mostrar vago e obscuro.”

Vago: Indefinido; incerto.

Obscuro: confuso; desconhecido.

Segundo o texto de Charles Feitosa, “A arte de pensar a Arte”, o termo “estético” aponta para o que chamou de preconceito, partindo do pré suposto de que a crença da capacidade de apreciar a beleza se dá exclusivamente pelos órgãos do sentido. Para Charles, é evidente que a arte apele mais aos sentidos e aos sentimentos do que à reflexão e à racionalidade.

A arte e para sentir e não para pensar.

Feitosa acha que há questionamento quanto a essa afirmação, pois haveria uma “participação imprescindível da inteligência da fruição da beleza na obra de arte”. A arte é apenas visual. Se for tocada perderia sua estética da obra, interrompendo-a.

“A experiência sensível de um toque pode, portanto, impossibilitar a percepção da obra como uma coisa bela”. Com isso a estética da arte sem a “interpretação de quem vê ou ouve, sem a construção de sentido por aquele que percebe, não há beleza, nem obra de arte”. Ou seja, segundo Charles, a experiência do belo na arte envolve uma mistura entre o senso (o que está relacionado ao pensamento, à racionalidade e à significação) e o sensível (tudo que se refere aos sentidos, aos afetos e sentimentos). Essa mistura não se sabe em que condições e qual organização se dá. Essa contrariedade na história da filosofia da arte é compreendida nas tentativas de decifrar o mistério nela contida.

“ Não é possível comer o belo. Podemos até apreciar a disposição harmônica de um prato da culinária japonesa ou francesa, mas a partir do momento em que começamos a mastigar, o prato deixa de nos agraciar pela sua beleza, mas sim pelo seu aspecto palatável” (Charles Feitosa).

“Por que as obras de arte são feitas para os olhos e os ouvidos em geral e não para o nariz, os dedos ou língua? Por que não é possível comer ou cheirar o belo? Provavelmente porque a visão e audição são considerados os sentidos mais ativos, aqueles que mais se aproximam do pensamento e da razão. Existe em nossa cultura uma certa hierarquia dos sentidos”.

A obra de arte são mais para os olhos (pintura) e para os ouvidos (música) do que a ligação entre o senso e sensível.

-Senso: Faculdade de pensar e raciocinar.

-Sensível: Dotado de sensibilidade, que se sente.

No século XX iniciaram uma quebra da “aristocracia da visão a da audição na arte”, passando a dar vida ao manipular a arte. Com isso integra-se o tato à experiência estética e destrói à relação passiva entre obra e observador. Dando vida a arte.

A verdade na Arte:

A arte segundo pensamentos de Platão ocorre quando não há mais a necessidade básica de em uma sociedade. Contribuindo para o bem-estar geral, é uma troca de necessidades. A idéia de Platão em “A República”, história de uma cidade em que há a necessidade de que a sociedade tenha cumpridas as tarefas básicas, tais como saúde, educação e trabalho, começa a surgir desejos luxuosos, desnecessários. Segundo Platão, é nesse momento que surgem os artistas na cidade; poetas, músicos; dançarinos, pessoas que não desempenham nenhuma função considerara útil. Para o filósofo os artistas são o excesso de uma cidade em que tudo funciona segundo um sistema de necessidades racionais.

O luxo, que é a arte, carrega uma dupla ameaça, segundo Platão:

Ameaça epistemológica e ética: “ O artista é um fabricante de imagens fantasmas que desviam os olhos do cidadão das verdadeiras idéias, que só podem apreensíveis pelo pensamento”. Para o filósofo, isso estimula as paixões, afetos e emoções, que, se perderem o controle, podem levar a uma catástrofe.

“A arte só deveria ser praticada por crianças, mulheres, escravos ou loucos, enfim, somente aqueles que não têm nada a perder”.

Platão acha que isso pode levar um cidadão livre a correr riscos, ao ter contato com a arte. A boa convivência em sociedade depende de pende de uma a-phatia (grego quer dizer paixão).

“Por isso os artistas não são apenas luxo, mas também lixo, devendo ser expulsos da cidade, para que esta possa continuar a ser expulsos da cidade, para que esta possa continuar a ser uma sociedade justa e feliz”. (A República, 606a).

A arte é a imaginação e não cópia da realidade, pois na realidade pode-se, além de apreciar com os olhos, deleitar-se na obra. (Wagner Lemos)

“A idéia de que a arte deve imitar a realidade começou a ser questionada já na modernidade, embora ainda tenha seus defensores mesmo no século XX” (Charles Feitosa)

A expulsão dos artistas de “A República é, em princípio, a indicação de que para Platão a arte pouco ou nada tem a ver com a verdade, mas apenas com a ilusão e a superfície.

Obs: Apesar da superfície de que a arte seja perniciosa para a cidade, Platão aceita em “A República” que as crianças sejam educadas com música, desde que ela estimule a disciplina e o controle do corpo, como as marchas e os cânticos de guerra.

A utilidade da arte

Para Aristóteles a arte é verdadeira, tanto do ponto de vista epistemológico, quanto moral. Abandonando a idéia de que a arte é imitação, passando a ser um intermédio entre reinterpretação. Contra Platão que acredita que a “imitação” é ela mesma uma atividade inferior e que inferioriza aquele que a pratica. Aristóteles acha normal a “reinterpretação” da realidade ou um prazer quando se aprende algo de novo sobre o mundo.

Segundo Aristóteles, a “reinvenção” não é apenas imitação de objetos já existentes e sim, de coisas possíveis que ainda não tem, mas podem ou devem ter realidade. Nesse sentido, a arte não é apenas reprodução, mas invenção do real. Exemplos clássicos seriam as caricaturas e a comédia. Aristóteles acredita também que a poesia trágica fornece uma abordagem mais inteligente da realidade do que a história. A história mostra como as coisas aconteceram, em quanto a tragédia, como as coisas realmente poderiam acontecer e em certa medida.

O efeito purificador

Aristóteles considera a arte necessária, pois ela provoca um efeito denominado “catarse”( é a purificação das almas por meio da descarga emocional provocada por um drama). Através da música, do teatro e da poesia o espectador é incentivado a sentir fortes emoções, tais como o medo, a piedade ou o entusiasmo, sem cair em descontrole ou desespero. Após a “catarse” vem o alívio e a sensação de equilíbrio.

“A arte não apenas é capaz de nos trazer saber, ela tem também uma função edificante e pedagógica.”

Aristóteles traz a poesia trágica e a comédia que não chegou até nós. Ele aprovava o riso como uma da forma de purgação dos males da alma e o reconhecia como uma das formas de acesso a uma atitude crítica diante da realidade. Por outro lado, Platão não via com bons olhos a comédia e identificava em uma face risonha os primeiros sintomas da loucura ou de uma animalidade descontrolada. (A República, 379a)

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O JOGO E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL NA TEORIA DA ATIVIDADE E NO PENSAMENTO EDUCACIONAL DE FRIEDRICH FROEBEL



O JOGO E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL NA TEORIA
DA ATIVIDADE E NO PENSAMENTO EDUCACIONAL DE
FRIEDRICH FROEBEL
ALESSANDRA ARCE*
RESUMO: Este artigo apresenta um estudo teórico comparativo da
pedagogia desenvolvida por Friedrich Froebel e da teoria da atividade
(Leontiev, Elkonin e Vigotski) no que diz respeito ao jogo e ao desenvolvimento
infantil. Ainda que essas duas abordagens considerem
o jogo uma atividade muito importante no desenvolvimento da criança,
elas diferem em sua visão do que seja o significado do jogo no
contexto do processo de formação do indivíduo. Essa divergência é
uma conseqüência de suas opostas concepções acerca da relação entre
a natureza humana e a história.
Palavras-chave: Jogo. Froebel. Elkonin. Leontiev. Teoria da atividade.
PLAY AND CHILD DEVELOPMENT IN
ACTIVITY THEORY AND FRIEDRICH FROEBEL’S EDUCATIONAL THOUGHT
ABSTRACT: This article presents a theoretical comparative study of
the pedagogy developed by Friedrich Froebel versus activity theory
(Leontyev, Elkonin and Vygotsky) concerning play and child development.
While both approaches consider play as a very important
activity in a child’s development, they differ in their view of the
meaning of play within the context of the individual formation process.
This divergence is a consequence of opposing conceptions of
the relationship between human nature and history.
Key words: Play. Froebel. Elkonin. Leontyev. Activity theory.
* Professora do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da USP, campus de Ribeirão Preto, e membro dos Grupos de Pesquisa “História,
Sociedade e Educação no Brasil” e “Estudos Marxistas em Educação”. E-mail:
alessandraa@ffclrp.usp.br e learce@uol.com.br
10 Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004
Disponível em
O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
objetivo deste artigo é analisar as semelhanças e diferenças entre,
por um lado, Froebel e, por outro, Elkonin e Leontiev, no
que diz respeito às contribuições que esses autores deram à psicologia
do desenvolvimento infantil e à educação pré-escolar. Para isso
faremos uma comparação entre as idéias de Froebel e as da teoria da
atividade acerca do papel do jogo no desenvolvimento da criança em
idade pré-escolar. Dividimos este texto em três partes. A primeira destina-
se a apresentar de forma breve a concepção de Froebel de desenvolvimento
infantil e do papel do jogo. A segunda apresenta as concepções
de Elkonin e Leontiev também sobre o desenvolvimento
infantil e o jogo. Na terceira parte apresentamos as conclusões a que
chegamos com essa análise comparativa.
O jogo em Froebel – a auto-atividade e a unidade vital respeitando
o desenvolvimento infantil
Para apresentarmos os princípios norteadores do desenvolvimento
infantil que alicerçam a concepção de jogo de Froebel,1 utilizaremos
duas obras deste autor: A educação do homem (The education
of man) e a Pedagogia dos jardins-de-infância (Pedagogics of the
Kindergarten).
Froebel em seu livro A educação do homem inicia sua explicação
de como se dá o desenvolvimento humano, em especial o infantil,
afirmando que Deus é o princípio de tudo e que a vida do homem
deve buscar harmonizar-se com sua divindade e com todas as outras
criações divinas. O divino presente em cada coisa que existe sobre a
terra revela sua essência. O homem deve procurar esta essência divina
no interior de si mesmo para então cultivá-la e exteriorizá-la em suas
criações. Jesus é para Froebel um exemplo da luta espiritual que devemos
travar em busca de nossa perfeição e da nossa união com Deus
e a Natureza. Esta lei eterna e divina, à qual Froebel se refere, guia o
desenvolvimento de todos os seres na Terra. Apesar das particularidades
que envolvem o desenvolvimento dos seres e os fenômenos da Natureza,
nós podemos, por meio do acompanhamento desse processo,
compreender como se dá o desenvolvimento humano.
Por isso encontraremos em toda a obra de Froebel a constante
comparação do desenvolvimento da criança com o das sementes; a criCad.
Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004 11
Disponível em
Alessandra Arce
ança para Froebel é como uma semente a ser cultivada e, conseqüentemente,
o educador alemão procurará a harmonização do homem
com a Natureza desde a mais tenra idade. Para Froebel o princípio a
partir do qual todos os homens seriam iguais se encontrava na relação
entre infância e Natureza. Somente conhecendo as relações entre infância,
Natureza e Deus é que poderíamos presentear cada indivíduo
com o autoconhecimento e a aceitação de seu lugar em nossa sociedade.
Como conseqüência desse processo teríamos uma sociedade melhor.
Esta relação entre Deus, Natureza e Humanidade era representada
por Froebel (1887) por meio de um triângulo. Os três elementos
dessa tríade seriam inseparáveis uns dos outros. Essa tríade formaria
o que Froebel denominava “unidade vital”, na qual a educação deveria
estar alicerçada para poder conduzir o indivíduo ao desenvolvimento
pleno. Dentro do princípio da “unidade vital” os processos de
interiorização e exteriorização seriam fundamentais, pois levariam à
clarificação da consciência ao autoconhecimento, ou seja, à educação.
A formação e o desenvolvimento ocorrem graças ao que o homem recebe
do mundo exterior, mas só se efetivam de modo eficaz quando
se sabe, por assim dizer, tocar no seu mundo interior. Este processo
chamado de interiorização consiste no recebimento de conhecimentos
do mundo exterior, que passam para o interior, seguindo sempre
uma seqüência que deve caminhar do mais simples ao composto, do
concreto para o abstrato, do conhecido para o desconhecido. A atividade
e a reflexão são os instrumentos de mediação desse processo nãodiretivo,
o que garante que os conhecimentos brotem, sejam descobertos
pela criança da forma mais natural possível. O processo
contrário a este é chamado de exteriorização, no qual a criança
exterioriza o seu interior. Para que isso ocorra, a criança necessita trabalhar
em coisas concretas como a arte e o jogo, excelentes fontes de
exteriorização. Uma vez exteriorizado seu interior, a criança passa a ter
autoconsciência do seu ser, passa a conhecer-se melhor: é assim que a
educação acontece. Para Froebel a educação deveria estar alicerçada na
“unidade vital” (Homem, Deus e Natureza) e os processos de
exteriorização e interiorização deveriam nortear qualquer metodologia
que viesse a ser utilizada com as crianças. Estes processos de
exteriorização e interiorização precisam da ação para mediá-los, necessitam
de vida e atividade, não de palavras e conceitos. Froebel via
na exteriorização e na interiorização a concretização de algo natural
12 Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004
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O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
na criança, devendo o educador estar sempre atento a esses dois processos,
pois toda a atividade externa da criança é fruto de sua atividade
interna.
Agir pensando e pensar agindo era, para Froebel, o melhor método
para evitar que o ensino por demais abstrato prejudicasse o desenvolvimento
dos talentos dos alunos. Esse método preconizado por
Froebel levaria os alunos à compreensão da tríade que guia todas as
suas vidas abrindo, portanto, as portas para se atingir a perfeição como
ser humano. O aprender fazendo, proposto por Froebel, respeita, antes
de tudo, a metodologia natural das crianças. Segundo Froebel, a
máxima que deve reger toda a educação é “(...) observar, apenas observar,
pois a criança mesma te ensinará” (apud Cole, 1907, p. 26).
Somente assim o professor será capaz de conhecer realmente seu aluno,
entendendo sua dinâmica interna e descobrindo sua essência humana,
seu potencial, seu talento. Em seu livro Pedagogia dos jardinsde-
infância, Froebel reforça este princípio afirmando que todo o
esforço da educação e dos educadores deve estar voltado para o
favorecimento do desenvolvimento livre e espontâneo do indivíduo.
Todo ser humano, tendo sido criado por Deus, também possui imensa
criatividade.
A educação, trabalhando com o princípio da “unidade vital”, a
partir da ação que favorece a exteriorização e a interiorização, leva a
criança, segundo Froebel, a conhecer e reconhecer Deus em todas as
suas obras, especialmente na Natureza. Essa forma de educação também
levaria a criança a se reconhecer dentro dessa “unidade vital”,
harmonizando-se com ela. Por trabalhar de forma fragmentada, a escola
não consegue perceber essa unidade, seu trabalho é morto, o exterior
e o interior são justapostos, tornando-se impossível uma aprendizagem
viva. O educador deveria respeitar a Natureza, a ação de
Deus e a manifestação espontânea do educando. A educação deve seguir
o livre desenvolvimento, não podendo ser prescritiva, determinista
e interventora, pois assim destrói a origem pura da Natureza
do educando. Por isso, Froebel utiliza o termo “educação sequitória”,
ou seja, aquela que vigia e protege as energias naturais da vida.
Alicerçada na experiência, essa pedagogia se centra na orientação e no
despertar da atividade espontânea da criança, disseminando qualidades
e aniquilando defeitos, por meio do desenvolvimento pleno da
harmonia entre Homem, Deus e Natureza.
Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004 13
Disponível em
Alessandra Arce
Em A educação do homem o educador alemão dá os primeiros
passos rumo à utilização de uma psicologia do desenvolvimento como
fundamento da educação, por intermédio da divisão do desenvolvimento
humano em estágios: a primeira infância, a infância e a idade
escolar. Esses estágios são apresentados por Froebel de forma muito
mais detalhada do que o fizera Pestalozzi. Froebel atrela a cada fase
um tipo de educação que deve respeitar as características próprias da
fase. Isso fica muito claro num dos textos dessa obra, intitulado “O
homem no primeiro período da infância”. Em certo momento desse
texto Froebel explica que, se o adulto observar, por exemplo, o jogo e
a fala de uma criança, poderá compreender o nível de desenvolvimento
no qual ela se encontra. Isso significa que a observação das atividades
espontâneas da criança, como a brincadeira e a fala, é de grande
importância para o êxito da atividade educativa.
Para a realização do autoconhecimento com liberdade, Froebel
elege o jogo como seu grande instrumento, juntamente com os brinquedos.
O jogo seria um mediador nesse processo de autoconhecimento,
por meio do exercício de exteriorização e interiorização da
essência divina presente em cada criança, levando-a assim a reconhecer
e aceitar a “unidade vital”. Froebel foi pioneiro ao reconhecer no
jogo a atividade pela qual a criança expressa sua visão do mundo. Segundo
Froebel o jogo seria também a principal fonte do desenvolvimento
na primeira infância, que para ele é o período mais importante
da vida humana, um período que constitui a fonte de tudo o que
caracteriza o indivíduo, toda a sua personalidade. Por isso Froebel
considera a brincadeira uma atividade séria e importante para quem
deseja realmente conhecer a criança.
Brincadeira. – A brincadeira é a fase mais alta do desenvolvimento da criança
– do desenvolvimento humano neste período; pois ela é a representação
auto-ativa do interno – representação do interno, da necessidade e do impulso
internos. A brincadeira é a mais pura, a mais espiritual atividade do
homem neste estágio e, ao mesmo tempo, típica da vida humana como um
todo – da vida natural interna escondida no homem e em todas as coisas. Por
isso ela dá alegria, liberdade, contentamento, descanso interno e externo, paz
com o mundo. Ela tem a fonte de tudo o que é bom. A criança que brinca
muito com determinação auto-ativa, perseverantemente até que a fadiga física
proíba, certamente será um homem determinado, capaz do auto-sacrifício
para a promoção do bem-estar próprio e dos outros. Não é a expressão
mais bela da vida neste momento, uma criança brincando? – uma criança to14
Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004
Disponível em
O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
talmente absorvida em sua brincadeira? – uma criança que caiu no sono tão
exausta pela brincadeira? Como já indicado, a brincadeira neste período não
é trivial, ela é altamente séria e de profunda significância. Cultive-a e crie-a,
oh, mãe; proteja-a e guarde-a, oh, pai! Para a visão calma e agradável daquele
que realmente conhece a Natureza Humana, a brincadeira espontânea da
criança revela o futuro da vida interna do homem. As brincadeiras da criança
são as folhas germinais de toda a vida futura; pois o homem todo é desenvolvido
e mostrado nela, em suas disposições mais carinhosas, em suas
tendências mais interiores. (Froebel, 1887, p. 55-56)
Em seu livro Pedagogia dos jardins-de-infância (1917, p. 93),
Froebel reforça a idéia acima exposta ressaltando que a brincadeira é a
chave para nos comunicarmos e conhecermos a criança pequena. O
autor ainda destaca que a brincadeira desenvolve as características humanas
das crianças, auxiliando meninos e meninas a encontrarem e
exercerem desde cedo o papel que lhes cabe na sociedade.
Muitas características humanas desenvolvem-se na criança pela sua brincadeira
com a boneca, porque em razão disso sua própria Natureza se tornará,
em um certo tempo, objetiva e daí reconhecível para a criança e para os pensativos
e observadores pais e babás. Daí se tornar visível mais tarde, através
da e pela diferença espiritual, a diferença de vocação e vida entre o menino
e a menina. O menino deslumbra-se com o brincar com a esfera e o cubo
como coisas separadas e opostas, enquanto a menina ao contrário desde cedo
se deslumbra com a boneca, o que intimamente une em si os opostos da esfera
e do cubo. O significado interno deste fato é que o menino pressente
cedo e sente seu destino – comandar a e penetrar na Natureza externa – e a
menina antecipa e sente seu destino – cuidar da Natureza e da vida. Isso
aparece um pouco mais tarde. Assim como a união do esférico e do angular
é, especialmente para a garota, uma boneca, uma criança de brincadeira, da
mesma forma a régua da mãe, ou a bengala do pai são, para o garoto, um cavalo,
um cavalinho de pau. O último expressa o destino masculino do garoto,
aquele de dominar a vida; o primeiro expressa o destino feminino da menina,
de cuidar da vida. (Froebel, 1917, p. 93)
Froebel reconhecia que o jogo varia conforme a idade da criança.
O professor não deve menosprezar esse aspecto, mas sim, ao contrário,
observá-lo com atenção e trabalhá-lo adequadamente, auxiliando
assim o desenvolvimento infantil. No capítulo em que Froebel
descreve a infância, em A educação do homem (1887, p. 112-113), ele
chama a atenção para as diferenças existentes entre as brincadeiras na
primeira infância e na infância. Na primeira infância as brincadeiras
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Disponível em
Alessandra Arce
seriam mais centradas na atividade, no movimento, no início do processo
de exteriorização da criança. No período chamado por Froebel
de infância, a brincadeira seria mais grupal que no período da primeira
infância. Esse caráter grupal da brincadeira na infância produziria
o desenvolvimento moral das crianças e as prepararia para a convivência
em harmonia.
Na obra Pedagogia dos jardins-de-infância (1917), Froebel apresenta-
nos os seus brinquedos criados para auxiliar a brincadeira infantil
sem ferir seu desenvolvimento natural. Os brinquedos criados
para este fim foram chamados de “dons”. Froebel assim chamou esses
brinquedos, ou materiais educativos, porque eles seriam uma espécie
de “presentes” dados às crianças, ferramentas para ajudá-las a descobrir
os seus próprios dons, isto é, descobrir os presentes que Deus
teria dado a cada uma delas. Com esses brinquedos Froebel cristalizou
importantes concepções a respeito do jogo, como por exemplo:
ele observou que o jogo só funciona se as regras são bem entendidas;
a continuação do jogo requer sempre a introdução de novos materiais
e idéias; por essa razão existem muitas ocasiões nas quais o adulto
deve brincar junto com a criança para auxiliá-la e manter vivo seu interesse.
Todos os jogos de Froebel que envolvem os “dons” sempre começavam
com as pessoas formando círculos, dançando, movendo-se e
cantando. Dessa forma elas atingiriam a perfeita unidade. Froebel percebeu
também, por meio desses jogos e brincadeiras, a grande força
que os símbolos possuem para a criança. Assim Froebel elegia a brincadeira
e os brinquedos como mediadores tanto no processo de apreensão
do mundo pela criança, por meio da interiorização, como também
no processo de conhecimento de si mesma pela criança (autoconhecimento),
por meio da exteriorização. Por essa razão o criador
dos Kindergarten entendia que os brinquedos e as brincadeiras não poderiam
mais ser escolhidos ao acaso. Eles deveriam ser estudados para
que se pudesse oferecer às crianças as atividades mais adequadas ao
seu nível de desenvolvimento.
Foi em seus jardins-de-infância que o autor procurou desenvolver
plenamente o trabalho com os dons. Nessas instituições ele conseguiu
reunir todos os seus princípios educacionais. Por isso, segundo
Liebschner (1992), não teria sido fácil para Froebel achar um
nome adequado para essa instituição, procurando durante vários meses
um nome que melhor se adequasse a esse novo estabelecimento.
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Disponível em
O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
Ele não queria empregar a palavra “escola” por considerar que ela traria
o sentido de se estar colocando coisas na cabeça da criança, ensinando
algo, e não era esse o propósito dessa instituição. Seu propósito
residia em guiar, orientar e cultivar nas crianças suas tendências
divinas, sua essência humana por meio do jogo, das ocupações e das
atividades livres, tal como Deus faz com as plantas da Natureza. A
palavra alemã Kindergarten (jardim de crianças) conseguiu unir todas
estas idéias e princípios. Assim, estava criada a instituição na qual todos
os preceitos até aqui expostos iriam ser aplicados em toda a sua
plenitude, principalmente o que se refere ao respeito ao desenvolvimento
da criança e à subordinação da educação ao estágio no qual se
encontrasse tal desenvolvimento.
A teoria da atividade e o jogo – Elkonin e Leontiev e a psicologia
histórico-cultural
Ao fazermos a comparação entre Froebel e a psicologia sóciohistórica
não podemos deixar de ressaltar que não nos esquecemos do
fato de que Froebel viveu num contexto social e cultural totalmente
distinto e também não deixamos de reconhecer seu pioneirismo, especialmente
considerando que ele formulou suas concepções numa
época na qual a psicologia ainda não surgira como um campo da ciência.
Ao fazermos essa comparação entre Froebel de um lado e, de
outro, Elkonin, Leontiev e Vigotski, nosso foco se concentra principalmente
nas distintas concepções de ser humano e de sociedade e,
conseqüentemente, nas distintas concepções a respeito do jogo e do
desenvolvimento infantil.



Como vimos acima, Froebel realizou importantes descobertas a
respeito do jogo e do desenvolvimento infantil em seus estudos. Entretanto,
a base de suas discussões residia em uma infância naturalizada,
divina e universal. Fruto do divino, a infância era vista por
Froebel como o que de mais puro e bom existe no ser humano. Conseqüentemente,
este período da vida humana necessitaria de tempo,
tal qual uma flor. Essa fase do desenvolvimento humano deveria ser
preservada, resguardada de qualquer coisa que pudesse vir a perturbála.
Para Froebel existiria uma lei divina e eterna capaz de regular o
desenvolvimento infantil, tal como ocorreria com o desenvolvimento
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Disponível em
Alessandra Arce
de tudo o que existe na natureza. Perturbar impedindo que essa lei se
cumpra seria o mesmo que destruir a semente mais perfeita criada por
Deus: a criança e sua infância.
No século XX surgiu na União Soviética uma escola de psicólogos
estudando o desenvolvimento infantil e o papel da educação de maneira
oposta à do citado pedagogo alemão. Entre estes estudiosos encontramos
Vigotski, Leontiev e Elkonin. Mas por que seria a abordagem
dessa escola soviética oposta à de Froebel sobre o desenvolvimento infantil
e o papel do jogo na educação de crianças menores de seis anos?
Elkonin, em seu texto Toward the problem of stages in the mental
development of children (2000), discute a complexa questão da divisão
do desenvolvimento infantil em estágios de acordo com a faixa
etária ou com a aquisição de determinados patamares de desenvolvimento
cognitivo, os quais deveriam ser frutos da universalização do
acesso à educação escolar, o que levaria cada indivíduo a desenvolver
ao máximo as suas potencialidades, como ser pertencente ao gênero
humano. Sendo um psicólogo compromissado com a construção de
uma sociedade socialista, Elkonin entendia que a escola deveria também
estar compromissada com a construção dessa sociedade. Somente
dessa forma a escola contribuiria para o pleno desenvolvimento do
ser humano. Apoiados na concepção materialista-dialética de homem
e sociedade, Elkonin, Leontiev e Vigotski desenvolveram uma corrente
da psicologia que estudou o desenvolvimento humano e, como parte
desse estudo, analisou o papel do jogo na educação e no desenvolvimento
de crianças menores de seis anos.
Conseqüentemente, ao contrário de Froebel, estes autores viam
a infância e seu desenvolvimento fortemente conectados com a educação
e com a sociedade na qual a criança está inserida. Elkonin
(2000), apoiado também nos estudos de outro soviético, Blonski,
afirma que não existe um desenvolvimento da infância universal, único
e natural. O desenvolvimento infantil é passível de mudanças históricas.
As crianças de hoje não se desenvolvem da mesma forma que
as crianças do século XVIII se desenvolveram. A infância não é eterna
e imutável, nem dependente majoritariamente do subjetivo que existe
em cada indivíduo, em seu interior. As condições culturais, econômicas,
sociais, históricas são fatores decisivos neste desenvolvimento.
Crianças vivendo numa mesma época histórica podem apresentar dife18
Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004
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O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
rentes processos de desenvolvimento em conseqüência das diferenças
existentes em suas atividades. Essas atividades são sempre situadas num
determinado contexto social e cultural. Elkonin, Leontiev e Vigotski
não acreditavam em uma essência humana de origem do homem divina
e espiritual. Fundamentar os estudos sobre o desenvolvimento humana
nesse tipo de crença seria colocar-se longe da ciência e do pressuposto
marxista de que o ser humano constrói a sua própria história
assim como é por ela construído. Por essa razão, Leontiev em seu livro
O desenvolvimento do psiquismo (1978) faz a seguinte afirmação:
Se um ser inteligente vindo de outro planeta visitasse a Terra e descrevesse as
aptidões físicas, mentais e estéticas, as qualidades morais e os traços do comportamento
de homens pertencentes às classes e camadas sociais diferentes
ou habitando regiões e países diferentes, dificilmente se admitiria tratar-se de
representantes de uma mesma espécie. Mas esta desigualdade entre os homens
não provém das suas diferenças biológicas naturais. Ela é o produto da
desigualdade econômica, da desigualdade de classes e da diversidade consecutiva
das suas relações com as aquisições que encarnam todas as aptidões e
faculdades da natureza humana, formadas no decurso de um processo sóciohistórico.
(Leontiev, 1978, p. 274)
Essa teoria sócio-histórica da formação dos seres humanos é
oposta à concepção de Froebel já apresentada aqui. Este, como vimos,
não concebia a infância como sendo influenciada e produzida pelo
processo histórico da humanidade como um todo. A visão romântica
e idílica que Froebel tinha da infância humana lhe possibilitava pensar
em um desenvolvimento eterno, divino, natural e universal.
Vigotski afirmava que o desenvolvimento infantil é um processo
dialético, a passagem de uma fase a outra é marcada não pela simples
evolução (como afirmava Froebel), mas por uma revolução que
implicaria mudanças qualitativas na vida da criança. Esse processo não
pode ser separado assepticamente da inserção da criança na sociedade
e do reflexo desta nas necessidades da criança, em seus motivos e em
seu desenvolvimento intelectual. Elkonin afirma que a tentativa de separação
do desenvolvimento infantil em diferentes âmbitos é uma característica
da busca de naturalização desse desenvolvimento, separação
essa que produz muitos dos dualismos tão presentes nas várias
abordagens existentes na psicologia do desenvolvimento. Somente
com a superação dessa forma de se estudar o desenvolvimento é que
seremos capazes de entendê-lo verdadeiramente.
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Disponível em
Alessandra Arce
Tal perspectiva naturalizante do desenvolvimento infantil, primeiramente,
vê a criança como um indivíduo isolado, para o qual a sociedade não passa
de um “mero hábitat” sui generis. Em segundo lugar, o desenvolvimento
mental é visto como um simples processo de adaptação às condições de vida
existentes na sociedade. Em terceiro lugar, a sociedade é vista como a união
de dois elementos distintos: “o mundo dos objetos” e o “mundo das pessoas”,
ambos dados pelo ambiente no qual a criança se encontra. Como conseqüência,
em quarto lugar aparece o desenvolvimento de dois mecanismos
diferentes de adaptação: um para o “mundo dos objetos” e outro para o
“mundo das pessoas”; a isso se reduziria o desenvolvimento mental. Sendo
assim, o desenvolvimento mental seria, nessa concepção, o desenvolvimento
desses mecanismos de adaptação a esses diferentes mundos traduzidos na
vida infantil como: o “mundo da criança e os objetos” e o “mundo da criança
e os outros”. (Elkonin, 2000, p. 4)
Dentro deste quadro teórico, rapidamente esboçado, é que aparece
a brincadeira e o jogo na educação pré-escolar para estes autores.
Leontiev, Elkonin e Vigotski concordam que o jogo é a atividade principal3
nesse período da infância. Como esses autores partem de uma
visão oposta à de Froebel do desenvolvimento infantil, encontramos
no estudo por eles realizado do jogo princípios também opostos aos
princípios froebelianos.
Para Leontiev e Elkonin (ambos apoiados nos estudos realizados
também por Vigotski) a brincadeira não é uma atividade instintiva
na criança. Para esses autores a brincadeira é objetiva pois ela é
uma atividade na qual a criança se apropria do mundo real dos seres
humanos da maneira que lhe é possível nesse estágio de desenvolvimento.
Esses autores afirmam que a fantasia, a imaginação que é um
componente indispensável à brincadeira infantil, não tem a função de
criar para a criança um mundo diferente do mundo dos adultos, mas
sim de possibilitar à criança se apropriar do mundo dos adultos a despeito
da impossibilidade de a criança desempenhar as mesmas tarefas
que são desempenhadas pelo adulto. Por exemplo, ao brincar de motorista
de ônibus ela precisa usar da fantasia para substituir as operações
reais realizadas por um motorista de ônibus pelas operações que
estejam ao seu alcance. Mas isso não é uma forma de se afastar do
mundo real no qual existem motoristas de ônibus e sim, ao contrário,
de se aproximar cada vez mais desse mundo.
Para Froebel o brinquedo é um ato que faz parte da natureza
infantil, sendo assim a atividade principal desta faixa etária a única
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O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
forma que a criança tem de expressar seu mundo interior, de conhecer-
se e de harmonizar-se com a tríade da Unidade Vital. A criança
necessita simbolizar seu interior em objetos. A brincadeira proporciona
essa simbolização. Assim a brincadeira leva a criança a descobrir
sua essência divina e também leva o adulto, que observa a criança
brincando, a descobrir como essa criança está inserida nos planos do
Criador para os seres humanos.
Para Leontiev e Elkonin, a brincadeira é a atividade principal2
do período pré-escolar, mas as razões para esta afirmação são distintas
das de Froebel. A começar por como Leontiev descreve o status de atividade
principal no desenvolvimento infantil de uma atividade:
O que é, em geral, a atividade principal? Designamos por esta expressão não
apenas a atividade freqüentemente encontrada em dado nível do desenvolvimento
da criança. O brinquedo, por exemplo, não ocupa, de modo algum,
a maior parte do tempo de uma criança. A criança pré-escolar não brinca
mais do que três ou quatro horas por dia. Assim, a questão não é a quantidade
de tempo que o processo ocupa. Chamamos de atividade principal aquela
em conexão com a qual ocorrem as mais importantes mudanças no desenvolvimento
psíquico da criança e dentro da qual se desenvolvem processos
psíquicos que preparam o caminho da transição da criança para um novo e
mais elevado nível de desenvolvimento. (Leontiev, 1988, p. 122)
Vemos, então, que a brincadeira se constitui em atividade principal
porque na idade pré-escolar ela provoca estas “revoluções” no desenvolvimento
infantil. Vigotski (1984) expõe ser incorreto afirmar
que a brincadeira seria um protótipo da atividade cotidiana da criança.
Essa afirmação não está em conflito com a teoria da atividade
principal desenvolvida por Leontiev e Elkonin, pois eles não afirmam
que a brincadeira, como atividade principal da idade pré-escolar, levaria
a criança, em seu cotidiano, a agir de maneira fantasiosa, a agir
movida pela imaginação e não pela realidade objetiva. Leontiev afirma
claramente que a ruptura entre significado e sentido estabelecida
durante a brincadeira é abandonada imediatamente assim que a criança
deixa de brincar. Isso quer dizer que a criança em seu cotidiano
age movida pela realidade objetiva e não se deixa dominar pela fantasia
existente no momento da brincadeira.
A brincadeira, segundo Vigotski (1984, p. 117), é a atividade
principal porque “cria uma zona de desenvolvimento proximal da criCad.
Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004 21
Disponível em
Alessandra Arce
ança”, ou seja, no brinquedo a criança realiza ações que estão além do
que sua idade lhe permite realizar, agindo no mundo que a rodeia tentando
apreendê-lo. Neste ponto o papel da imaginação aparece como
emancipatório: a criança utiliza-se da imaginação na brincadeira como
uma forma de realizar operações que lhe são impossíveis em razão de
sua idade. A criança reproduz ao brincar uma situação real do mundo
em que vive, extrapolando suas condições materiais reais com a ajuda
do aspecto imaginativo. Para que a criança possa tornar real uma operação
impossível de ser realizada na sua idade, ela utiliza-se de ações
que possuem um caráter imaginário, o faz-de-conta entra em cena, gerando
uma discrepância, segundo Leontiev (1988), entre a operação
que deve ser realizada (por exemplo andar a cavalo) e as ações que formam
essa operação (por exemplo selar o cavalo, montar no cavalo etc.).
Como a criança não pode usar um cavalo real, ela utiliza-se de um cabo
de vassoura, por exemplo, como se este fosse seu cavalo. Isso ocorre porque
a criança tem como alvo o processo e não a ação. Outro exemplo é
a brincadeira com uma boneca. A criança ao brincar com a boneca repete
situações ou acontecimentos presentes na vida adulta, como por
exemplo cuidar de um bebê. Ao fazê-lo ela imita a forma como a mãe
cuida do irmão mais novo. Por isso Vigotski (1984, p. 117) afirma que
o brinquedo “é muito mais a lembrança de alguma coisa que realmente
ocorreu do que imaginação”. Leontiev (1988, p. 126) afirma que na
brincadeira todas as operações e ações que a criança realiza são reais e
sociais; por meio delas a criança busca apreender a realidade. Leontiev
apresenta um exemplo de crianças brincando de vacinação contra a varíola.
Nessa brincadeira as crianças imitavam a seqüência real da ação
realizada para a vacinação. Primeiro passava-se álcool na pele e depois
era aplicada a vacina. O adulto pesquisador que observava essa brincadeira
propôs às crianças a utilização de álcool de verdade, o que foi recebido
com entusiasmo pelas crianças. Mas então ele disse que precisaria
pegar o álcool em outra sala e sugeriu que elas fossem aplicando a
vacina enquanto ele iria buscar o álcool e deixassem para passar o álcool
ao final do processo. As crianças não aceitaram a sugestão e preferiram
não usar álcool de verdade, mas manter a seqüência real da ação.
Desse exemplo Leontiev extrai a seguinte conclusão:
Em um jogo, as condições da ação podem ser modificadas: pode-se usar papel,
em vez de algodão; um pedacinho de madeira ou um simples pauzinho,
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O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
em vez de agulhas; um líquido imaginário em vez de álcool, mas o conteúdo
e a seqüência da ação devem, obrigatoriamente, corresponder à situação real.
(...) É preciso acentuar que a ação, no brinquedo, não provém da situação
imaginária mas, pelo contrário, é essa que nasce da discrepância entre a operação
e a ação; assim, não é a imaginação que determina a ação, mas são as
condições da ação que tornam necessária a imaginação e dão origem a ela.
(Leontiev, 1988, p. 126-127)
Na brincadeira a criança cria uma ruptura entre sentido e significado
de um objeto, isto é, um pequeno pedaço cilíndrico de madeira
não perde seu significado para a criança mas durante a brincadeira
esse objeto pode assumir para a criança o sentido de uma seringa
de aplicação de vacina. Importante destacar que a criança não realiza
essa ruptura antes de iniciar a brincadeira nem mesmo depois de encerrada
a brincadeira. Somente durante a atividade é que se faz necessária
a imaginação.
Mas qual seria o tipo de brincadeira mais marcante para as crianças
em idade pré-escolar, isto é, na faixa dos três aos seis anos de
idade? O jogo protagonizado ou jogo de papéis. Segundo Elkonin
(1998, p. 31), nesse tipo de brincadeira “influi, sobretudo, a esfera
da atividade humana, do trabalho e das relações entre as pessoas e,
por conseguinte, o conteúdo fundamental do papel assumido pela
criança é precisamente a reconstituição desse aspecto da realidade”.
Essa realidade que circunda a criança, segundo o autor, pode ser dividida
em duas esferas: a dos objetos e a das atividades humanas. Em
um primeiro momento de sua vida, a criança concentra sua atividade
nos objetos e nas ações que os adultos realizam com esses objetos. Entretanto,
à medida que o jogo protagonizado vai evoluindo, o foco
desloca-se destes para as relações que as pessoas estabelecem entre si,
mediante suas ações com os objetos, ou seja, a criança passa a interessar-
se pelas relações travadas entre os seres humanos e passa a reproduzi-
las em suas brincadeiras.
Elkonin (idem, p. 35) afirma que a atividade e as relações humanas
possuem um impacto tão grande no jogo protagonizado que seu
tema pode variar, contudo o conteúdo sempre permanece o mesmo,
qual seja, “a atividade do homem e as relações sociais entre as pessoas”.
É na pré-escola que o jogo protagonizado se desenvolve intensamente
e alcança o nível máximo quando a criança deixa a fase da
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Alessandra Arce
atividade de manipulação dos objetos. Importante ressaltar, segundo
Elkonin, a necessidade de se expor essa criança às mais ricas situações
e produções humanas, pois, quanto maior e mais rica for sua inserção
no mundo que a circunda, mais a criança desenvolverá suas capacidades.
Elkonin afirma que:
(...) A base do jogo é social devido precisamente a que também o são sua natureza
e sua origem, ou seja, a que o jogo nasce das condições de vida da criança
em sociedade. As teorias do jogo que o deduzem dos instintos e dos impulsos
internos marginalizam, de fato, a questão de sua origem histórica. Ao
mesmo tempo, a história do surgimento do jogo protagonizado é justamente
aquela que pode nos revelar a sua natureza. (Elkonin, 1998, p. 36)
Assim, o jogo protagonizado, para Elkonin, constitui-se em uma
fonte preciosa para o desenvolvimento infantil durante a idade pré-escolar.
O jogo é um dos mecanismos dentro e fora da escola capazes de
auxiliar a criança a apreender o conjunto das riquezas produzidas pela
humanidade, gerando revoluções no desenvolvimento infantil.
Considerações finais
Este estudo aqui apresentado possuiu um caráter preliminar,
entretanto a exposição realizada de forma sucinta de ambas as teorias
possibilita-nos visualizar grandes distinções. Se por um lado temos
Froebel atrelando a infância e seu desenvolvimento à Natureza e ao
Divino, por outro encontramos Leontiev, Elkonin e Vigotski procurando
apreender a infância dentro de todo o conjunto de aspectos que
compõem nossa organização social como fruto da história que foi escrita
pela humanidade. Portanto, Froebel aponta para uma visão romântica
e naturalizante tanto do desenvolvimento infantil quanto do
jogo, ao passo que a escola soviética da psicologia se calca no materialismo
histórico-dialético para estudá-los. Dois períodos distintos da
história da humanidade cruzaram-se neste texto com o intuito de
mostrarmos quão radicais são as diferenças com relação ao jogo quando
tomamos como ponto de partida uma visão de homem e sociedade
centrada em uma concepção mística, subjetivista, naturalizante e
alienada; e outra que busca compreender o homem como protagonista
e fruto da história visando a propiciar a esse homem a apreensão
deste movimento e das riquezas produzidas. Não podemos deixar de
24 Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004
Disponível em
O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento...
destacar que a concepção de Froebel influenciou muitos educadores e
principalmente aparece como pioneira dentro do movimento que mais
tarde se constituiria sob a nomenclatura de Movimento Escolanovista.
Assim, ao criticarmos os fundamentos de sua teoria esta se estende a
todos os educadores que procuram pensar o desenvolvimento infantil a
partir de princípios similares. Esta também é a crítica que está
subjacente às exposições da escola soviética, tornando-as incompatíveis
com as mesmas. Impossibilitando a prática de ecletismos, ou seja, a
utilização conjunta de elementos considerados válidos em ambas as teorias
sem o respeito aos diferentes alicerces teóricos, esperamos com este
artigo contribuir para o debate a respeito do papel que o jogo e a concepção
de desenvolvimento infantil desempenham na constituição de
uma concepção de educação e de infância.
Recebido em novembro de 2003 e aprovado em março de 2004.
Notas
1. Para um estudo mais detalhado da vida e obra de Friedrich Froebel, ver Arce (2002), A
pedagogia na ‘Era das Revoluções’ – uma análise do pensamento de Pestalozzi e Froebel
(Campinas: Autores Associados). Friedrich August Froebel nasceu em 21 de abril de
1782, na região sudeste da Alemanha, falecendo em 1852. Froebel pode ser considerado
o pedagogo dos Jardins de Infância, instituição destinada a educar crianças menores de 06
anos fundada em 1840 na cidade de Blankenburg.
2. A expressão original em russo é “veduschaya deyatelnost”. As edições em português de textos
de Leontiev têm adotado ora a expressão “atividade principal”, ora a expressão “atividade
dominante”.
Referências bibliográficas
ARCE, A. A pedagogia na era das revoluções: uma análise do pensamento
de Pestalozzi e Froebel. Campinas: Autores Associados, 2002.
COLE, P. Herbart and Froebel: an attempt at synthesis. New York:
Teachers College; Columbia University, 1907.
ELKONIN, D.B. Psicologia do jogo. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
ELKONIN, D.B. Toward the problem of stages in the mental development
of children. Disponível em: . Acesso em: 2000.
Cad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 9-25, abril 2004 25
Disponível em
FROEBEL, F. The education of man. New York: Appleton, 1887.
FROEBEL, F. The mottoes and commentaries of Friedrich Froebel’s
mother play. Translated by Henrietta R. Eliot and Susan Blow. New
York: Appleton, 1895.
FROEBEL, F. Pedagogics of the kindergarten. Translated by Josephine
Jarvis. New York: Appleton, 1917.
KOCH, D. Friedrich Froebel, o criador do jardim-de-infância, no seu
bicentenário. Convivium, São Paulo, v. 25, p. 45-63, 1982.
KOCH, D. Desafios da educação infantil. São Paulo: Loyola, 1985.
LEONTIEV, A.N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte,
1978.
LEONTIEV, A.N. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar
In: VIGOTSKI, L.S.; LURIA, A.R.; LEONTIEV, A.N. Linguagem, desenvolvimento
e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1988. p. 119-142.
LIEBSCHNER, J. A child’s work: freedom and guidance in Froebel’s
educational theory and practice. Cambridge: Lutterworth, 1992.
OSBORN, D.K. Early childhood education in historical perspective. 3.
ed. Athens, GA: Education Associates, 1991.
VIGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
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sábado, 24 de maio de 2008

ART ATTACK

Quer tentar fazer uma arte, acompanhe , Disney Art Attack. O áudio está em espanhol mas você consegue entender. valeu
massruiz

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O que é Rinolalia?


RINOLALIA

Paulo C. Goulart

CRF.ª1107

A voz nasalada se caracteriza pela insuficiência velo faringe mediante o exame da nasolaringoscopia que estabelece o diagnostico que apresenta o esfíncter velofaríngico e de maior incidência nas fissuras labiopatais, fissura palatina, ou hipotonia do palato mole, ou alterações estruturais das vias aéreas superiores. Que de um modo geral quanto à deglutição, o bocejo se observa à ação conjunta da tuba auditiva, dos músculos elevador e tendo do véu palatino com um aumento óstio tubário durante a fala evidencia pequeno movimento medial em apenas 10% de indivíduos normais.

Nos portadores de fissura palatal, de acordo com Shprintzen a cartilagem da tuba auditiva é hipopística, o óstio faríngeo da tuba auditiva é menor e ocasionalmente não é identificado, durante a deglutição, ao invés da tuba auditiva se diltr, há uma obstrução desta provocada pela má inserção do músculo elevador do véu palatino que ao contrair-se penera no óstio tubário ocupando todo seu espaço livre, durante a fala o óstio tubário também é obstruído pela mesma alteção muscular descrita anteriormente. Existe uma estreita relação entre hipoplasia da tuba e otite média decorrente na população dos fissurados.

O espaço velofaríngeo corresponde à região anteriormente pelo véu, pelas paredes laterais da faringe posteriormente pela parede do faringe. Quando estas estruturas se contraem o espaço se fecha, promovendo um separação parcial ou completa do não e orofaringe denominando de região esfincter velofaríngeo.

A função velofaringica varia de indivíduo para indivíduo que se relaciona de quatro padrões básicos de fechamento;

1) Coronal, onde o fechamento ocorre principalmente às custas da movimentação do véu em direção a parede posterior da faringe.

2) Sagital ou longitudinal, predominando o movimento medial das paredes laterais da farinde em relação à do véu.

3) Circular equilibra o véu e das paredes laterais da faringe.

4) Circular com prega de passavam, quando a movimentação do véu, paredes laterais e parede posterior da faringe se dá de forma equilibrada.

O fechamento total ou parcial do esfincter velofangeo depende da atividade que está sendo desempenhada.

Seguindo com os estudos puderam concluir que existem dois padrões distintos de fechamento do esfíncter velo faríngeo:

- O primeiro tipo de fechamento ´le o Pneumático que ocorre durante a fala, o sopro e o assobio, fazem a movimentação das paredes laterais da faringe na altura da movimentação velar, com formação da barriga da paredes laterais.

- O segundo tipo lê o fechamento não pneumático pelo o reflexo de vômito e a deglutição, com grande movimentação das paredes d faringe em toda sua extensão.

Tem uma hierarquia de fechamento do esfíncter velo faríngeo se inicia com a deglutição, onde o fechamento é maior e decresce com o sopro, emissão de consoantes e de vogais. A altura velar durante a emissão da vogais altas “i” e “u” é maior de durante a emissão da vogal “a”.

O fechamento do esfíncter velo faríngeo envolve um complexo mecanismo neuromuscular com uma ampla variedade de graus de fechamento, podendo ir dessa posição do repouso ou na contração completa ou posições intermediárias. Essas posições ocorrem geralmente durante a emissão dos fonemas nasais, antecedendo ou sucedendo fonemas, onde tem o fechamento completo ou ainda durante a emissão de alguns fonemas orais.

Desta forma podemos constatar o grau de nasalidade que possam manifestar em indivíduos com deformidade estruturais e também os que apresentam desvio de função quanto à ação do grau de maior ou menor mobiliada mediante as características fonológicas de nosso língua e do modo fonoarticulatório manifestado pelo individuo.

A voz que apresenta uma ressonância e sonoridade faringo oral é de forma clara onde predomina a emissão dos fonemas orais e tem uma integibilidade bem compreensível pelo ouvinte.

www.iros-fonoaudiologia.med.br/RINOLALIA.doc

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Principais causas das dificuldades de aprendizagem e de ajustamento escolar



DISTÚRBIOS DA APRENDIZAGEM

Principais causas das dificuldades de aprendizagem e de ajustamento escolar

Causas físicas – São aquelas representadas pelas perturbações somáticas transitórias ou permanentes. São provenientes de qualquer perturbação do estado físico geral da criança/ como por exemplo: febre, dor de cabeça, dor de ouvido, colocas intestinais, anemia, asma, verminoses e todos os males que atinjam o físico de uma pessoa, levando-a a um estado anormal de saúde.

Causas sensoriais – são todos os distúrbios que atingem os órgãos dos sentidos, que são os responsáveis pela percepção que o indivíduo tem do meio exterior. Qualquer problema que afete os órgãos responsáveis pela visão, audição, gustação, olfato, tato, equilíbrio, reflexo postural, ou os respectivos sistemas de condução entre esses órgãos e o sistema nervoso, causará problemas no modo de a pessoa captar as mensagens do mundo exterior e, portanto, dificuldade para ela compreender o que se passa ao seu redor.

Causas neurológicas – são as perturbações do sistema nervoso, tanto do cérebro, como do cerebelo, da medula e dos nervos. O sistema nervoso, comanda todas as ações físicas e mentais do ser humano. Qualquer distúrbio em uma dessas partes se constituirá em um problema de maior ou menor grau, de acordo com a área lesada.

Causas emocionais – são distúrbios psicológicos, ligados às emoções e aos sentimentos dos indivíduos e à sua personalidade. Esses problemas geralmente não aparecem sozinhos, eles estão associados a problemas de outras áreas, como por exemplo da área motora, sensorial etc.

Causas intelectuais ou cognitivas – são aquelas que dizem respeito à inteligência do indivíduo, isto é, à sua capacidade de conhecer e compreender o mundo em que vive, de raciocinar sobre os seres animados ou inanimados que o cercam e de estabelecer relações entre eles.

Causas educacionais – o tipo de educação que a pessoa recebe na infância irá condicionar distúrbios de origem educacional, que a prejudicarão na adolescência e na idade adulta, tanto no estudo quanto no trabalho. Portanto, as falhas de seu processo educativo terão repercussões futuras.

Causas sócio-econômicas – não são distúrbios que se revelam no aluno. São problemas que se originam no meio social e econômico do indivíduo. O meio físico e social exerce influência sobre o indivíduo, podendo ser favorável ou desfavorável à sua subsistência e também às suas aprendizagens.

Todas essas causas originam distúrbios, que irão se constituir nos diferentes problemas de aprendizagem.

DISTÚRBIOS DA LINGUAGEM E DA FALA

Podemos dizer que há um problema de linguagem em uma criança quando sua maneira de falar interfere na comunicação (distraindo a atenção do ouvinte sobre o que ela diz para enfoca-la no como ela diz) ou quando a própria criança se sente excessivamente tímida e/ou apreensiva com seu modo de falar. Porém, é preciso muito cuidado ao classificar a linguagem, pois a fala normal tolera muitas “anomalias”.

Mudez – esta incapacidade de articular palavras, geralmente é decorrente de transtornos do sistema nervoso central. Em boa parte dos casos, é decorrência de problemas na audição.

Atraso na linguagem - as principais características da criança que tem atraso na linguagem, são: deficiência no vocabulário; deficiência na capacidade de formular idéias e desenvolvimento retardado da estruturação de sentenças.

Problemas de articulação – as crianças de mais de 7 anos que não consegue pronunciar corretamente todas as consoantes e suas combinações apresenta um problema de articulação. Podemos citar: dislalia, que é a omissão, distorção, substituição ou acréscimo de sons na palavra falada; disartria – problema articulatório que se manifesta na forma de dificuldade para realizar alguns ou muitos dos movimentos necessários à emissão verbal; linguagem tatibite – distúrbio de articulação (e também de fonação) em que se conserva voluntariamente a linguagem infantil; rinolalia – ressonância nasal maior ou menor que a do padrão correto da fala, que pode ser causada por problemas nas vias nasais, vegetação adenóide, lábio leporino ou fissura palatina.

Afasia – se caracteriza, mais especificamente, por falhas na compreensão e na expressão verbal, relacionadas à insuficiência de vocabulário, má retenção verbal, gramática deficiente e anormal, escolha equivocada de palavras. A afasia pode ser observada em criança que: ouve a palavra mas não a interioriza com significado; demora para compreender o que é dito; apresenta gestos deficientes e inadequados; confunde a palavra ou frase com outras similares; tem dificuldade de evocação, exteriorizada por ausências de respostas ou tentativas incompletas para achar a expressão ou emissões que a substituem.

Atuação do professor frente aos distúrbios da aprendizagem

Atitudes que devem ser evitadas:

- ressaltar as dificuldades do aluno;

- corrigir o aluno com freqüência perante a classe;

- relegar ou ignorar a criança que não consegue superar sua dificuldade.

Atitudes a serem adotadas:

- evitar que o aluno se sinta inferior;

- considerar o problema de maneira serena e objetiva;

- avaliar o desempenho do aluno pela qualidade de seu trabalho.

- Estimulá-lo a enfrentar o problema, procurando superar-se;

Dislexia

A criança disléxica apresenta sérias dificuldades com a identificação dos símbolos gráficos no início da sua alfabetização, o que acarreta fracasso em outras áreas que dependem da leitura e da escrita. As principais dificuldades são:

- demora a aprender a falar, fazer laço,a reconhecer as horas, a pegar e chutar bola, a pular corda;

- escrever números e letras correspondente, ordenar as letras do alfabeto,meses do ano e sílabas de palavras compridas, distinguir esquerda e direita;

- atrapalha-se ao pronunciar palavras longas;

- dificuldade em planejar e fazer redação.

Disgrafia

Os principais erros da criança disgráfica são:

- apresentação desordenada do texto;

- margens malfeitas ou inexistentes;

- traçado de má qualidade: tamanho pequeno ou grande, pressão leve ou forte,letras irregulares ou retocadas;

- distorção da forma das letras o e a;

- movimentos contrários ao da escrita convencional;

- ligações defeituosas de letras na palavra;

- irregularidades no espaçamento das letras na palavra;

- direção da escrita oscilando para cima ou para baixo;

- dificuldade na escrita e no alinhamento dos números na página.

Autismo infantil

O autismo infantil caracteriza-se por uma interiorização intensa. Teorias interpessoais e orgânicas foram sugeridas para explicar o autismo, mas até agora nenhuma delas foi plenamente aceita.

Características da criança autista:

- solidão em grau extremo e evidente na mais tenra idade;

- ausência de sorriso social;

- não desenvolve linguagem apropriada, repete frases;

- arruma seus objetos sempre da mesma forma e ,mesmo que fique sem vê-los durante um tempo, lembra-se da sua posição;

- possui excelente memória: decora facilmente poesias, canções, aprende sempre novas palavras;

- não mantém contato visual com as pessoas;

- demonstra ansiedade freqüente, aguda, excessiva e aparentemente ilógica;

- possui hiperatividade e movimentos repetitivos, com entorpecimento nos movimentos que requerem habilidades;

- é retraída, apática e desinteressada, numa total indiferença ao ambiente que a rodeia;

- demonstra incapacidade para julgar.

Bibliografia

JOSÉ, Elisabete da Assunção & COELHO, Maria Teresa.Problemas de aprendizagem. São Paulo, Ática. 1989.

DROUET, Ruth Caribe da Rocha. Distúrbios da Aprendizagem. São Paulo, Ática.1990.

ASSUMPÇÃO JR., Francisco B. & SPROVIERI, Maria Helena. Introdução ao Estudo da Deficiência Mental. São Paulo, Memnon. 2000.

TELFORD, Charles W. & SAWREY, James M.. O indivíduo excepcional. Rio de Janeiro, Zahar Editores. 1983.

GRÜNSPUN, Haim. Distúrbios Psicossomáticos da Criança: o corpo que chora. São Paulo, Atheneu.1988.


Disciplina: Formação de Professores para uma Escola Digital e Inclusiva

Profa. Elisa Tomoe Moriya Schlünzen

Prof. Klaus Schlünzem Junior


Aluna: Cláudia Elena Slobodticov Bastos

Levantamento de informações importantes, coletadas com professors da Escola de Educação Especial Norita Tavares Dorini e da Escola Municipal Dr. Júlio Lucant de Rancharia, para possível inclusão no Portal:

- Quais os tipos de deficiência mais comuns;
- Explicação destas deficiências;
- Como tratar os alunos com dificuldades de aprendizagem;

- Algumas dicas práticas para usar no dia – a – dia;

www.nec.prudente.unesp.br/inclusao/dados/disturbios


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