segunda-feira, 7 de julho de 2008

Matemática, algumas sugestões.

Matemática
Cássia Ravena Mulin de Assis Medel Professora e Orientadora Pedagógica do CIEP 277 João Nicoláo Filho “Janjão” e da Escola Municipal Prof. Ewandro do Valle Moreira, localizadas no município de Cantagalo-RJ.

Introdução à Matemática
Aprendizagem lúdica vinculada à realidade

Dominó
Aprender com dominó é muito mais gostoso!

É importante que no trabalho com os alunos da Educação Infantil, o professor esteja ciente de que cada criança tem seu ritmo, seu tempo. Esse tempo e esse ritmo devem ser respeitados, da mesma forma que sua cultura deve ser respeitada.

Segundo Piaget, a individualização deve ser entendida como uma tentativa de se fazer o que é melhor para cada criança – o que faz mais pelo seu desenvolvimento posterior. Isto, às vezes, consistirá em atividades individuais e outras vezes, em atividades em grupo. As atividades serão selecionadas ora pelo aluno individualmente, ora pelo professor ou pelo grupo.

Outro ponto importante, é que o professor deve trabalhar as noções ou conceitos matemáticos com a criança sempre utilizando o concreto. Para isso, apresentamos a seguir, algumas sugestões de materiais e jogos que poderão ser utilizados pelo professor e confeccionados por ele próprio.

* Dominó
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer e identificar os números e quantidades representadas por eles e associar os números às quantidades correspondentes.
Número de Participantes: Grupo (3 a 4 alunos)
Tempo de Preparação: 10 minutos
Tempo de Execução: de 20 a 30 minutos.
Como confeccionar o material:
1- Utilizando cartolina colorida (colorset), escreva ou recorte e cole números de 1 a 9, sendo que uma das peças deverá ficar com um espaço em branco, pois será a que corresponderá ao número 0. Ao lado destes números, com uma linha separando, deverão ser colocadas as quantidades representadas através de animais ou outra coisa, que deverão ser colados, carimbados ou desenhados, formando assim, peças de um dominó.
2- Cole os números e as quantidades ( figura de animais, por exemplo ), um ao lado do outro, misturados.
3- Plastifique as “peças” utilizando contact transparente. Recorte-os.
Modo de Jogar: Os alunos deverão jogar como se estivessem jogando um dominó.

*Formando Conjuntos Humanos
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica.
Objetivo: Reconhecer, identificar e formar conjuntos; Reconhecer os tipos de conjuntos; Identificar o número de elementos dos conjuntos.
Número de Participantes: Todos os alunos
Tempo de Preparação: 10 minutos
Como formar os conjuntos:
Solicitar às crianças que se agrupem formando um conjunto de meninos e um conjunto de meninos. Num segundo momento, solicitar que se agrupem de acordo com a altura, ou seja, meninos mais altos e meninos mais baixos. Colocar barbante em volta dos grupos, dos conjuntos, formando os diagramas. Formar um conjunto de professoras. Perguntar ás crianças quantos elementos têm este conjunto. Elas responderão um elemento, então dizer-lhes que este é o que chamamos de conjunto unitário, isto é, aquele que possui apenas um único elemento.

* Associe ao número
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer e identificar os números e quantidades representadas por eles e associar os números às quantidades correspondentes.
Tempo de Preparação: 20 minutos
Como confeccionar o material:
1- Encape uma caixa de camisa ou uma caixa menor com papel ofício branco ou AP 24 branco, colocando dez divisões, sendo separadas por cartolina branca ou papel cartão branco.
2- Escreva em dez cartões de cartolina branca ou papel cartão branco, números de 0 a 9 e cole um número em cada divisão respeitando a seqüência numérica.
3- Separe lápis de cor ou outro material, se preferir: Um lápis na cor azul, dois na cor amarela, três na cor vermelha, quatro na cor marrom, cinco na cor verde, seis na cor laranja, sete na cor preta oito na cor rosa e nove na cor roxa.
Modo de Jogar: Cada criança deverá colocar as quantidades de lápis da mesma cor onde estiver cada número correspondente.

Ábaco
Ábaco - Lições que vem da história e que ajudam a entender a matemática!

* Ábacos
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer e identificar as quantidades e a ordem seqüencial.
Tempo de Preparação: 40 minutos
Tempo de Execução: 5 minutos
Como confeccionar o material:
1- Para a confecção deste material, precisaremos da ajuda de um marceneiro que deverá confeccionar uma placa de madeira que será a base. Em cima da base, deverão ser afixadas nove varetas.
2- Deverão ser confeccionadas argolas de madeira: Uma na cor vermelha, duas na cor azul, três na cor amarela, quatro na cor verde, cinco na cor laranja, seis na cor roxa, sete na cor rosa, oito na cor cinza e nove na cor marrom.
Modo de Jogar: Cada aluno deverá, individualmente, encaixar as argolas coloridas em cada vareta formando a seqüência de números de 1 a 9 e encaixando em cada vareta argolas de uma única cor.

*Numerais em Lixa
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Preparar os alunos para a escrita dos numerais, mostrando por onde iniciamos a escrita de cada um deles.
Número de Participantes: Individual
Tempo de Preparação: 50 minutos
Como confeccionar o material:
Adquirir nove placas de eucatex de 17 X 22 cm ou nove pedaços de papelão grosso do mesmo tamanho. Recortar e colar nove pedacos de lixa do mesmo tamanho, não muito grossa: número 80 ou número 100 e colar no eucatex ou papelão. Em seguida, recortar nove pedaços de cartolina branca ou de papel cartão, recortando numerais no centro de cada placa, de modo que fiquem vazados. Escrever e recortar numerais de 1 a 9 em cartolina colorida (colorset), de preferência de uma cor forte, como verde ou azul escuro, por exemplo, evitar fazer na cor amarela, pois esta é mais difícil do aluno visualizar.
Estes numerais de colorset deverão ser encaixados na cartolina branca ou no papel cartão e deverão ser retirados, cada vez que alguma criança for passar o dedo para perceber a forma do numeral e onde deve iniciar a sua escrita, orientado pelo professor.
Inicialmente, o professor deve retirar cada numeral colorido, um de cada vez, e passar o próprio dedo sobre a lixa, iniciando o movimento por onde se deve iniciar a escrita do numeral. Em seguida, pedir a cada criança, individualmente que repita o que foi feito pelo professor.

*Construindo Conjuntos
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer, identificar e formar conjuntos; Reconhecer os tipos de conjuntos; Identificar o número de elementos de cada conjunto e o conjunto vazio.
Número de Participantes: Individual ou em grupo.
Tempo de Preparação: 10 minutos
Como construir os conjuntos:
Utilizando giz de cera, lápis de cor, tampinhas de refrigerantes ou outro material que possa ser agrupado, forme conjuntos colocando barbante em volta de cada conjunto para formar os diagramas. Se quiser, pode colorir o barbante com guache ou cola colorida. Os conjuntos deverão ter de 1 a 9 elementos, inicialmente. Depois, pode-se acrescentar o conjunto vazio, que não terá nenhum elemento dentro dele, mas isso só deverá ser feito numa etapa posterior. Os conjuntos poderão ser formados nas mesas ou no chão da sala de aula.

Escultura de uma amarelinha
Amarelinha para chegar ao céu e também... para aprender matemática!

* Jogo: Amarelinha
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer e identificar os números.
Número de Participantes: Grupo (3 a 4 alunos)
Tempo de Preparação: 10 minutos
Como confeccionar o material:
Pinte uma Amarelinha com tinta óleo no chão da sala de aula ou do pátio, por exemplo.
Modo de Jogar:
Cada jogador deverá jogar a pedra em cada número de 1 a 8, um de cada vez e ir pulando de um pé só até chegar no Céu (que fica no final da Amarelinha, depois de todas as casas).
O jogador que chegar ao céu primeiro, sem errar, ganhará o jogo.

*Relógio de Folhas de Revista
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer e identificar as horas.
Materiais: Folhas de revista coloridas,; lápis preto; cola branca; papel cartão; placa de E.V.A com 0,3 de espessura na cor verde, azul escuro ou vermelha, de preferência; alfinete para mapa e tesoura.
Número de Participantes: Individual ou em grupo.
Tempo de Preparação: 40 minutos.
Tempo de Execução: 20 a 30 minutos.
Como confeccionar o material:

  1. Solicite aos alunos que façam 30 roletes ( canudos de papel ), utilizando as folhas de revista. Para isso, devem enrolá-las na diagonal e, no momento em que chegarem ao fim, devem fixar as pontas com cola.
  2. A seguir, dê aos alunos, já desenhado, um retângulo de papel cartão de 17,5 X 22 cm de .papel cartão. Caso seja necessário, ajude-os. Peça aos alunos para colarem os roletes neste espaço, um ao lado do outro, de maneira que fiquem juntos, o mais próximo possível. Solicite a eles que aparem as laterais com a tesoura para que todos os canudos fiquem do mesmo tamanho.
  3. Peça aos alunos para escrever os números arábicos de 1 a 12 na placa de E.V.A, e , em seguida, para recortar os números.
  4. A seguir, os alunos deverão colar os roletes ou canudos sobre o retângulo de papel cartão.
  5. Solicite que colem os números de 1 a 12, de acordo com qualquer relógio. (Mostre a eles um relógio de parede para visualizarem a disposição dos números ).
  6. Peça a eles para colocar os ponteiros um em cima do outro, com o alfinete do mapa. Eles deverão encontrar o centro do relógio e furá-lo com o alfinete, ou se for difícil para eles, o professor deverá fazer isso, para fixar os ponteiros.
  7. O relógio poderá ser pintado pelos alunos com cola colorida ou guache, pintando os roletes, ou se preferirem, ele poderá ficar na cor original das revistas.

*Jogo: Tabuleiro de Formas Geométricas
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Reconhecer e identificar as figuras geométricas: Quadrado, triângulo, retângulo e losango.
Material: 1 tábua quadrada com 18 X 18 cm de lado e uma espessura de mais de 1,5 cm e menos de 3 cm; régua; lápis preto; borracha; 25 pregos finos (de 2,5 ou 3 cm); 1 prego maior; martelo; elásticos coloridos de tamanhos diversos.
Número de Participantes: Dois alunos
Como confeccionar o material:

  1. O professor deverá marcar na tábua, com o lápis, linhas paralelas de 3 em 3 cm, na vertical e na horizontal;
  2. Na interseção das linhas, onde elas se cruzam, ele deverá marcar os 25 pontos fazendo um furo com o prego maior;
  3. Apagar as linhas de marcação;
  4. Pregar os 25 pregos nos foros marcados, deixando aproximadamente 1 cm de fora.

Modo de Jogar:
Um aluno falará o nome de uma figura geométrica e o outro deverá representá-la, utilizando o elástico colorido para desenhá-la na tábua. Vencerá aquele que conseguir desenhar corretamente as figuras geométricas solicitadas, o maior número de vezes, ou seja, quem obtiver o maior número de acertos.
*Os alunos deverão representar as figuras geométricas encaixando os elásticos coloridos nos pregos.

*Mini- mercado
Eixo de Trabalho: Matemática
Responsável: Cássia Ravena Medel, Orientadora Pedagógica
Objetivo: Aprender a comprar e vender produtos; reconhecer e identificar o dinheiro brasileiro ( cédulas e moedas ); aprender a pagar; dar troco e conferir se o troco está correto; aprender a “calcular” o que pode comprar com o dinheiro que tem e a economizar nas compras.
Número de Participantes: Grupos de 6 alunos: Um será o caixa do mini- mercado e cinco serão os compradores.
Tempo de Execução: 20 a 30 minutos
Como montar o mini- mercado:

  1. Solicitar aos alunos, demais professores e funcionários que levem para a escola embalagens vazias de produtos que são vendidos no supermercado, como por exemplo: sabão em pó, manteiga, margarina, detergente, desinfetante, leite (em caixa ), refrigerante, entre vários outros produtos.
  2. Arrumar, juntamente com os alunos, os produtos em prateleiras, agrupando os produtos por seções: Seção de Produtos de Limpeza, Seção de Gêneros Alimentícios: Massas: Pães, bolos, biscoitos e outros, Seção de Laticínios: Leite, queijo, manteiga, margarina, requeijão e outros, Seção de Utensílios do Lar: Copos, talheres, xícaras, entre outros.
  3. Confeccionar uma caixa registradora e colocar dentro dela cédulas em miniatura encapadas com contact transparente e moedas.
  4. Adquirir alguns carrinhos e cestinhas de supermercado de plástico, em miniatura, para os “fregueses” utilizarem para fazer as compras.
http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=833

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A MATEMÁTICA COMO CRIAÇÃO: UM OLHAR HISTÓRICO


O mérito inicial do conhecimento matemático


Introdução

Temos uma gama gigantesca de materiais literários e tecnológicos oriundos do próprio grande avanço do estudo de técnicas matemáticas de aplicação diária, restando, desta forma, a atitude profissional no ato de lecionar. Para alguns teóricos, como, por exemplo, Ubiratan D’Ambrósio (1999), a maior parte daquilo que hoje está nos programas curriculares de matemática é desinteressante, obsoleta e inútil aos olhos dos alunos. Inútil não só por acharem não servir para coisa alguma, mas principalmente por não darem aos professores qualquer apoio ao desenvolvimento da criatividade e das capacidades cognitivas. Donde surge o desafio aos educadores matemáticos para justificarem a presença da grande maioria dos conteúdos dos programas quanto à sua aplicabilidade. Uma mínima revisão histórica mostra a obsolescência dos conteúdos. Na grande maioria são temas e estilos de mais de duzentos anos. Não acompanham a dinâmica do mundo atual. E o fato de ser desinteressante está evidente na fala e atitude de alunos e mesmo adultos sobre matemática. A importância e a beleza da matemática quase não aparecem nas práticas escolares, apenas são mencionadas no discurso com que se procura impor a matemática nos sistemas escolares. A matemática é uma disciplina que está muito perto do alunado, tão perto quanto à língua materna.

1. A MATEMÁTICA COMO CRIAÇÃO: UM OLHAR HISTÓRICO

1.1 – O mérito inicial do conhecimento matemático

O conhecimento matemático se originou nas regiões banhadas pelo Mar Mediterrâneo, privilegiando uma determinada região e um momento na evolução da humanidade. De fato, mesmo reconhecendo que outras culturas tiveram influência na evolução dessa forma de conhecimento, sua organização intelectual e social é devida aos povos dessas regiões. Por várias razões, ainda pouco explicadas, a civilização ocidental, que resultou dessas culturas, veio a se impor a todo o planeta. Com ela, a matemática, cuja origem se deve às civilizações mediterrâneas, particularmente à Grécia antiga, também se impôs a todo o mundo.

“A arquitetura da matemática que nos foi doada pelo pensamento grego dos V e IV séculos a.C., e sistematizada por Euclides em sua obra ELEMENTOS (stoicheia), três séculos antes de nossa era. Sem nos reportarmos à China ou à Índia, sabemos do apreciável conhecimento matemático dos egípcios e do substancial conhecimento matemático dos babilônios em épocas que precederam os séculos acima assinalados. No entanto, em que pese o enorme volume dos achados arqueológicos provenientes dessas civilizações, não conseguimos encontrar, em seus textos matemáticos, nada que lembre, o mais remotamente possível, a idéia de uma demonstração. Suas obras são coletâneas de problemas, mais ou menos interessantes, cujas soluções são encaminhadas por meio de passos recomendados, como instruções para as etapas de um ritual, sem qualquer explicação.” ( BICUDO, 1999)

Junto com o surgimento do Novo Mundo, a ciência moderna nasceu. Enquanto o chamado Velho Mundo se deslumbrava com a nova realidade que representou o Novo Mundo, e a partir de então, sua evolução do conhecimento matemático se fez com a necessária participação de todos. Deve-se reconhecer, entretanto, uma contribuição mais intensa de cientistas do Velho Mundo na construção da sociedade moderna.

Quando se afirma que, ao se cortar as relações com a matemática, está-se exterminando o significado e o sentido desse conhecimento, está-se enfatizando duas coisas diferentes: “... por um lado, não dá a devida importância ao sistema de relações ligadas àquele conhecimento, que se constituiu objetivamente no decorrer do processo histórico-social e que, por outro, marginaliza aqueles aspectos subjetivos – porque ligados à situação dada e às vivências afetivas do sujeito – que aquele conhecimento adquire no decorrer do processo de interação do indivíduo com o seu contexto social atual.”(MIGUEL, 1995)

No Novo Mundo, particularmente na América Latina, coube aos historiadores das ciências a recuperação de conhecimentos, valores e atitudes, muitas vezes relegados a plano inferior, ignorados, às vezes até reprimidos e eliminados, que vieram a ser decisivos na busca desses novos rumos. Cabe reconhecer que somos uma cultura triangular, resultado das tradições européias, africanas e ameríndias, e que isso tem um impacto permanente em nosso cotidiano latino-americano.

1.2 - O conhecimento matemático

É comum tentar justificar o conhecimento matemático por si próprio, e os avanços da matemática são muitas vezes atribuídos somente à dinâmica interna desse conhecimento. O padrão da racionalidade científica nas civilizações da bacia do Mediterrâneo passou a ser como uma forma de conhecimento que foi, a partir do século XV, genericamente denominada matemática.

Ao se marginalizar os vínculos do conhecimento matemático com seu processo histórico e com as situações vivenciadas pelo aluno fora da escola, desvincula-se a atividade matemática de seus resultados, teoremas, definições, demonstrações, axiomas. Desse modo, há uma sobrevalorização da forma pela qual estes resultados são apresentados. A preocupação centra-se no escrever corretamente, no falar corretamente, em detrimento essencialmente do papel que a Matemática pode desempenhar quanto ao favorecimento de um pensamento, a um tempo, ordenado e criativo (MACHADO, 2001, p. 98)

Como fator de estudo primordial à concepção da evolução do conhecimento matemático, tem-se a História da Matemática, que se firmou como uma ciência somente no século passado, e que tem como grande preocupação o rigor da identificação de fontes que permitem identificar as etapas desse avanço.

A dinâmica da evolução desses fazeres e saberes do conhecimento matemático resultante da exposição a outras culturas, faz com que a pesquisa nesse campo seja remetida a uma proposta historiográfica que está implícita na busca de entender o fazer e o saber matemático continuamente sobre todas as culturas e, inclusive, de culturas marginalizadas.

A forma como o conhecimento matemático é repassado aos alunos é que fez desse fundamental saber um problema maior do ensino, sendo o mesmo apresentado de forma desinteressante, obsoleta e Inútil, e isso dói para o jovem.

”O ensino de fatos e conceitos apresentados como verdades absolutas e incontestáveis, como um corpo de conhecimentos congelado ao longo de séculos, não pode responder à enorme curiosidade dos jovens e nem à própria dinâmica da elaboração do conhecimento. A aquisição desse conhecimento é falsamente verificada através de provas e testes” (D’Ambrosio, 1999)

1.3- FILOSOFIA E EPISTEMOLOGIA DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA

Foi a partir do século XVIII que a matemática enquanto disciplina começou a constar nas escolas, por reflexo da Revolução Industrial, pois a administração e os sistemas bancários e de produção passaram a exigir mais do cidadão. Durante as guerras mundiais a matemática cresce e toma importância nas escolas do mundo, mas a gama de dificuldades de aprendizado cresce e a reprovação aumenta, começando a surgir os atritos entre a disciplina das exatidões e os alunos que, desestimulados, fracassam. Há um prelúdio às inovações através do fenomenal matemático Félix Klein que, mesmo sendo um notável matemático, preocupou-se com as questões do aprender matemático. Com a Guerra Fria e a corrida espacial, os norte-americanos reformulam o currículo para formar cientistas à frente dos avanços soviéticos, mas, por ser muito abstrata, a proposta perde força em apenas uma década. A partir dos anos 70, começa a surgir o movimento de Educação Matemática com participação profícua de professores do mundo todo, inclusive do Brasil. Há uma aproximação com a psicopedagogia e a outras especializações pedagógicas com um único intuito: reverter o desinteresse estudantil. Mais tarde, especialistas do movimento de Educação Matemática participaram ativamente elaboração dos PCN’s, instrumentos capazes de, se bem aplicados, nortear os desafios educacionais produzidos pela velha e problemática matemática.

Para Maria Aparecida Bicudo (1999), a filosofia da Educação Matemática trabalha com os assuntos tratados pela Filosofia Matemática, olhando-os sob o enfoque da Educação, onde o mundo-vida é o campo universal das experiências vividas e é o horizonte onde sempre se está consciente dos objetos e dos outros companheiros.

E ao se trabalhar com a fenomenologia no campo da matemática estaremos buscando sentido daquilo que se faz ao ensinar e ao aprender matemática. É uma forma de buscar compreender o sentido que o mundo faz para cada participante de um processo especifico de ensino e de aprendizagem, procurando pontos de intersecção de horizontes de compreensão. É proceder constante e sistematicamente à análise, à reflexão e à crítica das verdades aceitas.

Um ponto de significativa importância, salientado pelo autor é que o fazer pedagógico do professor de matemática volta-se para o trabalho com o “eu” e com o “outro” mediante o corpo próprio e não de maneira introspectiva. Privilegia a percepção do “eu” e do “outro” que se percebem como corpos encarnados que se movimentam, que querem, que agem, que respondem, que falam, que ouvem, que interpretam. Há uma relação psicopedagógica interpessoal.

Outro ponto de destaque na prática pedagógica que pode fazer parte do trabalho com a matemática, tendo a fenomenologia como diretriz de visão a qual do mundo observam a reflexão, é que se envolvem as atividades do cotidiano escolar que solicitam que os alunos e professores voltem sobre suas próprias ações, individualmente e em grupo, para compreendê-las, analisá-las e criticá-las.

Considerações finais

Da prática pedagógica advém a percepção de que os problemas narrados quanto à aprendizagem matemática se instalaram analogamente em nosso cotidiano, cm alunos ora dispersos ao conteúdo da aula, ora mais interessados em sua própria realidade, com grande necessidade de intervenção psicopedagógica na utilização de métodos de percepção lúdica de materiais concretos no desafio diário do aprender uma matemática curricular tão distante (ao menos, aparentemente) do cotidiano de uma turma de jovens e adultos. Sendo assim, após experiências sumárias de verificação de aprendizagem e aproveitando as experiências pessoais na agricultura (por se tratar de uma turma com considerável população economicamente ativa no trabalho rural), assim como na comercialização da própria produção (o que garante um manuseio diário com os números e medidas de extensões de áreas, pôde-se incluir uma experiência educativa com cálculos algébricos por meio de cartões para uma visualização concreta da aplicabilidade no dia a dia da matéria aprendida nos bancos escolares.

Referencias Bibliográficas

BICUDO, Maria Aparecida Viggiani et alii. Educação Matemática. São Paulo: Moraes, 1999.

BICUDO, Maria Aparecida Viggiani et alii.Pesquisa em Educação Matemática: concepções e perspectivas. São Paulo: UNESP, 1999.

BORBA, Marcelo de Carvalho (Org.). Pesquisa Qualitativa em Educação Matemática/organizado por Marcelo de Carvalho Borba e Jussara de Loiola Araújo; autores: Dario Fiorentini, Antônio Vicente Marafioti Garnica, Maria Aparecida Viggiani Bicudo. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

BOYER, Carl Benjamim. História da Matemática; tradução: Elza F. Gomide. São Paulo: Edgard Blücher, 1994.

D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Etnomatemática. Disponível em <http://vello.sites.uol.com.br/ubi.htm> Acesso em: 10 de fev. 2004.

D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Etnomatemática: Elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001

D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Educação para uma Sociedade em Transição. Campinas: Papirus Editorial, 1999.

MACHADO, N. J. Matemática e Realidade: análise dos pressupostos filosóficos que fundamentam o ensino da matemática, São Paulo, SP: Editora Cortez, 2001.

Gilson Tavares Paz Júnior

Licenciado em Matemática pela UEPB e Especialista em Psicopedagogia pela FIP/PB.

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Como desenvolver a capacidade de aprender. Entrevista.


Como desenvolver a capacidade de aprender


Entrevista Vicente Martins


1. Que fatores são prioritários para o desenvolvimento da capacidade de aprender?

Vicente Martins - São três os fatores que influem no desenvolvimento da capacidade de aprender: 1) Primeiramente, a atitude que querer aprende. É preciso que a escola desenvolva, no aluno, o aprendizado dos verbos querer e aprender, de modo a motivar para conjugá-los assim: eu quero aprender. Tal comportamento exigirá do aluno, de logo, uma série de atitudes como interesse, motivação, atenção, compreensão, participação e expectativa de aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser pessoa.

O segundo fator diz respeito às competências e habilidades, no que poderíamos chamar, simplesmente, de desenvolvimento de aptidões cognitivas e procedimentais. Quem aprende a ser competente, desenvolve um interesse especial de aprender. No entanto, só desenvolvemos a capacidade de aprender quando aprendemos a pensar. Só pensamos bem quando aprendemos métodos e técnicas de estudo. É este fator que garante, pois, a capacidade de auto-aprendizagem do aluno.

O terceiro fator refere-se à aprendizagem de conhecimentos ou conteúdos. Para tanto, a construção de um currículo escolar, com disciplinas atualizadas e bem planificadas, é fundamental para que o aluno desenvolva sua compreensão do ambiente natural e sociais, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade, conforme o que determina o artigo 32 da LDB

2. Saber ensinar é tão importante quanto saber aprender? O que depende de quem?

VM - Há um ditado, no meio escolar, que diz assim: quem sabe, ensina. Muitos sabem conhecimentos, mas poucos ensinam a aprender. Ensinar a aprender é ensinar estratégias de aprendizagem. Na escola tradicional, o P, maiúsculo, significa professor-representante do Conhecimento; o C, maiúsculo, significa Conhecimento acumulado historicamente na memória social e na memória do professor e o a, minúsculo, significa o aluno, que, a rigor, para o professor, e para a própria escola, é tábula rasa, isto é, conhece pouco ou não sabe de nada. Isto não é verdade. Saber ensinar é oferecer condições para que o discípulo supere, inclusive, o mestre. Numa palavra: ensinar é fazer aprender a aprender, de modo que o modelo pedagógico desenvolva os processos de pensamento para construir o conhecimento, que não é exclusividade de quem ensina ou aprende.

É papel dos professores levar o aluno a aprender para conhecer, o que pode ser traduzido por aprender a aprender, em que o aluno é capaz de exercitar a atenção, a memória e o pensamento autônomo.

3. Quais são as maiores dificuldades daqueles que ensinam?

VM - As maiores dificuldades dos docentes residem nas deficiências próprias do processo de formação acadêmica. Nas universidades brasileiras, os cursos de formação de professores (as chamadas licenciaturas) se concentram muito nos conteúdos que vêm de ciências duras, mas se descuidam das competências e habilidades que deve ter o futuro professor, em particular, o domínio de estratégias que permitam se comportar docentes eficientes, autônomos e estratégicos.

Os docentes enfrentam dificuldades de ensinar a aprender, isto é, desconhecem, muitas vezes, como os alunos podem aprender e quais os processos que devem realizar para que seus alunos adquiram, desenvolvam e processem as informações ensinadas e apreendidas em sala de aula. Nesse sentido, o trabalho com conceitos como aprendizagem, memória sensorial, memória de curto prazo, memória de longo prazo, estratégias cognitivas, quando não bem assimilados, no processo de formação dos docentes, serão convertidos em dores de cabeça constantes, em que o docente ensina, mas não tem a garantia de que está, realmente, ensinando a aprender. A noção de memória é central para quem ensinar a aprender.

4. Quais são as maiores dificuldades daqueles que aprendem?

VM - As maiores dificuldades dos alunos residem no aprendizado de estratégias de aprendizagem. A leitura, a escrita e a matemática são meios ou estratégias para o desenvolvimento da capacidade de aprender. Entre as três, certamente, a leitura, especialmente a compreensão leitora, tem o seu lugar de destaque.

Ler para aprender é fundamental para qualquer componente pedagógico do currículo escolar. Através dessa habilidade, a leitura envolve a atividade de ler para compreender, exigindo que o aluno, por seu turno, aprenda a concentrar-se na seleção de informação relevante no texto, utilizando, para tanto, estratégias de aprendizagem e avaliação de eficácia.

Aprender, pois, a selecionar informação, é um tarefa de quem ensina e desafio para quem quer, realmente, construir um pensamento próprio.

5. Em sua opinião, os paradigmas convencionais do ensino, que mantêm distantes professores e alunos, estão mudando?

VM - A escola e a família são instituições ainda muito conservadoras. Nisso, por um lado, não há demérito mas às vezes também não há mérito. No Brasil, muitas escolas utilizam procedimentos do século XVI, do período jesuítico como a cópia e o ditado. Nada contra os dois procedimentos, mas se que tenham uma fundamentação pedagógica e que valorizem a escrita criativa do aluno, decerto, terão pouca repercussão no seu aprendizado.

Muitas escolas, por pressões familiares, não discutem temas como sexualidade, especialmente a vertente homossexual. Sexualidade é tabu no meio familiar e no meio escolar mesmo numa sociedade que enfrenta uma síndrome grave como a AIDS. A escola ensina, como paradigma da língua padrão, regras gramaticais com exemplário de citações do século XIX, e não aceita a variação lingüística de origem popular, que traz marcas do padrão oral e não escrito. E assim por diante. São exemplos de que a escola é realmente conservadora.

Isso acontece também com as pedagogias. Tivemos a pedagogia tradicional, a escolanovista, piagetiana, Vigostky e já falamos em uma pedagógica pós-construtivista com base em teoria de Gardner. Umas cuidam plenamente de um aspecto do aprendizado como o conhecimento, mas se descuidam completamente da capacidade cognitiva e metacognitiva, interesses e necessidades dos alunos.

Na história educacional, no Brasil, os dados mostram que quanto mais teoria educacional mirabolante, menos conhecemos o processo ensino-aprendizagem e mais tendemos, também a reforçar um distanciamento professor-aluno, porque as pedagogias tendem a reduzir ações e espaços de um lado ou do outro. Ora o professor é sujeito do processo pedagógico ora o aluno é o sujeito aprendente. O desafio, para todos nós, é o equilíbrio que vem da conjugação dos pilares do processo de ensino-aprendizagem: mediação, avaliação e qualidade educacional.

Seja como for, o importante é que os docentes tenham conhecimento dessas pedagogias e possam criar modelos alternativos para que haja a possibilidade de o aluno aprender a aprender, ou seja, ser capaz de descobrir e aprender por ele mesmo, ou, em colaboração com outros, os procedimentos, conhecimentos e atitudes que atendam às novas exigências da sociedade do conhecimento.

6. Qual o papel da família no desenvolvimento da capacidade de aprender?

VM - A Constituição Federal, no seu artigo 205, e a LDB, no seu artigo 2, preceituam que a educação é dever da família e do Estado. Em diferentes momentos, a família é convocada, pelo poder público, a participar do processo de formação escolar: no primeiro instante, matriculando, obrigatoriamente, seu filho, em idade escolar, no ensino fundamental.

No segundo instante, zelando pela freqüência à escola e num terceiro momento se articulando com a escola, de modo a assegurar meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento e zelando, com os docentes, pela aprendizagem dos alunos.

O papel da família, no desenvolvimento da capacidade de aprender, é tarefa, pois, de natureza legal ou jurídica, deve ser, pois, o de articular-se com a escola e seus docentes, velando, de forma permanente, pela qualidade de ensino.

O papel, pois, da família é de zelar, a exemplo dos docentes, pela aprendizagem. Isto significa acompanhar de perto a elaboração da proposta pedagógica da escolar, não abrindo mão de prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento ou em atraso escolar bem como assegurar meios de acesso aos níveis mais elevados de ensino segundo a capacidade de cada um.

7. Com o advento da Internet e outras mídias, o que muda na condição do aprendente, já que se têm informações demais, de diversas fontes e dificuldade em selecionar o que realmente é importante?

VM - As mídias convencionais ou eletrônicas apontam para uma revolução pós-industrial, centrada no conhecimento. Estamos na chamada sociedade do conhecimento em que um aprendente dedicado à pesquisa pode, em pouco tempo, superar os conhecimentos acumulados do mestre. E tudo isso é bom para quem ensina e para quem aprende.

O conhecimento é possível de ser democraticamente capturado ou adquirido por todos: todos estão em condições de aprendizagem. Claro, a figura do professor não desaparece, exceto o modelo tradicional do tipo sabe-tudo, mas passa a exercer um papel de mediador ou instrutor ou mesmo um facilitador na aquisição e desenvolvimento de aprendizagem.

A tarefa do mediador deve ser, então, a de buscar, orientar, diante das diversas fontes disponíveis, especialmente as eletrônicas, os melhores sites, indicando links que realmente trazem a informação segura.

Infelizmente, por uma série de fatores de ordem socioeconômica, muitos docentes não acessam a Internet e, o mais grave, já sofrem conseqüência dessa limitação, levando, para sala de aula, informações desatualizadas e desnecessárias para os alunos, especialmente em disciplinas como História, Biologia, Geografia e Língua Portuguesa.

8. De forma geral, os professores tem conhecimento para reconhecer uma criança que apresenta um quadro de dislexia ou algum outro transtorno de aprendizagem?

VM - A dislexia, como tenho definido nos meus artigos, é uma dificuldade específica de leitura. É um transtorno inesperado que professores e pais observam no desempenho leitor da criança.

Os sintomas da dislexia podem ser observadas no ato de ler, escrever ou soletrar.

São as seguintes as características da síndrome disléxica: 1) Dificuldade para ler uma só palavra isolada; 2) Dificuldade para decodificar (discriminar letras e fonemas da língua), de forma precisa, palavras pouco familiares ou sem sentido; 3) Dificuldades para ler; apresentando, em geral, leitura lenta e pouca precisa, revelando falta de fluidez ao ler e 4) Dificuldade para aprender a soletrar.

Vicente Martins, graduado e pós-graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará(UECE). Mestre em educação pela Universidade Federal do Ceará(UFC). Professor, há dez anos, dos cursos de Letras e Psicopedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.



Matéria publicada em 01/04/2004 - Edição Número 56



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domingo, 6 de julho de 2008

Será que conheço você? Jogo terapêutico para pais e filhos.


"Será que conheço você? Jogo Terapêutico para Pais e Filhos", é uma estratégia terapêutica a ser usada na terapia infantil e de pré-adolescentes em sessões conjuntas com pais e filhos para promover o diálogo, o conhecimento um do outro quanto ao que cada um pensa, sente ou faz, e a aprendizagem afetiva, tão importante para o desenvolvimento saudável da criança e o bom relacionamento entre pais e filhos. Quando as dificuldades de relacionamento entre pais e filhos aparecem claramente na terapia da criança ou adolescente o terapeuta pode propor que, ambos engajem-se num processo de aprendizagem de ouvir os sentimentos e necessidades uns dos outros e responder a eles de forma acolhedora e empática, e o jogo pode auxiliar muito nesta tarefa.

Descrição do Jogo

O “Será que conheço você? Jogo Terapêutico para Pais e Filhos” foi elaborado para ser utilizado em sessões psicoterápicas conjuntas entre pais e filhos, com dois (criança/mãe ou criança/pai), sendo existem duas versões: para crianças – faixa etária dos 07 aos 10 anos; e para pré-adolescentes – faixa etária de 10 a 14 anos.

O jogo contém perguntas sobre o cotidiano, preferências e comportamentos dos pais e da criança. Cada pergunta é seguida de quatro alternativas de resposta, o jogador da vez deve escolher a resposta que mais se parece com a escolha que seu parceiro faria naquela situação. Assim, escolhe-se quem começará a jogar:

1) se for o pai (ou mãe) sorteia-se um cartão “pais respondem, criança adivinha”, os pais respondem a pergunta, escolhendo uma das quatro alternativas
disponíveis (A, B, C ou D) e o filho deve “adivinhar” a opção do pai (ou mãe);

2) após ambos terem selecionado a resposta, deverão mostrá-la um ao outro para verificar se escolheram a mesma alternativa.

3) na vez da criança, sorteia-se um cartão “criança responde, pais adivinham” e os pais devem então acertar a escolha do filho;

4) o jogo contém apenas um peão que avança uma casa por acerto; o objetivo é fazer com que o peão chegue ao final do tabuleiro com o maior número de acertos;

5) quando o peão cair na casa “tanto faz” a próxima pergunta será sorteada dentre estes cartões, e a regra continua a mesma;

6) quando a dupla chega na casa “comemoração” do tabuleiro, ambos sorteiam e realizam uma atividade conjunta prevista no jogo (abraços, beijos, cafuné, massagem, etc) comemorando um certo número de avanços no jogo;

7) continuam jogando desta forma até chegar ao final do tabuleiro ou até os cartões serem todos respondidos.

8) neste jogo não há ganhadores, pois ambos tem que chegar até o final juntos, com um único peão. Porém, a) se acabarem os cartões, e o jogo não chegou ao fim, sinal que a dupla precisa se conhecer melhor; b) se chegarem até o fim e sobrarem cartões, sinal que a dupla está afinada e sintonizada; c) qualquer que seja o resultado, ambos saíram ganhando pois puderam se conhecer melhor, brincar, e ensaiar vários carinhos diferentes para outras ocasiões!


Considerações sobre o uso do material

Através da observação da interação da díade durante o jogo, pode-se obter dados importantes para o processo terapêutico da criança e orientação dos pais:

1) A dupla parece confortável ou incomodada com a tarefa?

2) Como decidem quem iniciará o jogo? Quem decide? Quem se cala?

3) Quais as verbalizações que ocorrem durante o jogo? Exemplo:Mãe: “Eu vou escolher o que você REALMENTE pensa quanto a isso”.Criança: “Acerta desta vez mãe, por favor!”Pai: “Ih, não sei! Vou chutar!”Criança: “Não acredito que você errou pai! Já falei tanto isso pra você!”

4) Quem acerta mais? Os pais quanto à criança ou a criança quanto aos pais?

5) Quanto do tabuleiro foi percorrido em relação ao número de cartas respondidas? (o tabuleiro contém um número de casas 50% menor do que o número de cartas, assim, uma dupla pode errar metade das perguntas e ainda assim chegar ao final do jogo sem grandes problemas).

6) Como se comportam quanto aos carinhos? Quem toma a iniciativa? Há risos? Parece haver desconforto? Há críticas quanto a um carinho do “jeito errado”?

7) As próprias respostas, quanto às preferências e comportamento de ambos podem ser anotadas pelo terapeuta para posterior discussão nas sessões individuais.


Considerações sobre o conteúdo do jogo.

Este jogo é um material inovador, pois não existe no Brasil uma proposta semelhante para ser usada com tais objetivos. Para psicólogos é um material útil na observação dos padrões de interação afetiva entre pais e filhos, assim como no ensino de respostas de contato físico de forma descontraída e geralmente prazerosa. Por mais desconfortável que possa ser inicialmente cumprir as regras do jogo, o aspecto lúdico parece predominar e facilitar as respostas de aproximação entre pais e filhos. A observação das interações durante o jogo fornece ao profissional dados diagnósticos importantes para intervenções posteriores em sessões individuais tanto com a criança quanto com os pais.

Por outro lado, o próprio jogar já se constitui numa condição terapêutica a medida que promove, ensina e facilita as respostas de aproximação e de conhecimento mútuo. Os resultados obtidos geralmente apontam para uma melhoria das interações, tanto verbais quanto afetivas, uma vez que promove a reflexão sobre o quanto pais e filhos realmente se conhecem, a importância do diálogo para o relacionamento e para a transmissão de mensagens de amor e cuidado, principalmente dos pais para com os filhos.

Este jogo está estruturado de forma flexível podendo ser manejado e adaptado de acordo com os objetivos terapêuticos de cada caso clínico, o que é uma vantagem para o profissional que o emprega. É uma proposta original e criativa, pois com um recurso aparentemente simples e conhecido de pais e filhos (um jogo) torna possível ao psicólogo observar interações e obter informações clínicas importantes que ele não teria acesso dentro do enquadre psicoterapêutico. Torna possível também ensinar de forma direta novos padrões de interação, e desta forma promover a solução dos problemas apresentados de forma mais rápida, uma vez que com o uso deste recurso, habilidades importantes podem ser diretamente ensinadas.

É um recurso prático, cujo conteúdo tenta abranger as situações cotidianas mais comuns entre pais e filhos em nossa cultura brasileira, o que torna ampla sua abrangência quanto à aplicabilidade do material por profissionais de todo o país. Sua praticidade também se reflete nos diferentes contextos em que pode ser empregado pelos profissionais, pois o tratamento ou desenvolvimento interpessoal dos pais em relação a suas habilidades de relacionamento com os filhos não é uma atividade restrita apenas ao contexto de clínicas e consultórios.
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http://www.psicologiavirtual.com.br/psicologia/principal/conteudo.asp?id=3922
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PROPOSTAS PARA UMA PEDAGOGIA CRIATIVA



Artigos, Walter Boechat, Propostas para uma pedagoga criativa

PROPOSTAS PARA UMA PEDAGOGIA CRIATIVA


WALTER BOECHAT
Associação Junguiana do Brasil


Trabalho apresentado no VI Simpósio da AJB - São Paulo - Novembro de 1998

A pedagogia tem aspectos arquetípicos que envolvem qualquer transmissão do conhecimento. De todos o conhecimentos, o mais importante é o conhecimento de si mesmo, e a sabedoria antiga sabe bem deste fato.

E o conhecimento de si próprio, o antigo Gnote Sautón do templo de Apolo é o único conhecimento que realmente vale a pena se dedicar a ele, pois na medida em que nós nos conhecemos em profundidade, todas as demais coisas nos são reveladas.

O processo de individuação é um processo pedagógico por excelência, na medida que é um processo gradual de realizar as potencialidades inatas através de um descobrir-se aos poucos, por um desvelar-se em conhecimento pleno. O lento desdobrar-se da individuação começa desde os primeiros meses de vida até a morte. Da mesma forma, o processo pedagógico de aprendizagem para a vida e para si mesmo tem lugar do início da vida até a morte.

A individuação é mais evidente na segunda metade da vida, quando a personalidade se volta para um encontro definitivo com suas raízes no arquétipo do Self. Já a educação em sentido estrito é compreendida geralmente como referida à infância e adolescência, na preparação do indivíduo para deixar o meio familiar e ser equipado para os desafios da sociedade.

Entretanto, mesmo após a adolescência e a idade adulta as necessidades de uma educação integral do ser, em seu sentido mais pleno, permanecem. O adulto, embora sem a plasticidade mental da criança, deverá buscar sempre em sua vida, novas possibilidades de crescimento espiritual que a pedagogia irá proporcionar.

O nome pedagogo vem do grego pédos- criança, gogós- acompanhar, e se referia na antiga Grécia ao escravo que acompanhava o jovem à academia para ser ensinado. Aquele que transmite o ensino deverá ter essa atitude, a de um acompanhante de um outro à busca do saber. Ele é assim, antes um facilitador nesta busca do conhecimento, do que um dono autoritário da verdade.

Entretanto, por um automatismo inconsciente, o professor tende sempre a ter uma postura de poder frente ao seu discípulo, como se o conhecimento fosse algo a ser ministrado a partir de fora. Mas o conhecimento, em sua forma mais diferenciada, é aquele que emana de dentro, a partir de uma intensa curiosidade e interesse que o aluno passa a ter de diversos assuntos que o verdadeiro pedagogo despertará nele.

Este me parece um ponto chave em uma proposta de pedagogia criativa: o rompimento da díada de poder professor - aluno, transformando-a numa relação produtiva na qual o professor irá sempre se descobrindo aluno, em constante aprendizado, e o aprendiz, encontrará seu mestre interior, única forma de caminhar dentro de uma busca de saber genuína.

Em nossa experiência de ensino, quer em curso de treinamento de analistas, quer seja em ensino de graduação e pós - graduação em psicologia analítica, temos procurado valorizar ao máximo a descoberta pelo aluno de sua maneira única de aprender e assimilar novos conhecimentos.

Temos percebido assim, uma grande proximidade entre ensino e individuação, entre aprendizado e auto - conhecimento, entre pedagogia e maturidade pessoal para a vida.

A pedagogia realmente criativa se edifica na construção gradual da singularidade de cada indivíduo contraposta a outras singularidades e, como quer Gerd Bornheim (1), é no estofo destas contraposições que se edifica uma vocação para a universalidade. Pois a própria palavra universalidade advém da divisão das palavras latinas unus versus alia ou plura- uma unidade contraposta a outras (2).

E é esta vocação para a universalidade que domina o processo da educação, a gradual retirada da criança do berço da família que, por um jogo crescente de contraposições, a levam a experiências cada vez mais coletivas, para a escola e para a entrada no social.

Sem a educação na universalidade do social, sem esse cultivo dos universais, o homem ficaria restrito ao absurdo de sua singularidade individual.

Estamos aqui tocando na clássica questão dos universais, da qual se ocupou com especial intensidade a escolástica medieval. A formulação da realidade dos universais encontrou no realismo seu carro condutor chefe, o antigo platonismo continuou até Hegel, que defendeu a realidade onto-teo-lógica dos universais, presentes na história.

A contra- corrente ao realismo, o movimento do nominalismo, sustenta que a existência é mais importante que a essência, e não ao revés, como defendia o realismo. A existência dos seres em separado, com todas suas características próprias individuais é muito mais importante que uma essência invisível e transcendente, uma idéia platônica abstrata, localizada num empíreo remoto.

A perda dos universais de suas vestimentas teologais associou-se na idade moderna ao nascimento do espírito científico; o que Bornheim denominou de "universais concretos"(3) representam a apropriação destes mesmos universais pela ciência, pois já estão destituídos de suas características teológicas tradicionais.

Os universais concretos iram dar base real a qualquer forma de pedagogia. Qualquer Paidéia, qualquer projeto educacional em sentido amplo, torna-se inviável sem o referencial do universal concreto. Bornheim se pergunta onde estes novos universais, desprovidas do referencial teológico tradicional, irão encontrar eles nova base no real?

Bornheim, refletindo sobre as implicações humanísticas e filosóficas dos descobrimentos em "A Descoberta do Homem e do Mundo"(4) encontra no espírito científico do renascimento presente nos grandes descobrimentos, a presença da alteridade como fator fundamental do universal concreto dentro da nova perspectiva da grande descoberta do outro.

A questão da alteridade, presente em qualquer projeto pedagógico, questão fundante mesmo da pedagogia, deve ser tratada aqui com detida atenção.

A alteridade, a descoberta do outro como elemento essencialmente diferente do si, foi elaborada desde os albores do pensamento filosófico no ocidente. Já Pitágoras de Samos, com sua filosofia de base numérica iria dizer que os números ímpares se referem à identidade, e os números pares à alteridade, às relações do eu e do outro. Platão procurou definir a alteridade, o "tó héteron", como o conceituou, como uma conciliação entre o mundo das essências imutáveis de Parmênides, que se referem à identidade e o devir hieraclítico, que configura o outro.

A filosofia de Buber revigora a questão da alteridade com a ênfase na relação Eu - Tu. A psicanálise também retomou esta questão, no tocante aos estudos das relações da criança com a mãe, a alteridade fundante para a estruturação do ego.

A descoberta do novo mundo pelos navegantes trás a questão da alteridade para um sentido cósmico e civilizatório. A descoberta de novas terras vem permeada de projeções do inconsciente coletivo, as praias do Brasil seriam a China, ou a Índia? Os monstros imaginários que se pensava povoavam os oceanos trouxeram decepção a Colombo por não existirem na horizontalidade do espaço físico.

Nestas descobertas se dá um processo evangelizador e de conversão dos outros povos que demorou longo tempo para se tomar consciência de ser ele desprovido de alteridade, pois sempre a evangelização incluiu a conversão nos valores de si próprio, nos universais profundamente envolvidos em valores teológicos. Uma pedagogia de todo capenga, por não respeitar a diferença do outro.

Ainda quanto a questão da alteridade como elemento essencial do humanismo moderno, a antropologia científica demonstra a importância do princípio da diferença no conhecimento do social e da relação do indivíduo com o social. Enquanto esteve mergulhada em etnocentrismo obliterante, a antropologia de Tylor e Fraser permaneceu meramente um referencial de evolucionismo cultural, isto é, outros povos sendo vistos apenas como pré- figurações infantís do modelo de sociedade ideal, a do homem europeu moderno. Somente a antropologia moderna, quer seja a do funcionalismo de Malinowski, quer seja a do estruturalismo de Lévi- Strauss, está aberta realmente para a diferença da outra cultura. O que se busca aqui não é nenhum julgamento, nenhuma interpretação, apenas a constatação da diferença, da alteridade. A alteridade cultural é fundamental para a compreensão de nossa própria cultura, o contemplar o outro nos ensina sobre nós mesmos, esta é uma pedagogia radical de sobrevida social; daí a sobrevivência de nossos índios se reveste de urgência, pois são um paradigma de alteridade cultural importante.

Devemos considerar agora as íntimas relações que guardam conhecimento, cultura e educação, elementos inseparáveis e que sofrem uma retroalimentação continuada em qualquer sociedade.

Edgar Morin nos lembra que as condições sob as quais o conhecimento é possível são de natureza extraordinariamente variada; são do tipo físico, celular, cerebral, psíquico, social e cultural. (5)

Cultura e educação operam dentro de dois eixos fundamentais que se entrecruzam em fulcro central: as condições socioculturais e as biocerebrais. Estes dois eixos são interdependentes, "pois as sociedades e as culturas se constituem e evoluem somente mediante as interações cerebrais/mentais entre os indivíduos"(Morin) (6).

A cultura se organiza e atua de forma organizadora através da linguagem, dos conhecimentos adquiridos, consciência histórica e crenças míticas, todos esses valores moldados pelos arquétipos do inconsciente coletivo, que se fazem representar pelas representações coletivas e pelo imaginário coletivo.

A cultura e sociedade estão em interdependência generativa, e nestas interações Edgar Morin postula que não devemos nunca esquecer o indivíduo, e as interações entre os indivíduos, que são eles mesmos, portadores e transmissores da cultura, estas interações regeneram a sociedade, que por sua vez, regenera a cultura. (7)

De acordo com a abordagem da filosofia complexa de Morin, a cultura de uma sociedade é como se fosse uma complexa mega- unidade de cálculo que armazena todas as informações cognitivas e, por possuir propriedades quase lógicas, formula normas práticas, éticas e políticas desta sociedade. Mas de certo modo, esta unidade central de cálculo, como a chama Morin, está presente também em cada mente/cérebro individual, e assim, a cultura faz o indivíduo e o indivíduo faz a cultura, em processo holográfico de retroalimentação contínua.

A cultura está sendo abrindo e fechando as possibilidades bioantropológicas de conhecimento. Ela as abre na medida em que põe à disposição dos indivíduos o repositório de seu conhecimento acumulado, seus método de aprendizado, pedagogia e pesquisa e assim por diante; ela simultaneamente os fecha por suas proibições, normas e tabus, seu etnocentrismo. (8)

A noção de que o indivíduo faz a cultura e a cultura faz o indivíduo em processo de retroalimentação contínua que nos trás Morin é muito importante. De acordo com ela, a educação está nas mentes, ela vive na mentes que estão em processo de aprendizado cultural, mentes que vivem na cultura. Nossas mentes reconhecem através do aprendizado cultural, mas de certo modo, a cultura também reconhece através de nossas mentes. É a sempre presente dialética entre indivíduo e cultura, mecanismo essencial subjacente ao processo de individuação que Jung retomou por diversas vezes.

Edgar Morin lembra ainda que a relação entre as mentes individuais e a cultura não é difusa e sim do tipo hologramático. Hologramático por que a cultura está nas mentes individuais e as mentes individuais estão na cultura. A noção de arquétipo e de imagem arquetípica e fundamental para se entender esta colocação de Morin, pois está claro para nós, que as imagens arquetípicas, essencialmente são culturais e ao mesmo tempo, manifestam-se no indivíduo, de acordo com sua experiência individual.

A relação entre indivíduo e cultura também é do tipo recursivo, pois assim como os seres vivos buscam sua sobrevida no ecossistema que só existe devido às interações dos seres vivos, da mesma forma, os indivíduos só podem desenvolver uma pedagogia e uma educação dentro de uma cultura, que por sua vez só pode existir, devido à interatuação cognitiva e pedagógica dos indivíduos.

O fulcro biocerebral e sociocultural da educação mencionado anteriormente já está funcionamento antes mesmo do nascimento. A realidade urobórica que a psicanálise e também Erich Neumann registraram como fase importante do desenvolvimento do ego deve ser atualizada à luz dos modernos estudos sobre psiquismo fetal. Sabe-se que o feto sonha, pois apresenta a fase REM do sono; a pergunta que se faz é: sonha com o quê, já que não tem vivência do mundo externo? Os psicanalistas respondem com propriedade que sonham com protofantasias, os junguianos dirão com acerto que o feto tem sonhos arquetípicos, nos quais as imagens arquetípicas se apresentariam de forma simples e abstrata.

O que importa é que existe um psiquismo fetal, como o comprovam também os modernos estudos de ultrasonografia. Já existe portanto uma alteridade fetal, uma individuação a nível intrauterino e portanto, o estado urobórico é uma realidade não tão unitária. Se assim não fosse, o bebê prematuro, viável biologicamente, não seria viável psicologicamente, isto é, nasceria psicótico ou portador de moléstia mental grave.

Mas a ultra-sonografia mostra com freqüência o feto reagindo a estímulos ambientais, como sons, luz, música, de forma semelhante ao adulto.

Aqui uma questão filogenética deve ser lembrada. Os antropóides que antecederam o Homo sapiens tiveram um período gestacional de dez meses aproximadamente. No decurso da evolução, o Homo sapiens se caracterizou por um grande desenvolvimento da caixa craniana, desproporcional ao resto do corpo. O canal do parto das mães não era largo suficiente para a passagem do feto e a mortalidade materna tornou-se muito elevada. A seleção natural passou a promover um nascimento precoce, isto é, aos nove meses. A maior mobilidade das fontanelas cranianas facilita o parto, mas também o recém-nascido humano tornou-se para sempre um eterno prematuro. A prematuridade em nível físico, com articulações, fâneros e unhas ainda em formação é acompanhada por uma prematuridade emocional, e isto é muito importante lembrar.

A prematuridade emocional do ser humano ao nascer levou Adolf Portmann a cunhar a expressão período embrionário extra- uterino, referindo-se aos primeiros meses de vida do bebê nos quais a sobrevida tanto física quanto emocional dependem de um cuidado atento da mãe.

Devido a estas recentes descobertas do psiquismo fetal, não é exagerado dizer que já no período intra- uterino a esfera sócio-cultural atua sobre o ser, através mesmo dos hábitos da mãe, influências ambientais, sons, música e outros. A passagem desta fase intra- uterina para um período de adestramento pela educação familiar e social não sofre solução de continuidade, mas é antes um processo de continuidade.

A chamada "estabilização seletiva das sinapses" cria aos poucos rotas seletivas de conhecimento no sistema cerebral, indo determinar, de certa forma, como cada um irá perceber a realidade. A cultura torna-se, assim, uma co-produtora da realidade, como é percebida por cada indivíduo.

Fica bem claro que a educação começa no indivíduo bem antes do advento da comunicação escrita ou verbal. Os processos pedagógicos não verbais usados com grande ênfase na primeira infância foram, como se sabe retomados pelas técnicas de ludoterapia em psicanálise, as técnicas do jogo em Winnicott, em psicologia analítica Jung, ele próprio, foi um grande pioneiro do uso de técnicas expressivas como desenho e pintura na dialética com o inconsciente, em seu próprio processo de individuação. A psicologia analítica tem nos últimos tempos, desenvolvido diversas abordagens não verbais, umas mais conhecidas, como a caixa de areia de Kalff, outras não tanto, como a associação do movimento com a imaginação ativa, trabalho desenvolvido por Mary Whitehouse nos Estados Unidos, e as relações corpo- imagem desenvolvidas por Arnold Mindell.

As técnicas não verbais em psicoterapia aplicam-se naturalmente a uma proposta criativa em pedagogia. Técnicas de ensino e aprendizado que incluam processos não verbais serão muito interessantes, é claro, pois levarão à experiência individual do material teórico transmitido, levando o aluno a vivências subjetivas em nível profundo do material teórico discutido em seminários e comunicações teóricas. Esta é nossa experiência em curso de formação de analistas e em grupos de estudos, mas as técnicas expressivas não verbais são válidas para uma proposta pedagógica criativa em nível de ensino em geral, qualquer que seja ele, pois toca aqui em problema muito importante de qualquer pedagogia: mais importante do que a busca do saber a qualquer preço é a produção do desejo de saber, e este é um desejo ético importante para que se produza o verdadeiro espírito universitário.(9)

O corpo é um referencial importante na pedagogia não verbal- vivencial. A título somente de exemplo, um importante tema como a questão da definição da libido em psicologia analítica pode ser vivenciado de forma não verbal em seminário.

Em Símbolos de Transformação, Jung explora as relações da Libido com a questão do ritmo. O ritmo está presente na produção do fogo ritual Agni, nos Vedas, em que o bastão vertical, ritualisticamente é friccionado no bastão horizontal, de forma rítmica. O fogo é assim produzido. Certos hábitos masturbatórios estão associados à piromania, e pacientes muito regredidos, ou psicóticos crônicos, têm maneirismos repetidos ritmicamente. O núcleo simbólico fogo-ritmo-Libido aparece nítido nestas manifestações. (10)

Pois bem, após o estudo destes temas, os alunos em seminário podem ser motivados a explorar seu próprio corpo, verificar em seu íntimo a musicalidade de seu próprio ritmo individual, manifestação da libido de forma única em seu processo de individuação, através do ritmo cardíaco, do batimento do pulso, e o grupo poderá ou ser convidado a fazer um desenho sobre esta experiência. O coordenador do seminário coordenará comentários e associações de cada participante. Entretanto, esta é sempre uma experiência de ensino, e não uma análise pessoal, e cada participante irá caminhar em suas associações até onde queira ir, e ao coordenador do seminário caberá muito mais amplificar do que interpretar.

Faço esta observação, embora concordemos com Hillman de que a psicoterapia não se processa unicamente no consultório, mas também sempre aonde se produza um cultivo da alma, como num simpósio científico como este, em qualquer evento cultural ou numa exposição de arte. Isto posto, a pedagogia criativa não está, nem pode ser, em essência, separada de um processo de auto- conhecimento.

Quero também fazer algumas observações sobre a presença da psicologia analítica na universidade. Consideramos este tema importantíssimo e de grande atualidade, pois é nossa impressão que as psicologias do inconsciente, junguianas, freudianas e em suas diversas ramificações tendem a encaminhar para a universidade, o locus da transmissão do saber por excelência, e as instituições formadoras de analistas deverão, em futuro próximo, ter conexões mais íntimas com o saber universitário, sem perder, naturalmente sua autonomia.

As razões deste caminhar, deste encontro que deverá ser muito frutífero , entre o saber acadêmico universitário e o saber de um programa de formação de analistas são múltiplas. As universidades estão cada vez mais abertas, de uma maneira geral, pois têm gradualmente se libertado de noções pré - concebidas do que deve ser sabido, ou do como deve ser sabido.

Ao mesmo tempo, concordo com Andrew Samuels, que sugere diversas maneiras de sobrevivência da psicologia analítica ao final do século, sendo a universidade uma das principais (11).

Segundo Samuels, há muitas possibilidades pedagógicas para a psicologia analítica na universidade. A primeira se refere à questão da eficácia clínica em psicoterapias de longa duração. É notório que a literatura a este respeito é escassa.

Outro possibilidade seria a investigação do próprio processo terapêutico, no que concerne, por exemplo, a como cada terapeuta trabalha, dependendo de sua orientação teórica, ou como reage quando confrontado com situações clínicas determinadas. Pesquisas também podem ser feitas quanto ao identidade sexual, etnia e conduta terapêutica, tanto referidos ao terapeuta quanto ao cliente.

Samuels sugere outra investigação interessante: até quanto seria ou desejável uma intervenção de cunho pedagógico em psicoterapia? Isto é, seria válido, em certas circunstâncias, o terapeuta explicar ao cliente o tipo de processo a que ele está se submetendo, sua provável evolução e objetivos? Uma dos ganhos da pesquisa seria informar não só aos pacientes, mas ao público em geral, sobre os objetivos reais da análise, evitando as noções distorcidas e superficiais que vêm à público.

Um aspecto importante da obra de Jung é que ela foi publicada em sua edição completa não seguindo uma ordem cronológica como a edição standard da obra de Freud, mas por temas, daí ser obra junguiana ser chamada "Trabalhos Coligidos" (Collected Works). Isto muito embora a obra de Jung tenha sofrido constantes revisões, durante o curso de sua vida criativa. Certas pesquisas sobre conceitos de psicologia analítica como o de arquétipo, por exemplo, tornam-se muito difíceis. Na universidade, o estudo aprofundado da obra junguiana em seu contexto histórico em suas variáveis poderia ser assinalado, em oposição ao contexto clínico, que trabalha mais com conceitos em sua forma operacional atual.

Samuels chama a atenção ainda para as inúmeras contribuições que a psicologia analítica pode trazer em colaboração, na universidade, com a educação e a sociologia, estudos sobre liderança, política e cidadania sobre o ponto de vista da teoria junguiana; ainda o estudo da crítica literária, das artes e estudo sobre o gênero. É importante assinalar a observação de Samuels de que nas diversas universidades onde esteve, foi nos locais de estudo das religiões comparadas que ele encontrou talvez as mais cuidadosas e criteriosas leituras de textos junguianos. Além das possibilidades de colaboração com antropologia e filosofia, Samuels cita ainda o interesse que na própria psicologia, a psicologia analítica desperta interesse, com os trabalhos de Jung com o teste de associação de palavras, a teoria dos tipos psicológicos, a influência de Jung em Henry Murray na evolução do T. A. T. e nos testes projetivos em geral.

Em minha vivência universitária concordo de modo geral com as observações de Samuels, embora elas tratem mais de possibilidades do que de realidades fatuais, mas creio que muito do proposto pode ser alcançado em nível pedagógico para a psicologia analítica.

No Instituto de Psicologia e Psicanálise da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, temos cinco cadeiras eletivas relacionadas à psicologia analítica de Jung no curso de graduação. As cadeiras são ministradas de forma sucessiva, a cada semestre. O aluno particularmente interessado em psicologia analítica poderá cursar as cinco cadeiras eletivas, aprofundando gradualmente seu conhecimento. Abriu-se para nós uma possibilidade para o exercício do que estou chamando de pedagogia criativa, pois juntamente com a cadeira teórica houve também o espaço para ter uma atividade de supervisão no SPA, [Setor de Psicologia Aplicada]. O aluno poderia escolher tanto a cadeira teórica quanto o grupo de supervisão junguiano. É claro que as outras correntes teóricas estão igualmente presentes, Freud, Lacan, Reich, Moreno, Winnicott, Rogers.

Em eventos culturais dentro da universidade, ela se mostra um espaço para a universalidade do saber, tão necessária para a educação, já que é freqüente a formação de mesas redondas com pessoas de diversas tendências teóricas, que podem levar o aluno a uma maior reflexão sobre o que realmente importa: o paciente e seu sofrimento.

Lembro-me em especial de uma mesa redonda da qual participei recentemente com o tema versando sobre o tratamento das psicoses. A mesa foi composta por um psiquiatra clínico, uma analista lacaniana e eu. Houve frutuosa convergência nas abordagens.

Talvez seja esta a contribuição mais sadia que a universidade possa trazer para aqueles que participam de instituições formadoras de analistas; uma saudável relativização das teorias, uma retirada de um isolamento teórico que a instituição formadora forçosamente leva, pela própria necessidade que tem de aprofundar seus métodos teóricos.

Outra experiência que temos em nível universitário e o curso de pós-graduação "lato- sensu" em psicologia junguiana junto ao IBMR, no Rio de Janeiro. O curso dura um ano e oito meses e em 1999 se iniciou a quinta turma. O aluno para terminar o curso, deve ter sua monografia aprovada por um orientador. O curso obedece às regulamentações do conselho federal de educação, e tem doze matérias teóricas referentes à psicologia analítica. Naturalmente o curso em nível de pós-graduação tem nível de aprofundamento bem superior ao da graduação e muitas vezes serve como uma preparação para aqueles que eventualmente busquem uma formação em psicologia analítica.

As interações de pesquisa com outras áreas do saber, que Samuels sugere, temos encontrado na pós-graduação, onde, por exemplo, a psicóloga Helena Saldanha fez importante trabalho de campo, de cunho antropológico sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro relacionando-o com o arquétipo do Herói.

As questões de uma maior reflexão quanto a pesquisa de práticas clínicas encontrei na graduação, onde no SPA, junto com o psicanalista José de Matos, supervisionei um caso clínico de homossexualidade masculina e a abordagem junguiana e freudiana foram debatidas.

Os caminhos para uma pedagogia criativa são múltiplos e devem ser analisados em cada contexto. Procuramos trazer aqui nossa experiência pessoal de ensino vivenciada em três níveis, na graduação, pós- graduação e em instituições formadoras de analistas onde estivemos sempre confrontando o desafio arquetípico e ético que permeia toda a transmissão do saber: abandonar a busca do saber a qualquer preço, pela produção do desejo do saber. A admissão da falibilidade do professor, quando diz perante ao aluno: "tal tema foge ao meu conhecimento pleno, mas vou investigar, na próxima vez o trabalharemos juntos". Tal colocação é cada vez mais rara de ser feita perante o aluno, embora seja extremamente sadia, por ser mais realista, desfazendo idealizações, afastando a imagem arquetípica do mestre para o nível do símbolo e evitando a concretização que isola mais que aproxima professor e aluno na busca do saber.

Mas é sempre importante ter em mente a ênfase que Jung sempre deu à educação através do exemplo pessoal, de como a personalidade dos pais e também de professores é fator decisivo em qualquer pedagogia. (12)

Bibliografia

Bornheim, G.- A Descoberta do Homem e do Mundo, In: A Descoberta do Homem e do Mundo. Minc, Funarte, Companhia das Letras, São Paulo, 1998.

----------- idem, p. 20

----------- p. 21

----------- p. 25

Morin, E.- Cultura e Conhecimento. In: O Olhar do Observador . Watzlawick e Krieg (orgs). Editora Psy II, Campinas, 1995.

----------- op. cit., p. 72.

------------ p. 72.

------------ p. 73.

Figueiredo, A. C. - Ética e Ensino. In: Ética e Saúde Mental. ( Ana Cristina Figueiredo e João Ferreira Filho, orgs). Topbooks, Rio de Janeiro, 1996.

Jung, C.G.- Símbolos de Transformação. Ob. Comp. Vol. 5, Ed. Vozes, Petrópolis.

Samuels, A. - "Will the Post- Jungians Survive?"- Conferência na Irish Analytical Psychology Association, em 22 de novembro de 1997. ( Artigo no site da associação na Internet.)

Jung, C.G.- O Significado do Inconsciente na Educação Individual. In: Ob. Comp. Vol. 17, Editora Vozes, Petrópolis.

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sábado, 5 de julho de 2008

Muitas vezes deixada de lado por perseguirmos...?

Era uma vez... um rei que tinha quatro esposas. Ele amava a 4ª esposa demais e vivia dando-lhe lindos presentes, jóias e roupas caras. Ele dava-lhe de tudo e sempre do melhor.

Ele também amava muito sua 3ª esposa e gostava de exibi-la aos reinados vizinhos. Contudo, ele tinha medo que um dia, ela o deixasse por outro rei.

Ele também amava sua 2ª esposa. Ela era sua confidente e estava sempre pronta para ele, com amabilidade e paciência. Sempre que o rei tinha que enfrentar um problema, ele confiava nela para atravessar esses tempos de dificuldade.

A 1ª esposa era uma parceira muito leal e fazia tudo que estava ao seu alcance para manter o rei muito rico e poderoso, ele e o reino. Mas, ele não amava a 1ª esposa, e apesar dela o amar profundamente, ele mal tomava conhecimento dela.

Um dia, o rei caiu doente e percebeu que seu fim estava próximo. Ele pensou em toda a luxúria da sua vida e meditou:
— E agora? eu tenho 4 esposas comigo, mas quando eu morrer, com quantas poderei contar?

Então, ele perguntou à 4ª esposa:

— Eu te amei tanto, querida, te cobri das mais finas roupas e jóias. Mostrei o quanto eu te amava cuidando bem de você. Agora que eu estou morrendo, você é capaz de morrer comigo, para não me deixar sozinho?

— De jeito nenhum! respondeu a 4ª esposa e saiu do quarto sem sequer olhar para trás.

A resposta que ela deu, cortou o coração do rei como se fosse uma faca afiada.

Tristemente, o rei então perguntou para a 3ª esposa:

— Eu também te amei tanto a vida inteira. Agora que eu estou morrendo, você será capaz de morrer comigo, para não me deixar sozinho?

— Não!!!, respondeu a 3ª esposa.

— A vida é boa demais! Quando você morrer, eu vou é casar de novo.

O coração do rei sangrou e gelou de tanta dor.

Ele perguntou então à 2ª esposa:
— Eu sempre recorri a você quando precisei de ajuda e você sempre esteve ao meu lado. Quando eu morrer, você será capaz de morrer comigo, para me fazer companhia?
— Sinto muito, mas desta vez eu não posso fazer o que você me pede! respondeu a 2ª esposa.

— O máximo que eu posso fazer é enterrar você!

Essa resposta veio como um trovão na cabeça do rei e mais uma vez ele ficou arrasado. Daí, então, uma voz se fez ouvir:

— Eu partirei com você e o seguirei por onde você for...


O rei levantou os olhos e lá estava a sua 1ª esposa, tão magrinha, tão mal nutrida, tão sofrida... Com o coração partido, o rei falou:

— Eu deveria ter cuidado muito melhor de você enquanto eu ainda podia...

Na verdade, nós todos temos 4 esposas nas nossas vidas...
Nossa 4ª esposa é o nosso corpo. Apesar de todos os esforços que fazemos para mantê-lo saudável e bonito, ele nos deixará quando morrermos...

Nossa 3ª esposa são as nossas posses, as nossas propriedades, as nossas riquezas. Quando morremos, tudo isso vai para os outros.

Nossa 2ª esposa, representa a nossa família e nossos amigos. Apesar de nos amarem muito e estarem sempre nos apoiando, o máximo que eles podem fazer é nos enterrar...

E nossa 1ª esposa é a nossa ALMA, muitas vezes deixada de lado por perseguirmos, durante a vida toda, a Riqueza, o Poder e os Prazeres do nosso Ego... Mas apesar de tudo isso, a nossa Alma é a única coisa que sempre irá conosco, não importa aonde formos...

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