sexta-feira, 14 de abril de 2023

Como Hitler usou o incêndio do congresso alemão politicamente – Terça Livre




Como Hitler usou o incêndio do congresso alemão politicamente

A Verdadeira História do Incêndio do Reichstag e da Ascensão Nazista ao Poder

Você sabe o que aconteceu na Alemanha em 27 de fevereiro de 1933, quando uma parte considerável do prédio parlamentar em Berlim, o Reichstag, pegou fogo devido a um incêndio criminoso?

Foi o boi de piranha político – um evento crítico quando Adolf Hitler jogou com o medo das pessoas e dos políticos para consolidar o seu poder tirânico, preparando o terreno para a ascensão da Alemanha nazista. Desde então, tornou-se uma poderosa metáfora política. Sempre que cidadãos e políticos se sentem ameaçados o “Incêndio do Reichstag” é referenciado como um sinal de advertência.

Esse fato histórico tornou-se uma espécie de taquigrafia política – mas a verdadeira história do evento é muito mais complicada do que as manchetes sugerem.

A primeira experiência da Alemanha com a democracia liberal nasceu da Constituição de Weimar de 1919, estabelecida após o fim da Primeira Guerra Mundial. Ela exigia um presidente eleito por voto direto, que nomearia um chanceler para apresentar leis aos membros do Reichstag (que também eram eleitos por voto popular). O presidente manteve o poder de demitir seu gabinete e o chanceler, dissolver um Reichstag ineficaz e, em casos de emergência nacional, invocar algo conhecido como Artigo 48, que dava ao presidente poderes ditatoriais e o direito de intervir diretamente no governo da Alemanha.

Na noite de 27 de fevereiro, por volta das 9h, os pedestres que estavam perto do Reichstag ouviram o som de vidro quebrando. Logo depois, as chamas irromperam do prédio. Os bombeiros levaram horas para conter o incêndio que destruiu a câmara de debates e a cúpula dourada do Reichstag, causando danos de mais de US$ 1 milhão de dólares. A polícia prendeu um trabalhador da construção civil no local, um holandês desempregado chamado Marinus van der Lubbe. O jovem foi encontrado do lado de fora do prédio com tochas em sua posse, ofegante e suando.

“Este é um sinal dado por Deus”, disse Hitler a von Papen quando chegou ao local. “Se este incêndio, como acredito, é obra dos comunistas, então devemos esmagar essa peste assassina com mão de ferro.”

Poucas horas depois, em 28 de fevereiro, Hindenburg invocou o Artigo 48 e o gabinete redigiu o “Decreto do Presidente do Reich para a Proteção do Povo e do Estado”. A lei aboliu a liberdade de expressão, reunião, privacidade e imprensa; escutas telefônicas legalizadas e interceptação de correspondência; e suspendeu a autonomia dos estados federados, como a Baviera. Naquela noite, cerca de 4.000 pessoas foram detidas, encarceradas e torturadas pela polícia. Embora o partido comunista tivesse vencido 17% das eleições do Reichstag em novembro de 1932 e o povo alemão tivesse eleito 81 deputados comunistas nas eleições de 5 de março, muitos foram detidos indefinidamente após o incêndio. Seus assentos vazios deixaram os Nacionais Socialistas livres para fazer o que quisessem.

“Por trás da controvérsia estava a questão de maior destaque da tomada do poder pelos nacionais-socialistas: a ditadura foi resultado de um crime político ou simplesmente um evento oportuno?”, escreveu o historiador Anson Rabinbach.

É uma questão que estudiosos e historiadores vêm debatendo desde o início do incêndio. Seus argumentos preenchem centenas de páginas e numerosos livros. Alguns denunciam as evidências do nazistas como fabricadas, enquanto outros se aprofundam em outros aspectos de menos importância.

Para o historiador Peter Black, consultor do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, a teoria de um homem só como Van der Lubbe agindo sozinho parecia correta até 2013, quando uma nova pesquisa surgiu com o livro de Benjamin Hett: “Burning the Reichstag”. Hett escreveu que, dada a extensão do incêndio e a quantidade de tempo que seria necessária dentro do Reichstag para incendiá-lo, não havia como Van der Lubbe agir sozinho. Citando depoimentos de testemunhas que vieram a público após a queda da União Soviética, Hett argumentou que os comunistas não estavam envolvidos; em vez disso, disse Hett, o grupo de nazistas que investigou o incêndio e mais tarde discutiu suas causas com historiadores e encobriu o envolvimento nazista para evitar o processo de “crimes de guerra”.

Black não concorda totalmente com a avaliação de Hett, mas diz que agora está convencido de que a teoria de um homem só é falsa. “Eu diria que Van der Lubbe não poderia ter começado aquele incêndio sozinho, com base nas evidências que agora estão disponíveis”, diz ele. “Parece provável que os nazistas estivessem envolvidos. Mas você não tem ninguém que possa dizer: sim, eu vi os nazistas.”

Tendo ou não a ajuda dos nazistas, Van der Lubbe confessou o incêndio criminoso, foi considerado culpado e condenado à morte. Os outros quatro réus foram curiosamente absolvidos por “falta de provas”, mas o incêndio continuou a ser brandido como uma conspiração comunista.

Em 23 de março, o Reichstag aprovou a Lei de Habilitação, a peça legislativa parceira do Decreto de 28 de fevereiro para a Proteção do Povo e do Estado. A Lei de Habilitação atribuiu todo o poder legislativo a Hitler e seus ministros, garantindo assim sua capacidade de controlar o aparato político. Quando o presidente Hindenburg morreu em agosto de 1934, Hitler escreveu uma nova lei que unia os cargos de presidente e chanceler. Foi sancionado por um plebiscito nacional. E o resto é conhecido de todos.

Os nazistas realmente ajudaram a atear fogo? Van der Lubbe agiu sozinho? É quase impossível saber, já que “a maioria das pessoas que saberiam ou não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial ou não quiseram falar sobre isso depois”, diz Black. O governo alemão concedeu perdão a Van der Lubbe em 2008, 75 anos depois de sua decapitação. E embora o incêndio do Reichstag tenha gerado décadas de mistério, uma coisa é certa: desempenhou um papel crítico na ascensão dos nazistas ao poder. O incêndio provou a influência do perigoso novo ditador da Alemanha – cuja visão de refazer a nação estava apenas começando.

É como disse certa vez o filósofo e escritor Olavo de Carvalho: “Qualquer ato de violência física, em política, é apenas propaganda, preparando jogadas de poder mais decisivas. Para saber quem o planejou e comandou, basta averiguar quem tirou proveito político dele nos dias que se seguiram. Esta regra é praticamente infalível.”



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quarta-feira, 12 de abril de 2023

Conheça a Assafétida e seus benefícios – Bazar Indiano

Pote com Assafétida

assafétida é uma planta muito comum no oriente médio, possui um cheiro marcante, é muito utilizada em pó na culinária e na medicina ayurvédica (também na chinesa e até homeopática), com muitas propriedades terapêuticas.

A planta é da família das Apiaceae, também conhecida como férula, funcho-gigante  ou esterco-do-diabo.

Árvore da assafétida

Como citamos, a especiaria normalmente é comercializada em pó e basta uma pequena quantidade no preparo de comidas. É muito utilizada na substituição do alho e cebola.

Se você já teve a oportunidade de fazer uma refeição em um restaurante indiano ou com inspiração na culinária indiana, provavelmente já provou o sabor dessa peculiar especiaria.

Explicaremos logo abaixo como usar essa especiaria oriental que vem ganhando espaço na culinária ocidental.

Benefícios da Assafétida na saúde

A assafétida é uma planta medicinal conforme já mencionamos. Possui um poderoso agente digestivo, limpa a flora intestinal, destruindo até mesmo vermes.

Seus benefícios atuam no tratamento de diversas desordens como:

  • Gases
  • Gastrite
  • Dispepsia
  • Síndrome do cólon irritável
  • Tosse forte
  • Catarro
  • Vermes
  • Cólicas intestinais
  • Convulsões
  • Hipertensão
  • Bronquite crônica
  • Asma.

Porém, como muitos produtos medicinais, é preciso tomar cuidado com superdosagem: O uso de uma dose muito alta pode causar edema labial, e queixas gastrointestinais – arrotos, flatulência e diarreia; mal-estar e dores de cabeça.

Comprar assafétida

Cultivo e fabricação da assafétida

A especiaria provém da goma da resina que vem da seiva seca extraída do caule e raízes da planta. A resina é branca-acinzentada quando fresca, mas seca é de cor âmbar. A resina assafétida é difícil de utilizar e passa por um processo tradicional de trituração rudimentar com pedras e martelo.

Atualmente, a forma mais comumente comercializada é de forma composta: um pó fino contendo 30% de resina assafétida, juntamente com farinha de arroz (ou farinha de trigo) e goma arábica. Desta forma, inclusive, o cheiro característico dela, é bem mais suave, até mesmo agradável, lembrando muito um tempero baseado em cebola e alho.

Uma curiosidade, é que na Índia, é usado especialmente pela casta mercante dos hindus e por adeptos do jainismo (e até os Hare Krishnas), que, justamente, não comem cebola ou alho. É usado na maioria dos pratos vegetarianos e principalmente em lentilhas, tanto para adicionar sabor e aroma, como para reduzir a flatulência (característico da digestão de leguminosas).

Pote com Assafétida

Como usar a assafétida como tempero

Costuma-se usar 1/2 colher de café. Vá aos poucos. Experimente.

É muito importante usá-la durante o refogado (com manteiga ghee ou outra gordura saudável de sua preferência), pois é no aquecimento do pó na gordura que soltam-se as propriedades da especiaria. Da mesma forma em que no Brasil costuma-se pré-refogar cebola e alho antes de despejar na panela o alimento que será preparado.

A assafétida confere um sabor muito especial a diversos preparos:

  • Leguminosas como feijões, lentilhas, grão de bico, ervilhas, etc.
  • Verduras
  • Arroz
  • Risotos
  • Molhos
    …todos os preparos ganham um toque especial com essa especiaria.

A Assafétida e seus nomes no mundo a fora

Seu odor pungente resultou em ser chamado por muitos nomes desagradáveis. Assim, em francês é conhecido (entre outros nomes) como Merde du Diable. Em alguns dialectos do inglês também era conhecido como Devil’s Dung, e nomes equivalentes podem ser encontrados na maioria das línguas germânicas (por exemplo, Teufelsdreck em alemão, Dyvelsträck em sueco, Duivelsdrek em holandês, Afrikaans em Duiwelsdrek). Também em finlandês, como Pirunpaska ou Pirunpihka. Em turco, é conhecido como Seytantersi, Seytan bökösu ou Seytanotu (a erva do diabo). Em muitas das línguas indo-arianas é conhecido como hing ou “Heeng”.

Assafétida na Umbanda

A umbanda também usa assafétida e acredita que ela tem o poder de bloquear energias negativas. É usada em processos de defumação de ervas ou ainda em spray, na forma de fluído.


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Prakrita-sahajiyas: Origem e Deturpações


Prakrita-sahajiyas: Origem e Deturpações

Suhotra Swami

Os vaishnavas, devotos do Senhor Krishna, utilizam o termo prakrita-sahajiya para se referirem a pessoas que imitam os sinais de prema, amor puro por Deus, enquanto permanecem viciados aos prazeres baixos do sexo ilícito e intoxicação. Os sahajiyas imaginam que sentem as emoções divinas de Krishna e de Sua mais querida devota, Srimati Radharani. Contudo, não compreendem que, antes que possamos saborear o prazer compartilhado entre Radha e Krishna, temos que nos livrar dos desejos luxuriosos por prazer sensual.

A palavra sahaja significa “fácil”. Um prakrita-sahajiya quer a bem-aventurança da vida espiritual sem o esforço necessário para obtê-la. E a palavra prakrita significa “materialista”. Porque os sahajiyas não seguem as disciplinas padrões de bhakti-yoga, o suposto amor divino que eles aparentemente exibem jamais transcende verdadeiramente a luxúria material.

Os prakrita-sahajiyas confundem o desejo de gozo dos sentidos, a doença da alma, com avanço espiritual. Então, em vez de se curarem do gozo egoísta dos sentidos, terminam cultivando-o.

Bhagavad-gita (16.23-24) recomenda que sigamos sastra-vidhi, as direções das escrituras, a fim de nos purificarmos do gozo dos sentidos. O sastra-vidhi convida-nos especialmente a abandonarmos o consumo de carne, o sexo ilícito, os jogos de azar e a intoxicação e a cantar o maha-mantra Hare Krishna. Isso gradualmente nos apronta para raga-marga, o caminho da atração natural por Krishna, reservada para devotos altamente avançados.

Os prakrita-sahajiyas, entretanto, são negligentes com as regulações escriturais. Mantêm-se apegados ao desfrute materialista dos sentidos. Porque esse desfrute sensorial os cega, suas ideias referentes a Krishna, aos devotos de Krishna, ao serviço a Krishna e ao amor a Krishna nada são além de criações defeituosas de sua própria natureza inferior.

Segundo o historiador bengali Dr. S. B. Das Gupta, o movimento sahajiya bengali é muito anterior ao tempo de Sri Chaitanya Mahaprabhu, tendo se originado na dinastia budista Pala (aprox. 700-1100 d.C.). Nesse tempo, um culto secreto de nome Sahajayana surgiu dentro da escola Vajrayana do budismo.

Os budistas Sahajayanas abandonaram o ritualismo e o estudo das escrituras, considerando-os inúteis. Eles praticavam um “yoga do sexo”, no qual acreditavam se conscientizar de ser a unidade dos princípios masculino e feminino, às vezes chamados upaya prajna, às vezes chamados de karuna e sunyata. Os budistas Sahajayanas escreveram muitas canções, conhecidas como caryapadas, expressando sua filosofia em linguagem misteriosa.

Posteriormente, sob o regime dos reis da dinastia Sena, o vaishnavismo tornou-se ascendente na Bengala quando o grande mestre espiritual Jayadeva Gosvami passou a receber patrocínio real. Os budistas sahajiyas, então, absorveram aspectos da filosofia vaishnava e os deturparam. Eles renomearam seus princípios upaya e prajna para “Krishna” e “Radha”, imaginando que Radha-Krishna representam o estado mais elevado de bem-aventurança obtido pelos homens e mulheres no caminho sahajiya.

No século XIII, com a ocupação islâmica da Índia setentrional e da Bengala, os sahajiyas foram influenciados pelas práticas e pela filosofia dos sufis. A palavra “sufi” vem da palavra arábica saf, cujo significado é “sagrado”, e designa uma ordem mística islâmica constituída de mendicantes. Sua meta é um estado de inspiração chamado fana, ou unidade em amor com Alá.

Os sufis buscam atingir o fana através de canto e dança. Na Idade Média, sofreram perseguições como hereges nos países árabes, especialmente porque alguns pregadores sufis anunciavam que eles próprios eram o Alá adorado por todos os muçulmanos. Na Índia, contudo, os sufis puderam florescer, dado que suas ideias muito tinham em comum com a filosofia impersonalista, ou mayavada.

O século XVI testemunhou o advento de Sri Chaitanya Mahaprabhu e de Seu movimento de sankirtana, canto congregacional dos santos nomes de Deus.

Em uma típica falta de clareza social, os sahajiyas, que haviam surgido de entre os budistas e se fundido com os sufis, agora cantavam e dançavam às margens do movimento de sankirtana. Ali, celebravam seu misticismo sexual mundano com música e dança.

Isso, é claro, era uma perversão do movimento de sankirtana, em virtude do que o Senhor Chaitanya e Seus seguidores rejeitaram os sahajiyas. Isso é evidente no Sri Chaitanya-charitamrita, que nos relata quão estritamente o Senhor Chaitanya seguia as regras do celibato e quão severamente lidava com os devotos que quebravam as regras de conduta sexual.

No século XVIII, contudo, o grande movimento iniciado pelo Senhor Chaitanya parecia ter-se corrompido pelos gosvamis de casta e ritualísticos brahmanas smartas. Isso conferiu aos sahajiyas a chance de influenciarem as pessoas comuns, e várias seitas prakrita-sahajiyas se popularizaram.

No século seguinte, portanto, Srila Bhaktivinoda Thakura dedicou-se a distinguir os ensinamentos puros do Senhor Chaitanya e as perversões prakrita-sahajiyas. Seguindo seu exemplo, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati se opôs fortemente àqueles que se desviavam dos ensinamentos do Senhor Chaitanya. E Srila Prabhupada manteve esse mesmo curso forte e sem concessões.

Como Srila Prabhupada afirma em seu comentário ao Chaitanya-charitamrita, os sahajiyas “dão-se à gratificação sensória em nome de serviço devocional”. Deste modo, “eles enlameiam a transcendência”. Eles batem suas emoções materialistas até que se tornem um estado de êxtase sentimental, e isso eles tomam por espiritual. Contudo, o primeiro passo no avanço espiritual é distinguir entre espírito e matéria, o que os sahajiyas confundem.

“O nome de Krishna é todo-poderoso”, os sahajiyas dizem. “Por conseguinte, o estado espiritual de um guru ou discípulo na iniciação não importa, porque o santo nome funciona através de seu próprio poder. Não há necessidade de dizer a alguém que siga regras. Deixemos que cante Hare Krishna, fume, beba, jogue e faça sexo. O santo nome purificará a pessoa das reações pecaminosas”.

Mestres espirituais genuínos rejeitam tais noções como ofensas ao santo nome de Krishna. O santo nome do Senhor é certamente onipotente, assim como o fogo é muito potente. Contudo, o fogo pode dar a vida e o fogo pode matar. Assim também se dá com o santo nome de Krishna, que, se apropriadamente cantado sob a guia de um mestre espiritual, queima os apegos materiais restantes de um devoto, nutrindo-lhe a vida espiritual. Porém, se o poder expiatório do santo nome é utilizado como uma ferramenta para misturar vida espiritual com intoxicação e sexo ilícito, o efeito é ruinoso.

Outra característica da atitude sahajiya é sua “humildade” pervertida, que é, na verdade, mera inveja. Os sahajiyas se consideram simples e modestos, e os devotos estritos eles consideram orgulhosos. Por exemplo, os sahajiyas consideram que um devoto que se torna conhecido por difundir a consciência de Krishna caiu nas garras do desejo por nome e fama. Um devoto que contesta o ateísmo e o materialismo é vaidoso. O canto congregacional dos santos nomes de Deus é exibicionismo. Devotos preocupados em abster-se de sexo ilícito, tabagismo e outros desfrutes nocivos são fanáticos e internamente apegados a tais prazeres.

Os sahajiyas veem com maus olhos os devotos que se aceitam discípulos e os treinam nos princípios escriturais. As escrituras, os sahajiyas acreditam, opõem-se à verdadeira devoção. Assim, os sahajiyas ou interpretam as escrituras à sua própria maneira ou escrevem novas escrituras a fim de “provarem” que sexo desregulado e intoxicação promovem, e não obstruem, a consciência espiritual.

Em resumo, os prakrita-sahajiyas são resolutos desfrutadores sensoriais. Embora possuam talentos para canto, dança, atuação, fala, descontração e sedução de homens e mulheres, embora tentem dizer que tais talentos são conquistas espirituais e embora possam se vestir como devotos de Krishna, eles, na verdade, não sabem distinguir o canto ofensivo do canto puro do santo nome, nem o serviço mundano do serviço devocional, a luxúria do amor, e a ilusão da espiritualidade.

Srila Prabhupada certa vez contou uma história para ilustrar como temos que seguir o método de bhakti-yoga para obter amor por Krishna. Na história, um homem tentava cozinhar com a chama no chão e a panela pendurada perto do teto. “Se você quer cozinhar”, Prabhupada disse, “você tem que cozinhar de acordo com o método. Você pode ter uma panela e pode ter o fogo, mas se você não cozinhar segundo o método, você jamais terá comida”.


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Hoje é dia do sagrado desaparecimento de Sri Abhirama Thakura. Dia 12/04/2023 quarta-feira.

Shri Abhirama Thakura era conhecido como Abhirama Gopala e também como Rama dasa Bhirama dasa. “Aquele que antes era conhecido como Sridama, um gopa durante o Krishna-lila, agora é conhecido como Abhirama ou Rama dasa. Ele era o favorito de Nityananda Prabhu.
   Um dia, Krishna, Balarama e seus amigos vaqueiros estavam brincando de esconde-esconde. No meio do jogo deles, Krishna decidiu ir para Nadia para desfrutar de seus passatempos lá, e assim, levando consigo Balarama e todos os amigos deles, Ele veio a Navadwipa. De uma forma ou de outra, Ele esqueceu Sridama, que permaneceu em seu esconderijo em uma caverna. Depois de um tempo, Krishna percebeu que Sridam havia sido deixado para trás e enviou Balarama como Nityananda, que encontrou Sridam e disse a ele: “Vamos! Todos nós fomos a Nadia para brincar lá!”
Sridama perguntou: “Quem é você?”
“Eu sou seu Senhor Balarama. Você não pode me reconhecer?
“Você não pode ser meu Senhor Balaram. Você é muito pequeno.
[Em Kali yuga a medida do corpo é de 3,5 mãos, enquanto em Dwapara-yuga é de 7 mãos.]
“Se você não acredita em mim, então saia correndo. Se eu não posso
pegar você dentro de dez passos, então você saberá que não sou Balarama.”
"Tudo bem! Apanha-me Se Puderes!"
Sridama saiu correndo, mas Nityananda Prabhu o pegou imediatamente. Mas agora Sridama disse a Ele: "Agora olhe aqui, vocês me deixaram para trás, então não vou para sua Nuddia ou qualquer que seja o nome do lugar."
   Nityananda Prabhu continuou persuadindo-o, mas Sridama foi inflexível. Finalmente ele manifestou uma expansão de si mesmo, Rama dasa, que concordou em ir. Mas Sridam ainda queria ficar para trás, pois seus sentimentos estavam muito feridos.
   Rama dasa também estava insatisfeito e muito propenso à raiva. Quando o primeiro filho de Nityananda Prabhu nasceu, Abhirama Thakura veio oferecer suas reverências à criança, que morreu no local. Desta forma, sete dos filhos de Nityananda tiveram que partir deste mundo logo após nascerem. Finalmente uma filha, Ganga-devi, nasceu de Nityananda Prabhu e Vasudha devi. Quando, depois de oferecer suas reverências à criança, Abhirama Thakur viu que o bebê não estava afetado, exclamou: "Desta vez não fomos enganados!" Então ele imediatamente compôs cem versos em louvor a Ganga-devi. Quando Viracandra Prabhu nasceu, Abhirama novamente veio para oferecer suas reverências. Quando ele viu que Viracandra não foi afetado, ele compôs Shri Birbhadrastakam.
   Se Abhirama Thakura oferecesse suas reverências a qualquer pedra que não fosse um Shalagram-sila, essa pedra quebraria. Certa vez, Abhirama Thakur veio a Shri Khanda, querendo conhecer Raghunandana Thakura. Mukunda dasa estava ciente de sua reputação e, portanto, disse a Thakura que Raghunandana não estava lá. Sentindo-se desapontado, Abhirama partiu. Quando Raghunandan soube que Abhirama Thakura tinha vindo ao seu encontro, ele correu para alcançá-lo. Finalmente ele o encontrou em Bor Danga, onde dançaram juntos em êxtase. Quando Raghunandana estava dançando, seu nupur (pulseira de tornozelo) caiu e caiu em Akaihat, onde Kaliya Krishna dasa costumava fazer seu bhajan. Este nupur ainda está sendo adorado junto com a Deidade de Kaliya Krishna Thakura em Karvi, não muito longe de Katwa.
   Gopala guru Gosvami também foi testado de forma semelhante por Abhirama Thakura quando ele era apenas um garotinho que vivia com Mahaprabhu em Puri. Pela misericórdia de Mahaprabhu, que investiu Sua potência em Gopala guru, o menino saiu ileso.
   O Sripat de Abhirama Thakura está em Khanakhul Krishnanagar. Khanakhul Krishnanagar pode ser alcançado de ônibus de Tarakeshwar, que é conectado por trem da estação Bandel. Também pode ser alcançado de ônibus de Atapur, o Sripat de Patameshvari dasa Thakura.
   O nome de sua esposa era Shri Malini-devi. Sua adorável Deidade Shri Gopinathji Quem, depois de aparecer pela primeira vez para ele em um sonho, manifestou-se em Khanakhul Krishnanagar. A lenda é que Ele apareceu em um sonho para Abhirama Thakura e disse: “Estou dentro da terra aqui. Por favor, leve-me para fora e adore-me”. Abhirama dasa escavou naquele lugar e encontrou dentro do útero da terra a forma encantadora de Shri Gopinathji. Aquele lugar onde a divindade foi encontrada ficou conhecido como Ram Kund. “No lugar onde Shri Gopinathji surgiu, formou-se um lago, e a água nele contida era doce como néctar. Quem se banhava ou bebia daquela água ficava fora de si de êxtase. Posteriormente, esta terra tornou-se famosa como Ram Kund. Tendo ouvido falar desses passatempos divinos de Shri Gopinathji, um fluxo incessante de pessoas desceu naquele lugar como as águas do rio Ganges.” [Bhakti-Ratnakar Taranga 4]
   Um dia, enquanto estava em estado de êxtase na lembrança de Shri Krishna, Abhirama Thakura, no humor de um vaqueirinho, desejou tocar flauta. Na loucura do amor extático, ele começou a procurar por um em todas as direções. Então ele viu diante de si um grande tronco de árvore que nem mesmo dezesseis homens conseguiam erguer. Com isso ele formou uma flauta e começou a tocá-la. “Rama dasa, um dos principais ramos, estava cheio de amor fraterno por Deus. Ele fez uma flauta de uma vara com dezesseis nós.” [C.C. Adi 11.16]
   Shri Abhirama Thakura tinha um célebre chicote, cujo nome era Jaya-Mangala. Quem foi tocado por aquele chicote teve os sintomas do amor por Krishna despertados em sua pessoa.
   Um dia, Srinivasa Acharya veio encontrar Abhirama Thakura. Depois de tocá-lo três vezes com seu chicote, sua esposa Malini-devi exclamou: “Thakura, não bata mais nele! Contenha-se! Ele é apenas um menino. Ele ficará muito excitado com o toque do seu chicote. Enquanto isso, Srinivasa havia se afogado completamente em Krishna-prema.
   Quando Shri Gaurasundara ordenou que Nityananda prabhu pregasse em Gaudadesa (Bengal), ele enviou com ele Shri Rama dasa, Shri Gadadhar dasa e outros. Os ateus tremeram de medo ao ver Abhirama Thakura. Ele era um erudito estudioso das escrituras. De acordo com o desejo de Nityananda Prabhu, ele se casou. Seu desaparecimento é no sétimo dia da quinzena escura do mês de Caitra.
   Os descendentes dos discípulos de Abhirama Thakura ainda vivem nos distritos de Hugli e Bankura, em Krishnanagar, Amta, Visnupur e Kotalpur.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Importância da Educação física na escola e para vida. João Maria andarilho- Americana -SP

A pedagogia da iniciação esportiva: um estudo sobre o ensino dos jogos desportivos coletivos



*Doutorando: Valdomiro de Oliveira*
* Doutor: Roberto Rodrigues Paes**
http://www.pedagogiadobasquete.com.br mirobasquete@terra.com.br
(Brasil)


 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 10 - N° 71 - Abril de 2004

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    Nos dias atuais, temos observado um aumento considerável nas discussões sobre as metodologias de ensino-aprendizagem dos desportos; nos jogos desportivos coletivos, inúmeros são os assuntos a serem debatidos. Nossa intenção, neste capítulo, refere-se ao diálogo relacionado ao desenvolvimento esportivo, entendido como processo de ensino, que ocorre desde que a criança inicia-se na atividade esportiva, até sua dedicação exclusiva em uma modalidade. Objetivamos abranger os assuntos pertinentes ao ensino de habilidades e competências tático-cognitivas e também considerações sobre o desenvolvimento das capacidades físicas e dos jogos desportivos coletivos por intermédio dos estudos em pedagogia do esporte.

    Os jogos desportivos coletivos são constituídos por várias modalidades esportivas - voleibol, futsal, futebol, handebol, pólo aquático, basquetebol - entre outros e, desde sua origem, têm sido praticados por crianças e adolescentes dos mais diferentes povos e nações. Sua evolução é constante, ficando cada vez mais evidente seu caráter competitivo, regido por regras e regulamentos (Teodorescu, 1984). Por outro lado, os autores da pedagogia do esporte também têm constatado a importância dos jogos desportivos coletivos para a educação de crianças e adolescentes de todos os segmentos da sociedade brasileira, uma vez que sua prática pode promover intervenções quanto à cooperação, convivência, participação, inclusão, entre outros.

    A pedagogia do esporte busca estudar esse processo, e as ciências do esporte, em suas diferentes dimensões, identificaram vários problemas, os quais serão balizadores deste estudo: busca de resultados em curto prazo; especialização precoce; carência de planejamento; fragmentação do ensino dos conteúdos; e aspectos relevantes, que tratam da compreensão do fenômeno na sua função social. Assim sendo, o ensino dos jogos desportivos coletivos deve ser concebido como um processo na busca da aprendizagem. Esse pensamento faz-nos refletir acerca da procura por pedagogias que possam transcender as metodologias já existentes, a fim de inserir, no processo de iniciação esportiva, métodos científicos pouco experimentados. Dessa forma, é de fundamental importância discutirmos a pedagogia da iniciação esportiva, com o respaldo teórico de estudiosos do assunto.


Referenciais teóricos para o ensino dos jogos desportivos coletivos

    Vários autores apresentam propostas, visando discutir o ensino dos esportes. No caso dos jogos desportivos coletivos, verificamos aumento crescente no diálogo, almejando a busca de novos procedimentos pedagógicos, com vistas a facilitar o aprendizado.

    Mertens & Musch (1990) apresentam uma proposta para o ensino dos jogos coletivos, tomando como referência a idéia do jogo, no qual as situações de exercícios da técnica aparecem claramente nas situações táticas, simplificando o jogo formal para jogos reduzidos e relacionando situações de jogo com o jogo propriamente dito. Essa forma de jogo deve preservar a autenticidade e a autonomia dos praticantes, respeitando-se o jogo formal. Sendo assim, deve-se manter as estruturas específicas de cada modalidade; a finalização, a criação de oportunidades para o drible, passe, e lançamentos nas ações ofensivas. O posicionamento defensivo é generalizado e almeja-se dificultar a organização ofensiva dos adversários, principalmente nas interceptações dos passes, estabelecendo uma dinâmica entre as fases de defesa-transição-ataque.

    Bayer (1994) afirma coexistir duas correntes pedagógicas de ensino para os jogos desportivos coletivos: uma utiliza os métodos tradicionais ou didáticos, decompondo os elementos (fragmentação), na qual a memorização e a repetição permitem moldar a criança e o adolescente ao modelo adulto. A outra corrente destaca os métodos ativos, que levam em conta os interesses dos jovens e que, a partir de situações vivenciadas, iniciativa, imaginação e reflexão possam favorecer a aquisição de um saber adaptado às situações causadas pela imprevisibilidade. Essa abordagem pedagógica, chamada de pedagogia das situações, deve promover aos indivíduos a cooperação com seus companheiros, a integração ao coletivo, opondo-se aos adversários, mostrando, ao aprendiz, as possibilidades de percepção das "situação de jogo", interferindo na tomada de decisão, elaborando uma "solução mental", buscando resolver os problemas que surgem com respostas motoras mais rápidas, principalmente nas interceptações e antecipações, frente às atividade dos adversários.

    Ainda nesse raciocínio, Gallahue e Osmum (1995) apregoam uma abordagem desenvolvimentista, que, ao ensinar as habilidades motoras (técnicas) para a faixa etária de 7- 10 anos, a aprendizagem deve ser totalmente aberta, ou seja, os conteúdos do ensino são aplicados pelo professor e praticados pelos alunos, sem interferência e correções dos gestos motores. Para a faixa etária de 11- 12 anos, o ensino é parcialmente aberto, isto é, há breves correções na técnica dos movimentos. Na faixa de 13- 14 anos, o ensino é parcialmente fechado, pois inicia-se o processo de especificidade dos gestos de cada modalidade na procura da especialização desportiva, e somente após os 14 anos de idade deve acontecer o ensino totalmente fechado, específico de cada modalidade coletiva, e também o aperfeiçoamento dos sistemas táticos que cada modalidade necessita. Entendemos que, nessa forma de ensino-aprendizagem, a técnica (habilidade motora) estará sendo desenvolvida em situações que acontecem na maior parte do tempo nos jogos coletivos. Isso nos faz crer que a assimilação por parte dos alunos/atletas seja beneficiada, e, posteriormente, a prática constante poderá predispor a especialização dos gestos motores que permanecerão para o resto da vida.

    Nesse contexto, Greco (1998) sugere o ensino através do método situacional, em situações de 1x0-1x1-2 x 1, em que as situações 1, isoladas dos jogos, são aprendidas com números reduzidos de praticantes. Este autor também defende que a técnica desportiva é praticada na iniciação aos conceitos da tática, ou seja, aliando o "como fazer" à "razão de fazer". Não se trata de trabalhar os conteúdos da técnica apenas pelo método situacional, mas sim de utilizá-lo como um importante recurso, evitando o ensino somente pelos exercícios analíticos, os quais, como vimos anteriormente, podem não garantir sucesso nas tomadas de decisão frente às situações, por exemplo, de antecipação, que ocorrem de forma imprevisível nos jogos desportivos coletivos.

    Garganta (1998), nos estudos sobre pedagogia do esporte, enumera duas abordagens pedagógicas de ensino: a primeira é mecanicista, centrada na técnica, na qual o jogo é decomposto em elementos técnicos: passe, drible, recepção, arremesso. Os gestos são aprimorados, especializados, e suas conseqüências mostram o jogo pouco criativo, com comportamentos estereotipados e problemas na compreensão do jogo, com leituras deficientes do ponto de vista tático. As situações problema ocasionadas pelas reais situações de jogo, são pobres e podem provocar desvios na evolução do aluno/atleta.

    A segunda abordagem de Garganta (1998) é a das combinações de jogo contidas na tática por intermédio dos jogos condicionados, voltados para o todo, nos quais as relações das partes são fundamentais para a compreensão do jogo, facilitando o processo de aprendizagem da técnica. O jogo é decomposto em unidades funcionais sistemáticas de complexidade crescente, nas quais os princípios do jogo regulam a aprendizagem. As ações técnicas são desenvolvidas com base nas ações táticas, de forma orientada e provocada.

    Cabe-nos ressaltar que, nesse contexto, o objetivo principal é a iniciação aos jogos desportivos coletivos, nos quais acontecem os primeiros contatos das crianças e adolescentes com as atividades desportivas. Dessa forma, as fases seguintes não devem limitar-se exclusivamente a esse método, ou seja, tornam-se necessárias outras possibilidades de ensino, que contemplaremos mais adiante.

    Em relação à pedagogia da iniciação esportiva, Paes (2001) arrola experiências práticas em situações de jogo, também em 1x1-2x2-3x3, e ainda o "jogo possível" como uma possibilidade de ensinar jogos desportivos coletivos, pois o mesmo pode propiciar aos alunos o conhecimento e a aprendizagem dos fundamentos básicos das modalidades coletivas, considerando seus valores relativos e absolutos, e também aprenderem de acordo com suas possibilidades materiais (locais de aprendizagem). Almeja-se, nesse procedimento, a motivação por parte dos alunos ou praticantes, para que os mesmos tomem gosto e possam usufruir a prática desportiva, como beneficio para melhor qualidade de vida, caso seus talentos pessoais não despertem o sucesso atlético.

    Cabe-nos ressaltar que, desde que a criança inicia a prática sistematizada de treinamento na escola ou no clube, não é garantida sua formação atlética simplesmente por seus domínios técnico-táticos. Deve-se levar em consideração sua totalidade, sua vida; física, social, mental e espiritual. Caso a criança opte pela especialização em uma determinada modalidade, pode utilizar-se de tais conhecimentos, fortalecendo o direcionamento na busca de rendimentos superiores. Torna-se valioso também, o cuidado do técnico em diagnosticar, durante a prática, quais crianças e adolescentes necessitam mais de um ou outro estímulo, a fim de promover um melhor ambiente de aprendizagem.

    Até esse momento, discutimos assuntos que tratam de questões relacionadas ao ensino das habilidades e capacidades tático-cognitivas, embasados nos autores até aqui citados, os quais referem-se à pedagogia da iniciação nos jogos desportivos coletivos. Com base nas discussões anteriores sobre os procedimentos de ensino dos jogos desportivos coletivos, em uma pedagogia voltada para a iniciação esportiva, entendemos que há necessidade de estabelecer uma diferenciação da aprendizagem dos conteúdos durante o processo. Dessa forma, mostramos, a seguir, como ocorre, no processo de desenvolvimento, a etapa de iniciação esportiva e suas fases de desenvolvimento, bem como a aplicação dos conteúdos de ensino, haja vista que deve haver uma organização pedagógica dos conteúdos em suas respectivas fases.


Etapa de iniciação esportiva e suas fases de desenvolvimento

    Nos dias atuais, para atingir resultados desportivos superiores, os atletas dedicam-se à atividade esportiva durante muitos anos de suas vidas. Por isso, tornou-se necessária uma subdivisão metodológica rigorosa em longo prazo, relacionada à preparação dos atletas, na qual as etapas e fases não têm prazos definidos de início e finalização, pois dependem não só da idade, mas também do potencial genético do esportista e do ambiente no qual ele está inserido, das particularidades de seu crescimento, maturação, desenvolvimento, da qualidade dos técnicos, entre outros, e também das características de cada modalidade escolhida.

    Toda proposta que visa ao planejamento da prática do esporte em seus diferentes significados prioriza o desenvolvimento dos seus praticantes em etapas e fases que percorrem desde a iniciação até o profissionalismo. Destacamos, neste capítulo, alguns autores que demonstraram essa preocupação: Hahn (1989), Kreb's (1992), Zakharov e Gomes (1992), Gallahue e Osmun (1995), Filin (1996), Matveev (1997), Greco (1998), Weineck (1999), Schimitd (2001) e Paes (2001).

    A etapa de iniciação nos jogos desportivos coletivos é um período que abrange desde o momento em que as crianças iniciam-se nos esportes até a decisão por praticarem uma modalidade. Desta maneira, os conteúdos devem ser ensinados respeitando-se cada fase do desenvolvimento das crianças e dos pré-adolescentes. Sendo assim, optamos por dividir a etapa de iniciação esportiva em três fases de desenvolvimento: a) fase iniciação esportiva I; b) fase de iniciação esportiva II; e c) fase de iniciação esportiva III, sendo que cada fase possui objetivos específicos para o ensino formal e está de acordo com as idades biológica, escolar, cronológica e com as categorias disputadas nos campeonatos municipais e estaduais, diferenciando-se de modalidade para modalidade. No quadro 1, visualizamos essas características, com um exemplo para as disputas nos campeonatos de basquetebol no ensino não formal.

Quadro 1. Periodização do processo de ensino para os jogos desportivos coletivos na etapa
de iniciação esportiva, com um exemplo para o Basquetebol


Fase de iniciação esportiva I

    A fase de iniciação esportiva I corresponde da 1.ª à 4.ª séries do ensino fundamental, atendendo crianças da primeira e segunda infância, com idades entre 7 e 10 anos. O envolvimento das crianças nas atividades desportivas deve ter caráter lúdico, participativo e alegre, a fim de oportunizar o ensino das técnicas desportivas, estimulando o pensamento tático. Todas as crianças devem ter a possibilidade de acesso aos princípios educativos dos jogos e brincadeiras, influenciando positivamente o processo ensino-aprendizagem. Compreendemos que se deve evitar, nos jogos desportivos coletivos, as competições antes dos 12 anos, as quais exigem a perfeição dos movimentos ou gestos motores e também grandes soluções táticas.


Participação em atividades variadas com caráter recreativo

    Paes (1989) pontua que, no processo evolutivo, essa fase - participação em atividades variadas com caráter recreativo - visa à educação do movimento, buscando-se o aprimoramento dos padrões motores e do ritmo geral por meio das atividades lúdicas ou recreativas. Hahn (1989) propõe, com base nos estudos de Grosser (1981), o desenvolvimento das capacidades coordenação, velocidade e flexibilidade, pois esse é o período propício para o início de desenvolvimento. As crianças encontram-se favorecidas, aproximadamente entre 7 a 11 anos, em função da plasticidade do sistema nervoso central, e as atividades devem ser desenvolvidas sob diversos ângulos: complexidade, variabilidade, diversidade e continuidade durante todo o seu processo de desenvolvimento.

    Weineck (1999) pontua que as crianças dessa faixa etária 7 a 11 anos demonstram grande determinação para as brincadeiras com variação de movimentos e ocupam-se de um percentual significativo de jogos, que formam de maneira múltipla. Esse fato nos faz acreditar, que se deve proporcionar então, um ambiente agradável para que o desenvolvimento ocorra sem maiores prejuízos, ou seja, as crianças devem aprimorar o padrão de movimento cuja execução objetiva apenas a estimulação para que, assim, a criança construa o seu próprio repertório motor, sem nenhuma sobrecarga.

    Desta maneira, ao relacionar a participação da criança em atividades motoras na infância, constatou-se que as mesmas gostavam de brincar, o que pode ser comprovado nos estudos de Vieira (1999) e Oliveira (2001), os quais, ao entrevistar talentos da modalidade de atletismo e basquetebol, confirmaram que os atletas, quando crianças, gostavam de caçar, brincar de super-herói, cabo de guerra, amarelinha, demonstrando, assim, interesse pelas atividades lúdicas.

    Nesse contexto, Greco (1998) e Paes (2001) afirmam que a função primordial é assegurar a prática no processo ensino-aprendizagem, com valores e princípios voltados para uma atividade gratificante, motivadora e permanente, reforçada pelos conteúdos desenvolvidos pedagogicamente, respeitando-se as fases sensíveis do desenvolvimento, com carga horária suficiente para não prejudicar as demais atividades como o descanso, a escola, a diversão, dentre outras; caso contrário, será muito difícil atingir os objetivos em cada fase do período de desenvolvimento infantil.

    Oliveira (1997) corrobora com essa tese ao afirmar que, nessa fase, as principais tarefas são os gestos motores, necessários à vida, e deve-se procurar assegurar o desenvolvimento harmonioso do organismo por meio de atividades como escalonamento, saltos, corridas, lançamentos, natação etc., não se devendo, nesse período, apressar a especialização desportiva. Os iniciantes praticam aproximadamente 150 a 300 horas anuais, sendo que o trabalho geral deve predominar em relação às cargas específicas. Isso significa que a especialização precoce, nesse momento, pode não ser adequada.

    Os conteúdos desenvolvidos nessa fase, em conformidade com Paes (2001), devem ser o domínio do corpo, a manipulação da bola, o drible, a recepção e os passes, podendo utilizar-se do jogo como principal método para a aprendizagem. Concordamos com o autor e sugerimos ainda o lançamento, o chute, o saque, o arremesso, quicar e cortar, típicos dos jogos desportivos coletivos. Os espaços, todavia, podem ser reduzidos, para adequar as capacidades físicas das crianças; e os alvos podem ser menores, a exemplo do gol do futsal, do futebol, do handebol; e nos casos do basquetebol e do voleibol, a tabela, o aro e a rede podem ser com alturas menores. Essas modificações também podem ser feitas em outros jogos e brincadeiras. Acreditamos que, com isso, as crianças poderão motivar-se para a prática em função do aumento das possibilidades.

    Em relação aos jogos desportivos coletivos, as atividades lúdicas em forma de brincadeiras e pequenos jogos podem contribuir para desenvolver, nas crianças, as capacidades físicas, tais como a coordenação, a velocidade e a flexibilidade - propícias nessa fase - e também habilidades básicas para futuras especializações, como agilidade, mobilidade, equilíbrio e ritmo. Deve-se evitar a apreensão com a execução errônea do gesto técnico, pois cada forma diferente de movimento em relação ao modelo técnico pode ser aceita, deixando para a fase posterior as cobranças em relação à perfeição dos gestos motores.

    A educação física escolar tem função primordial nessa fase, aumentando a quantidade e a qualidade das atividades, visando a ampliar a capacidade motora das crianças, a qual poderá facilitar o processo de ensino-aprendizagem nas demais fases. De qualquer modo, seja na escola ou no clube, a efetividade da preparação e da formação geral que constituirão a educação geral dos atletas no futuro só poderá ser maximizada na interação professor/técnico, escola, aluno/atleta e demais indivíduos que têm influência no desenvolvimento dos jovens.

    Sendo assim, o sucesso da educação das crianças e adolescentes depende muito da capacidade do professor/treinador e de cada cenário onde o trabalho é desenvolvido. A literatura especializada do treinamento infantil demonstra que, nessa fase, devem-se observar as condições favoráveis para o desenvolvimento de todas as capacidades e qualidades na aplicação dos conteúdos do ensino, por meio de uma ação pedagógica sistematizada.


Fase de iniciação esportiva II

    A fase de iniciação esportiva II é marcada por oportunizar os jovens à aprendizagem de várias modalidades esportivas, atendendo crianças e adolescentes da 5ª à 7ª séries do ensino fundamental, com idades aproximadas de 11 a 13 anos, correspondente à primeira idade puberal. Partindo do princípio de que a fase de iniciação desportiva I visa à estimulação e à ampliação do vocabulário motor por intermédio das atividades variadas específicas, mas não especializadas de nenhum esporte, a fase de iniciação esportiva II dá início à aprendizagem de diversas modalidades esportivas, dentro de suas particularidades.


Aprendizagem diversificada de modalidades esportivas

    Abordaremos, nesse momento, a importância da diversificação, ou seja, a prática de várias modalidades esportivas que contribui para futuras especializações. Defendemos, também, a diversificação dos conteúdos de ensino em uma modalidade, evitando, todavia, a repetição dos mesmos, repetição essa que leva à estabilização da aprendizagem, empobrecendo o repertório motor dos praticantes.

    Em relação à diversificação e à aprendizagem de várias modalidades esportivas, Bayer (1994) entende que, em nível de aprendizagem, o "transfer" é admitido, ou seja, a transferência encontra-se facilitada logo que um jogador a perceba na estrutura dos jogos desportivos coletivos. Assim, os praticantes transferem a aprendizagem de um gesto como o arremessar ao gol no handebol, a cortada do voleibol ou o arremesso da cesta no basquetebol. Trata-se, então, de isolar estruturas semelhantes que existem em todos os jogos coletivos desportivos para que o aprendiz reproduza, compreenda e delas aproprie-se. Entretanto, o autor adverte: "ter a experiência duma estrutura não é recebê-la passivamente, é vivê-la, retomá-la e assumi-la, reencontrando seu sentido constantemente" (Bayer, 1994, p. 629).

    De acordo com a literatura, os iniciantes devem participar de jogos e exercícios, advindos dos esportes específicos e de outros, que auxiliem a melhorar sua base multilateral e no preparo com a base diversificada para o esporte escolhido. As competições devem ter caráter participativo e podem ser estruturadas para reforçar o desenvolvimento das capacidades coordenativas e das destrezas, melhorando a técnica do movimento competitivo, vivenciando formações táticas simples. No entanto, ainda não se deve objetivar o produto final (resultado) nesse momento.

    Deve-se buscar, na iniciação esportiva, a aprendizagem diversificada e motivacional, visando ao desenvolvimento geral. Essa fase caracteriza a passagem da fase da iniciação esportiva I para a fase de iniciação desportiva II, na qual se confere muita importância à auto-imagem, socialização e valorização, por intermédio dos princípios educativos na aprendizagem dos jogos coletivos (Kreb's, 1992; Greco, 1998; Oliveira 1988; e Paes, 2001).

    Nesse período, consolida-se o sistema de preparação em longo prazo, pois é importante não se perder tempo para evitar a estabilidade da aprendizagem. Para Weineck (1991), além da ótima fase para aprender, na qual as diferenças em relação à fase anterior são graduais e as transições são contínuas, as capacidades coordenativas dão base para futuros desempenhos. Por outro lado, deve se evitar a especialização precoce, como afirma Vieira (1999), haja vista que esta pode levar ao abandono do esporte, sem contar que o resultado precoce nas fases inferiores pode, além de promover o abandono, influenciar na formação da personalidade das pessoas, levando-as a atividades inseguras, tornando-as até inconscientes de seu papel perante a sociedade.

    Em se tratando de evitar a especialização precoce, concordamos com Paes (1989), o qual assinala essa fase como generalizada, na qual pretende-se a aquisição das condições básicas de jogo ao lado de um desenvolvimento psicomotor integral, possibilitando a execução de tarefas mais complexas. Essa fase, porém, não deverá ser utilizada para a firmação obrigatória da especialização desportiva dos atletas. Neste sentido, Gallahue (1995) pondera que esse momento é importante para os aprendizes passarem do estágio de transição para o de aplicação, ou seja, aprender com relativa instrução do professor a liberdade dos gestos técnicos. Vieira (1999) corrobora com essa idéia, afirmando que, nessa fase, a atenção está direcionada para a prática bem como para as condições de promover o refinamento da destreza, planejando situações práticas progressivamente mais complexas, ressaltando que o sistema de ensino é parcialmente aberto, no qual as atividades são também parcialmente definidas pelo professor/ técnico.

    De qualquer forma, todas as fases estão em estreita interdependência; as fases posteriores são estruturadas nas anteriores. Essa importância é discutida por Gomes (2002) quando aponta que o ex-campeão do mundo, M.Gross, praticou, paralelamente à natação, futebol, tênis, cross-country e as técnicas de natação eram realizadas por meio de jogos pré-selecionados, melhorando a capacidade coordenativa antes da especialização e do sucesso na natação.

    Segundo Paes (2001), os conteúdos de ensino a serem ministrados nessa fase são os conceitos técnicos e táticos dos desportos: basquetebol, futebol, futsal, voleibol e handebol, nos quais devem ser contemplados, além desses conteúdos, finalizações e fundamentos específicos. Em nosso ponto de vista, deve-se, ainda, trabalhar os exercícios sincronizados e o "jogo", que ainda deve tomar a maior parte do tempo nos treinamentos. Como o tempo maior de trabalho é dedicado a enfatizar o jogo, o ensino-aprendizagem contempla as regras; estas, portanto, devem ser simplificadas, nas quais a tática "razão de fazer" contribui para a aprendizagem da técnica "modo de fazer" e vice-versa.

    Teodorescu (1984) afirma que os aspectos físicos do desenvolvimento morfofisiológico e funcional podem ser desenvolvidos com as influências positivas do jogo no processo de aprendizagem e prática. Deve-se, então, apropriar-se do aumento da intensidade nas aulas e nos treinamento em relação aos espaços dos jogos, visando ao desenvolvimento da capacidade aeróbia, base para outras capacidades. A velocidade de reação, mudança de direção e parada brusca, já desde a fase anterior, deve ser aprimorada, melhorando o controle do corpo. A flexibilidade deve ser desenvolvida de forma agradável, sempre antes das sessões de treinamento, pois se alcançam, nessa fase, períodos ótimos de sensibilidade de desenvolvimento. O tempo dedicado ao treinamento, segundo Gomes (1997), gira em torno de 300 a 600 horas anuais, das quais apenas 25% do tempo é dedicado a conteúdos específicos e 75% aos conteúdos da preparação geral.

    Nos conteúdos de ensino, a ênfase deve se dar no desenvolvimento da destreza e habilidades motoras, sem muita preocupação para as performances de vitórias, haja vista que a capacidade de suportar as experiências nos jogos na infância e início da adolescência é facilitada pela compreensão simplificada das regras e pelo valor relativo dos resultados das ações e não simplesmente pelos títulos a serem alcançados.

    No processo de formação esportiva, além dos dirigentes, pais e árbitros, o técnico é o responsável pela estruturação do treinamento. Ele deve conhecer os fatores que envolvem a iniciação esportiva e a especialização dos jovens praticantes, contribuindo decisivamente na existência de um ambiente formativo-educativo na prática esportiva (Mesquita, 1997).

    Dessa forma, o esporte, como conteúdo pedagógico na educação formal e não formal, deve ter caráter educativo (Paes, 2001). O apoio familiar, as necessidades básicas, motivação, as competições, as possibilidades de novos amigos e as viagens são motivos pelos quais muitos adolescentes continuam na prática esportiva após a aprendizagem inicial. Deste modo, a fase de iniciação esportiva II requer uma instrução com base no modelo referente ao esporte culturalmente determinado. Neste sentido, torna-se imprescindível, para a prática dos jogos desportivos coletivos, uma sistematização dos conteúdos periodizados pedagogicamente, no qual o professor/técnico desempenha papel fundamental no processo de aprendizagem e na busca do rendimento.

    Nessa fase, a escola é o melhor local para a aprendizagem, pois, são inúmeros os motivos no qual crianças e adolescentes procuram os desportos, entre eles: encontrar e jogar com outros garotos, diversão, aprender a jogar e ainda na escola, o professor terá controle da freqüência e da idade dos alunos, facilitando as intervenções pedagógicas. No âmbito informal, como no clube desportivo, isso pode não ocorrer, mas a função do professor/técnico do clube deve propiciar à criança o mesmo tratamento pedagógico que esta recebe na escola, para facilitar o desenvolvimento dos alunos/atletas.


Fase de iniciação esportiva III

    Entendemos que, nesse momento do processo, a iniciação esportiva III é a fase que corresponde à faixa etária aproximada de 13 a 14 anos, às 7ª e 8ª séries do ensino fundamental, passando os atletas pela pubescência. Enfatizamos o desenvolvimento dessa fase, para os alunos/atletas, a automatização e o refinamento dos conteúdos aprendidos anteriormente, nas fases de iniciação esportiva I e II, e a aprendizagem de novos conteúdos, fundamentais nesse momento de desenvolvimento esportivo.


Automatização e refinamento da aprendizagem anterior

    Nessa fase do processo, o jovem procura, por si só, a prática de uma ou mais modalidades esportivas por gosto, prazer, aplicação voluntária e pelo sucesso obtido nas fases anteriores. Neste sentido, os atributos pessoais parecem ser fundamentais para o aperfeiçoamento das capacidades individuais. A idade e o biótipo, além da motivação, são características determinantes para a opção por uma ou outra modalidade na busca da automatização e refinamento da aprendizagem dos conteúdos das fases anteriores, buscando a fixação em uma só modalidade.

    Weineck (1991) reconhece que a seleção dos atletas adolescentes é feita com base nas dimensões corporais e na qualificação técnica, além dos parâmetros fisiológicos e morfológicos. As condições antropométricas, além dos fatores afetivos e sociais, exercem uma influência significativa na detecção de futuros talentos. Desta forma, a preparação das capacidades técnico-táticas recebe uma parte relevante do treinamento, contudo, consideramos o seu desenvolvimento dos atletas aliado a outros fatores, como o desenvolvimento das capacidades físicas. O objetivo é desenvolver, de forma harmônica, todas as capacidades, preparando os adolescentes para a vida e para posteriores práticas especializadas.

    Gallahue (1995) pontua que, nessa fase, acontece a passagem do estágio de aplicação para a estabilização, a qual fica para o resto da vida. Nesse contexto, Vieira (1999) afirma que ocorre, nessa fase da aprendizagem, um ensino por sistema parcialmente fechado (prática). Assim, o plano motor que caracteriza o movimento a ser executado, bem como as demais condições da tarefa, já estão prioritariamente definidos, e almeja-se o aperfeiçoamento. Isso significa que, a partir da aprendizagem de múltiplas modalidades, a prática motora é uma atividade específica. Quer dizer, cada modalidade desportiva coletiva, requer dos indivíduos alguns requisitos relacionados à demandas específicas das tarefas solicitadas.

    O fenômeno, aqui, é a automatização do movimento, isto é, todas as aquisições que aconteceram de forma consciente e com muito gasto de energia podem, agora, ser executadas no subconsciente, com menor gasto energético, ou seja, de forma automatizada.

    Em relação aos conteúdos de ensino, Paes (2001), em sua abordagem escolar, propõe que, além das experiências anteriores, sejam apreendidas pelos atletas, sejam: as situações de jogo, e sistemas ofensivos como também os exercícios sincronizados, cujo principal objetivo é proporcionar aos alunos a execução e a automatização de todos os fundamentos aprendidos, isolando algumas situações de jogo. Com base nesse pensamento, deve-se iniciar as organizações táticas, ofensivas e defensivas sem muitos detalhes. As "situações de jogo" devem ser trabalhadas em 2x1, 2x2, 3x3 e 4x3, possibilitando aos alunos/atletas a oportunidade de praticar os fundamentos aprendidos em situações reais de jogo, com vantagem e desvantagem numérica.

    Outro conteúdo específico nessa fase é a "transição", entendida como contra-ataque nos jogos desportivos coletivos. Paes (2001) define essa fase "como a passagem da ação defensiva para a ação ofensiva" (Paes, 2001, p. 113). Constatamos que a evolução técnica e tática e as mudanças na regras do jogo transformaram a transição ou contra-ataque em objeto de estudo de várias escolas esportivas em todo o mundo. Assim, deve-se dar atenção especial aos aspectos fundamentais que envolvem o treinamento da transição ao ensinar esportes para adolescentes, pois estes aspectos, desenvolvidos com vantagem e desvantagem numérica, podem aperfeiçoar em reais situações de jogo a técnica, a tática, o físico e o psicológico dos alunos/atletas na busca da maestria, ou seja, da autonomia e do conhecimento teórico e prático sobre o contexto dos jogos.

    Em relação às habilidades motoras, a fase de automatização e refinamento enfatiza a prática do que foi aprendido e acrescenta as situações de jogo, transição (contra-ataque) e sistemas táticos de defesa e ataque, os quais, aliados à técnica, visam ao aperfeiçoamento das condições gerais da formação do atleta, na qual os conteúdos de ensino equilibram-se entre exercícios e jogos com o objetivo de ensinar habilidades "técnicas específicas", que são o modo de fazer aliado à "tática específica", a razão de fazer.

    Para uma melhor compreensão sobre a tática, Konzag (1983) a divide em individual e de grupo, tanto no ataque quanto na defesa. Bota e Evulet (2001) acrescentam que a tática de equipe é ações coletivas, indicando os princípios de ações ofensivas que estão nas bases dos sistemas dos jogos desportivos coletivos; posicionamento rápido, contra ataque, ataque e defesa. As ações táticas em grupos entre dois e três atacantes ou defensores com e sem bola são subordinações dos princípios do jogo. As ações individuais com e sem bola são utilizadas somente por jogadas de um só jogador.

    O desenvolvimento das capacidades físicas deve acontecer logo que a criança inicia as atividades em forma de brincadeiras nas ruas ou jogos recreativos na pré-escola e na 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental, e também a partir do momento que entra na 5.ª e 6.ª séries, nos jogos coletivos desportivos específicos. O próprio jogo coletivo, por meio de seus conteúdos, tem a finalidade de aperfeiçoar a velocidade de reação, a coordenação, a flexibilidade e a capacidade aeróbica dos pré-adolescentes. Isso se torna necessário para um desenvolvimento físico generalizado através de exercícios e jogos.

    Na fase de automatização e refinamento dos fundamentos - exercícios sincronizados e sistemas aprendidos - e o desenvolvimento das capacidades físicas, volta-se para o aperfeiçoamento do que já foi conseguido anteriormente, fortalecendo a estrutura física, destacando as capacidades físicas específicas de um determinado esporte; como exemplo, a resistência de velocidade, muito utilizada no basquetebol, futsal, futebol entre outros.

    No caso das habilidades (técnicas), como exposto anteriormente, os jogos e as brincadeiras, nas fases de iniciação desportiva I e II, objetivam à aprendizagem da manipulação de bola, passe-recepção, entre outras, e no domínio corporal, a agilidade, mobilidade, ritmo e equilíbrio; dando início à formação tática e ao aperfeiçoamento das capacidades físicas - coordenação, flexibilidade e velocidade - que constituem as bases para a fase de iniciação esportiva III, a qual possui, como conteúdos, a automatização e o refinamento da aprendizagem, preparando os alunos/atletas para a especialização.

    Na fase iniciação esportiva III, a automatização e o refinamento da aprendizagem inicial possibilitam ao praticante optar por uma outra modalidade após as experiências vividas e depois da aprendizagem de várias modalidades esportivas. Acreditamos que os movimentos desorganizados aos poucos vão se coordenando, e os jovens, por sua própria natureza e interesse, vão se decidindo em qual modalidade se especializarão.

    Nesse período do processo de desenvolvimento, os técnicos de cada modalidade utilizam suas experiências e competência profissional como instrumento de seleção esportiva. Outras possibilidades são necessárias para auxiliar os técnicos, como o apoio dos pais, das prefeituras, dos estados, das instituições, federações e confederações, a fim de promover os talentos (Oliveira, 1997).


Considerações finais

    Acreditamos que a iniciação nos jogos desportivos coletivos deva ser entendida pelos agentes esportivos: técnicos, dirigentes, etc, como um processo que inicia-se logo que as crianças tem suas primeiras vivencias com os jogos até o final dos quatorze anos, período este que torna -se necessário a especialização em uma modalidade quando as vistas é a formação do atleta. Esse processo chamado de etapa de iniciação esportiva deve constituir-se de fases e sua constituição acontece com as experiências dos praticantes, aliada a um projeto pedagógico onde os conteúdos do ensino das habilidades e o desenvolvimento das capacidades motoras, ocorram de forma diversificada, motivadora oportunizando a participação e a aprendizagem do maior número possível de praticantes principalmente nas agencias formais de ensino, com base no método de jogo, dentro da especificidade de cada modalidade praticada pelas crianças e adolescentes, possibilitando um ótimo desenvolvimento da aprendizagem motora, dando bases para as futuras especializações nas modalidades escolhidas pelos próprios praticantes. Especialização esta que acontecerá após quatorze anos de idade.


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Hoje é dia do Sagrado Jejum Sri Apara Ekadasi dia 13/05/26 quarta-feira lendo e explicando.

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